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Miguel Gonçalves ("Momentos de Mudança", SIC).

Miguel Gonçalves (“Momentos de Mudança”, SIC).

ADVERTÊNCIA: O artigo do dia pode conter vestígios de bílis, ácido cítrico e frutos secos. Contém edulcorantes e activadores de sabor. Recomenda-se a leitura consciente e com moderação.

Eu, contra Miguel Gonçalves me confesso.

Desde que, no final de 2011, este guru de ir ao microondas – fure a embalagem com um garfo e aqueça durante 2 minutos − se revelou no TEDxYouth Braga, excessivamente alimentado pela radioactividade com sotaque e falso profissional da comunicação, berrando repetidamente noemas de sabedoria bracarense e dando solavancos aos braços ao jeito de um Muhammad Ali a pilhas como os peluches mecanizados dos vendedores de rua, que algo em mim se animou contra este ababelado pregador do empreendedorismo, espécie de profeta neo-esclavagista, Aquiles dos negócios pronto a estraçalhar todo o indivíduo que não aceite prostrar-se perante os deuses do mercado, sacrificar-se à lógica comercial, para quem produtos e pessoas são uma e a mesma coisa, mas com nomes diferentes.

(Switchconf.com)

(Switchconf.com)

E se Miguel Gonçalves, peso pesado da frase feita, talvez inspirado pelo seu homónimo Relvas, já era figura polémica desde esse fatídico dia de 2011, que, aliás, lhe granjeou uma série de fiéis, naturais adeptos da parolice tossicando frasezecas engraçadas aos berros – afinal, quem é que não gosta de uma boa algaraviada? –, a entrevista dada ao i veio mais claramente assinalá-lo como persona non grata junto de quem tem miolos na cabeça. As generalizações têm por hábito dar asneira, e Miguel Gonçalves, homem que se define como speaker – porque falador, em português, punha a nu a verdade desguarnecida do que faz –, numa penada, no seu estilo impulsivo de quem acha que aquilo que é preciso é «bater murro com muita, muita força», usou três.

Palavra do senhor: «(…) Muitos dos que estão desempregados estão desempregados porque, ponto número um, não querem trabalhar e, ponto número dois, são maus a fazê-lo (…) Às vezes, as pessoas pensam que os desempregados são pessoas extraordinariamente focadas, profissionais, rigorosas, cheias de fibra, de atitude e competência. Não são. É mentira».

Pumba! Hat-trick para ti, Miguel! Lançamento de três pontos!

Isto, vindo de alguém que aqui há uns meses apareceu na televisão dizendo qualquer coisa como ser universitário é a coisa mais sexy do universo e propalando nas suas conferências que Portugal e os portugueses são dos melhores profissionais do mundo, deveria espantar, mas nem isso consegue. São, afinal, as idiossincrasias da governação. Quando era um cidadão comum, Miguel Gonçalves tinha uma maneira esquisita de falar e uma concepção distorcida, qual puré instantâneo de frases e cubinhos congelados feito, e talvez até uma certa incapacidade para distinguir correlações e causalidades, mas eram as suas opiniões. Agora que, de uma forma ou de outra, é governo, zás!, Miguel Gonçalves perde o norte e a vergonha, e já percebeu isso que todos os governantes mais tarde ou mais cedo descobrem, e, benemérito, vem agora ensinar-nos que o mal do país é, e sempre foi, essa cambada de malandros que dá pelo nome de portugueses, corja com a qual ele, felizmente, nada tem a ver, desde que era um gaiato em Monção e que sonhava já com Silicon Valley e com Stanford e com a corporate shit e com o shit chat evangélico de uma distorcida visão do empalhado self-made man.

