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Complexa é a nossa existência. Queremos sempre ir além das nossas necessidades, tentamos superar as nossas capacidades, lutamos a todo o custo pela obtenção do nosso comodismo, e que falta ele nos faz. Pautamos a nossa postura diária pela norma imperiosa da simplificação do mundo real, e por isso é que vamos de carro quando podíamos ir a pé, que comemos comida plastificada só para não termos o trabalho de cozinhar, que falamos com familiares e amigos pelo Facebook em vez de nos encontrarmos com eles. A tecnologia tornou-se num instrumento detentor de uma influência fundamental na forma como os seres humanos actuam e se relacionam, alcançando agora o um campo que se pretende físico e presencial: o acto sexual. Sexo à distância, é este o futuro que queremos para nós?

A inovação, tornada pública esta semana pela criadora Durex, tem por base a comunicação entre dois elementos em tudo distintos: roupa interior e uma aplicação para smartphone. O conceito baseia-se na existência de boxers, cuecas ou soutiens equipados com sensores vibratórios que palpitam junto à pele aquando da ordem transmitida pelo respectivo smartphone através de uma aplicação denominada Fundawear. Classificado pela marca australiana como “o futuro dos preliminares”, o sistema permite assim que duas pessoas se possam acariciar mesmo estando a milhares de quilómetros de distância, sendo que a intensidade da vibração até pode oscilar consoante a vontade do parceiro. E assim se dá mais uma machadada num sistema de relações interpessoais cada vez mais enfraquecido.

A tecnologia deve ser posta ao nosso serviço e nunca ser ela a servir-se de nós. É fundamental investir na evolução, mas esse progresso deve ser orientado para áreas fundamentais que realmente contribuam para o melhoramento da nossa condição de vida. Talvez pela nossa racionalidade tantas vezes irracional, o campo das relações sociais é frágil e muito permeável a transformações estruturais que são efectivadas como consequência da banalização de determinados dispositivos tecnológicos. Pensemos no que era a vida das pessoas antes e depois da televisão, antes e depois da internet, antes e depois do Facebook, e na radical mudança de hábitos que tais mecanismos provocaram nas pessoas. A generalização destes instrumentos trouxe benefícios imensuráveis, mas também possui um lado negro e poderoso que se situa aos níveis da massificação directa e individualizada dos cidadãos e da redução do contacto presencial entre os mesmos. A televisão, o iphone e as redes sociais tornaram-se nos nossos melhores amigos e é através da enorme atenção diária que lhes prestamos que nos deixamos guiar por aquilo que nos é dito (tomando como verdadeiro tudo aquilo que aparece nos meios de comunicação social e contribuindo para a uniformização de mentalidades) e que nos afastamos daqueles de quem gostamos, porque mandar uma mensagem ou colocar um ‘like’ é bem mais prático e rápido, e assim até podemos permanecer no conforto do nosso sofá.

A Durex e a sua inovadora Foundawear exemplificam a brutal penetração tecnológica de que todos estamos a ser alvo nesta nova era. Já com contornos de violação, a técnica está extinguir a nossa privacidade e a afrontar a condição mais natural do ser humano: a de animal social. Este não é o futuro que queremos, não queremos construir um mundo em que a comunicação online supere o encanto do toque da proximidade física e o acto sexual passe a ser consumado por comando remoto via smartphone. Temos que combater a preguiça, inverter esta tendência que o capitalismo insiste em nos impor e lutar pelo iluminismo com a força de quem quer continuar a ser humano.

Diogo Taborda desenhoDiogo Taborda

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One thought on “Penetração tecnológica

  1. Não pode ser, impossível, o ser humano não pode perder toda a sua criatividade e sentimentos! Vamos acreditar que tal não vai acontecer!!!! De qualquer forma a tecnologia dos dias de hoje é uma grande ameaça para a Humanidade, especialmente para aqueles que se deixam influenciar com mais facilidade. Se assim for, estamos perdidos!

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