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Benfica - Torino 4-3

Cada país tem os seus “grandes” do futebol. Mas se em Portugal os tais ditos grandes têm sido sempre Benfica, Porto e Sporting, o mesmo não acontece em Itália onde, antes da afirmação da “troika” formada por Juventus, Milan e Inter, outros clubes chegaram a mandar no futebol ao longo dos anos.

 O primeiro grande de Itália foi o Génova, o clube mais antigo do país, fundado em 1893 pelos ingleses e que ganhou nove títulos entre 1898 e 1924, sendo também a primeira equipa a coser sobre as próprias camisolas o símbolo do «scudetto», e a adoptar um treinador profissional, o também inglês William Garbutt.

Outros tubarões do futebol italiano das origens foram os brancos da Pro Vercelli – sete títulos entre 1908 e 1922 – e o Bologna, equipa pela qual torcia Benito Mussolini e cuja época dourada, em que somou seis títulos nacionais, de 1925 a 1941, coincidiu mesmo com os anos do Fascismo, mas que voltaria a ganhar um sétimo e último título em 1964, após um jogo de desempate contra o Inter.

Estes foram então os três primeiros grandes a ditar a própria lei no «calcio». Mas numa gélida noite de Dezembro de 1906, numa cervejaria de Turim, nascia o Torino Football Club, criado por uma parte de dirigentes da já constituída (e ainda não muito poderosa) Juventus, que, contra a decisão do clube de passar ao profissionalismo, juntaram as forças com o Internazionale Torino e o Fc Torinese, dois dos três emblemas que em 1898 cederam ao Génova a vitória no torneio de estreia do campeonato italiano.

Devido ao primeiro escândalo de corrupção na história do futebol italiano, o primeiro título do Torino, em 1927, foi revogado. Mesmo assim, o clube demorou apenas um ano mais para se sagrar finalmente campeão de Itália pela primeira vez, na temporada de 1927-28. Mas para falar da gloriosa história do Grande Torino havia que esperar pelos anos da segunda guerra mundial, quando, após terem alcançado uma série de lugares de honra – terceiro em 1936, juntamente com a conquista da Taça Itália, outra vez terceiro em 1937, e segundo em 1939 e 1942 – os «granata» voltaram a ganhar o título, na época de 1942-43.

E aqui é que a história deixa o lugar à lenda: eixo da selecção «azzurra» dos anos 40, o Torino podia ter contado com os melhores jogadores italianos da década, e alguns dos melhores de sempre. Ao redor do capitão Valentino Mazzola – médio ofensivo e pai do também número 10, Sandro, que, nos anos 60 e 70, se tornaria na bandeira do Inter do Mago Helenio Herrera – circundavam craques do calibre do guarda-redes Valerio Bacigalupo, dos defesas Aldo Ballarin e Mario Rigamonti, do lateral Valentino Maroso, dos trincos Giuseppe Grezar e Eusebio Castigliano, dos alas Ezio Loik e Romeo Monti, e dos avançados Franco Ossola e Guglielmo Gabetto.

Esta a equipa base da época 1948-49, em que o Torino ia sagrar-se campeão pela quinta vez consecutiva. No meio ocorrera a paragem pela Segunda Guerra Mundial e o campeonato bélico, ganho pelos Bombeiros de La Spezia, que a federação italiana de futebol reconheceria apenas nos anos 2000. Mas para além disso, ao longo dos anos aquela mítica equipa «granata» revolucionou o futebol italiano, adoptando também um novo esquema de jogo com a passagem do metodo WW (2-3-2-3), com o qual nos anos 30 a selecção italiana conquistara dois Mundiais, ao sistema WM (3-2-2-3), nascido na Inglaterra e “importado” para Itália mesmo à mercê do Grande Torino.

Uma lenda, porém, destinada a acabar da forma mais dramática, com o acidente de avião que, a 4 de Maio de 1949, ficou na história como a Tragédia de Superga. Um episódio que toda a gente em Itália conhece, jovens e velhos, mas cujos contornos muito pouca gente sabe. Quantos são os que se lembram que o avião que levava o Torino para casa vinha mesmo de Lisboa? E qual o motivo desta viagem à capital portuguesa?

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Francisco Ferreira e Valentino Mazzola trocam galhardetes antes do início da partida entre Benfica e Torino.

O périplo dos nórdicos italianos por terras lusitanas vinha a propósito de um jogo particular organizado pelo Benfica para homenagear Francisco Ferreira. O capitão das águias e da selecção encontrara Valentino Mazzola poucos meses antes, no final de Fevereiro de 1949, por ocasião de um jogo entre Itália e Portugal disputado em Génova. Os dois tornaram-se amigos e resolveram organizar um amigável de homenagem ao capitão benfiquista, ainda que não fosse aquele o jogo de despedida para o futebol do líder do Benfica.

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Euforia à volta do encontro faz manchete de jornal.

Para além da amizade entre os dois jogadores, os encarnados quiseram convidar o Torino também pela importância do emblema italiano, e pela assistência que o desafio frente a um conjunto tão poderoso e conhecido iria garantir. O que ninguém esperava, nem sequer podia imaginar, eram as verdadeiras e dramáticas razões que iriam transportar aquela partida directamente para as páginas da história. O eco da tragédia de Superga foi imenso também em Lisboa: no dia seguinte, milhares de pessoas reuniram-se espontaneamente à frente da embaixada italiana para dar os pêsames e homenagear a equipa de Turim.

A história daqueles dias, e em particular daquele último jogo do Grande Torino, é alvo do documentário Benfica-Torino 4-3 (ver trailer), apresentado no passado dia 24 de março no Festival do Cinema Italiano de Lisboa, no âmbito da 6.ª edição do certame.

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Documentário Benfica-Torino 4-3

Massimiliano Rossi, colaborador do blog Sosteniamo Pereira, questionou os dois realizadores sobre o propósito da realização do documentário. Numa típica tasca lisboeta, o turinês e torinista Andrea Ragusa, e o lisboeta e benfiquista Nuno Figueiredo, responderam às nossas perguntas e saudaram os leitores do “Palavras ao Poste”.

MR – Como surgiu a ideia de realizar este filme?

Andrea – Em primeiro lugar, porque nunca tinha sido tomado em conta o ponto de observação português deste acontecimento. Em Itália, ouvi até alguém dizer que o Torino tinha ido jogar a Madrid contra o Real e outras coisas que não correspondiam à verdade, como a alegada despedida para o futebol de Ferreira acertada para aquele jogo. E mais, quisemos realizar este documentário para contar alguns pequenos pormenores, pequenas histórias que nunca tinham sido contadas.

MR – Então o objectivo principal era mostrar esta última deslocação do Torino, numa perspectiva diferente, também ao público italiano?

Nuno – Sim, mas também mostrar aos portugueses o que foi o Grande Torino, juntamente com uma parte da história do Benfica anterior à época do Eusébio. Afinal, o aspecto desportivo em si mesmo interessava-nos relativamente, o que mais nos importava era contar uma história de amizade num futebol de outros tempos.

De salientar também que o próprio Eusébio apareceu na estreia do filme no cinema São Jorge, a 24 de março, enquanto outros dirigentes e antigos jogadores do clube estiveram presentes neste mesmo fim-de-semana no Cine-Teatro Turim, em Benfica.

21101_580860361944901_1520408781_aMarco Gaviglio (com apoio de Massimiliano Rossi )

*Jornalista e colaborador do blog «Sosteniamo Pereira»

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