(Dezembro de 2011, TEDxYouth Braga)

(Dezembro de 2011, TEDxYouth Braga)

De facto, para Miguel Gonçalves, indivíduo que o que quer «é empurrar pessoas» e «levantar paralelo», não bastava a criminosa generalização de que os desempregados são ou aqueles que não querem trabalhar ou aqueles que são maus a fazê-lo, imbuído da falsidade capitalisto-ficcional de que, para os bons, para os melhores, haverá sempre espaço. Não contente, Miguel Gonçalves, pronúncia do norte que é um prenúncio de morte, teve ainda fôlego para anunciar ao país que os desempregados são pessoas sem objectivos, gente amadora, laxista, apática e incompetente. Sei bem que sou um humanista e que talvez por isso me insurja mais violentamente contra tais insultos, mas as declarações de Miguel Gonçalves, cassete inglesa posta em modo aleatório, são tão somente e tão declaradamente isso: injúrias dementes de quem já não é deste plano da vida, de quem já se libertou de todos os constrangimentos morais, de quem, afinal, já é outra coisa que não exactamente um Homem. São, novamente, as idiossincrasias da governação. O ónus da culpa em nós. Todos. Sempre.

«Se não te consegues candidatar a um emprego de mil e quinhentos euros, candidata-te a um de mil. Se não consegues um de mil, candidata-te a um de seiscentos. Ou então emigra. Ou então emigra.», diz Miguel Gonçalves em tom despreocupado, a repetição a marcar a obviedade que todos deveríamos assimilar, enquanto dá de ombros. Quando é assim que uma pessoa que até nem tem responsabilidades no país se dirige aos seus semelhantes, com tal indiferença, com tamanho desrespeito pelas condições de vida dos seus concidadãos, pondo e dispondo de tudo o que é dos outros, não se pode permitir que esta pessoa ande por aí a aconselhar os jovens, e muito menos fazer dele a cara do Impulso Jovem, porque já se percebeu que o impulso será precário, e já se adivinha que, mais provável do que menos, é que o «empurrar pessoas» signifique mais um precipício do que um cume. Nunca ninguém foi empurrado montanha acima. Aliás, é o próprio Miguel Gonçalves, inveterado viajante por lugares-comuns, que o diz: «Ninguém o fará por vocês». E aí tem razão.

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Miguel Gonçalves, Embaixador do Impulso Jovem, com o ex-Ministro Miguel Relvas, que o nomeou (LUSA).

Mas um erro nunca vem só, nem pode vir, para alguém cuja visibilidade recente é da responsabilidade do acertado ex-Ministro Relvas, e a Miguel Gonçalves, rapaz dos relógios coloridos e das sapatilhas cor-de-laranja, só fica mal não ter a sensibilidade para recusar um tal convite. Mas isso também não nos deve espantar, pois a converseta estéril deste guru do país das maravilhas, que Relvas conheceu no Youtube e se calhar aliciou numa sala de conversação, fazendo-se passar por loira emplumada e siliconeada – sabemos do gosto do Miguel, o Gonçalves, por Silicon Valley –, encontra no Miguel, o Relvas, o indómito Ministro especialista em atacar o seu povo, perfeito amante e cara-metade. Miguel Gonçalves é também um poeta, e, mais do que isso, um verdadeiro linguista. Não nos enganemos: este homem, portento da etimologia, é o sujeito que acha que a palavra empreendedor termina em dor porque empreender é realmente difícil e desafiante, e que se espanta com a descoberta com a inocência feliz da criança que percebe que, se desviar a cabeça, o brinquedo afinal não desaparece do mundo. Mas por que não? É também este o homem que decompõe atuação (e viva o Acordo!) em a tua acção, porque a actuação dos outros, dos mercados, das empresas, terá também e sempre o ónus em nós, todos nós, preguiçosos lanudos a bebericar essas malditas imperiais em excesso que abriram a porta à crise com a facilidade doce e bamboleante das caricas a saltitar sobre a superfície fria da mesa.

Mas quero dizer mais: Miguel Gonçalves é um tipo perigoso. Afirmando-se ignorante político, mostra-se também pouco conhecedor do verdadeiro funcionamento das sociedades, desinteressado das matérias sociais ou das trivialidades que compõem a vida, pouca atenção dando à história ou dela tirando sentido. Segue, cego e seguro, no «bater murro» que tudo resolve, na insistência descabeçada das ideias, ideias, ideias, da criatividade, do out-of-the-box, do mudar o mundo, da loucura norte-americana de que só vê o lado glamouroso da mão-cheia de exemplos de sucesso, mas que ignora o efectivo funcionamento da economia e dos sistemas políticos, que desdenha, como os sistemas, a sua influência nociva sobre as pessoas, que não sabe nada sobre as condições de vida dos que sobrevivem com quatrocentos euros por mês, e que advoga, enfim, que todos sejamos remediados, novos escravos, mas, ó deuses!, com ideias! E, aqui como sempre no mundo dos valores vazios e universais, formatadores das empresas, a lógica é essa: chamar criativos a estes profissionais, como que dizendo que as gentes comuns são estática astenia; chamar criador de ideias a estoutro, como que afirmando que os demais são pedra inerte e desenxabida. Afinal, todos temos de ser duplos uns dos outros: ser focado, ser dinâmico e pró-activo, self-made man, ter drive, ser workaholic até às entranhas e falar à Wall Street, não ter vida pessoal e ter sonhos molhados com Silicon Valley, acreditar que só em Stanford e no MIT se aprende qualquer coisinha, e ser tão semelhante a todos os outros quanto possível. Miguel Gonçalves faz o impossível: advogar a cópia massificada dos indivíduos enquanto recomenda o mais tenebroso darwinismo social, a lei do mais forte, o ir para a frente sem olhar a mais, nem a meios.

Enfim, o que releva de tudo isto? Que estamos na presença de mais um partidário do a culpa é toda nossa, é de todos. São vocês que não se esforçam. São vocês que não atinam com o mercado. São vocês que cometeram o erro de escolher fazer aquilo de que gostam em vez de se porem a tirar o curso que vos faria ricos. São vocês que não valem a pena. São vocês os imbecis que não conseguem fazer 100 euros por mês em pipocas à porta dos cinemas à beira da falência para pagar os estudos. São vocês que têm de sair da prateleira, como o fazem as latas de atum – ai não, caramba, que aqui a comparação já não funciona… − São vocês que, se aos 20 anos não conseguem fazer 100 euros por mês para pagar os estudos, estão tramados. 

Falar como tu falas não custa muito; não custa nada. Tens o valor de ter criado a tua empresa e de lhe dar bom rumo, e muitos são aqueles que, entre nós, o fazem das formas mais brilhantes e merecedoras do maior crédito. O ponto não está aí. O ponto está em que não percebes de mais nada, nem és capaz de avaliar a realidade integrando todos os seus aspectos e imensões. O ponto está na postura imerecidamente arrogante do fenómeno televisivo em que te vais tornando, entretido e entretendo-nos com chavões manhosos, raciocínios a salto e metáforas gastas como aquelas estatuetas que algumas cidades têm e onde as gentes vão esfregar as mãos pedindo desejos que, fatalmente, não é por um tal acto que se realizam. Como as tuas figuras de estilo.

Disse, algures, que és um falso profissional da comunicação. Perdoa-me, pois vejo agora que me enganei: dominas o discurso com mestria, e já percebeste que, nos meios por onde te mexes, a realidade importa já muito pouco. Percebeste como lucrar com o novo fôlego – em grande medida também pernicioso – político dado à ideia de que o empreendedorismo é para todos. Percebeste como lucrar com a ideia de que o mercado é inevitável, e que o que é preciso é que as pessoas aprendam a bem deixar-se subjugar. Percebeste, no fundo, que o truque afinal foi sempre esse: não querer saber das pessoas para nada. Senta-te agora, Miguel, pois que te vou desferir o último golpe no ventre: não és melhor do que esses escritores e gurus oportunistas, confundindo banalidades assentes em pressupostos movediços com os planos da pólvora que no elevar da voz pensando ser tiro de canhão parecem convencer. Mas a verdade não precisa de tais artifícios. Não, Miguel, não és melhor do que esses salafrários que escrevem livros como O Segredo, O Céu Existe Mesmo!, Como ser um Líder Eficaz?, Como Enriquecer na Bolsa com Warren Buffett?, Emprego Bom e Já!… A ti, como a todos eles, falta-te substância.

Gostas de dizer: põe tudo o que és em tudo o que fazes. Da próxima, não escolhas a idiotice. Pode poupar-te dissabores, e textos como este.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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