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Este artigo poderá conter personagens ou cenas consideradas chocantes. Aconselha-se a leitura com supervisão parental, em sítio calmo e de caneleiras postas.

Não existe uma profissão de maior risco, no panorama laboral português, que a de jogador profissional de futebol. E antes que se levantem as sobrancelhas, em jeito contestatário, a julgar que é um privilégio “ganhar o pão” enquanto se corre atrás de uma bola, peço que imaginem que são um jogador em campo e que, enquanto detêm a posse da esfera, são marcados por Paulinho Santos. Se ainda não estão a suar, peço que caminhem urgentemente para o combate num qualquer conflito bélico. São pessoas corajosas.

E coragem é o que um jogador de futebol precisa, para vestir a camisola e entrar, de forma calma e confiante, em campo, pronto a enfrentar uma hora e meia de ataques, ora previsíveis, ora surpreendentes, daquelas que são as figuras mais temíveis no terreno. Não me refiro aos árbitros, refiro-me aos Caceteiros. Para quem desvaloriza os Caceteiros, que a mim me trazem à imagem uma união bem sucedida entre Van Damme e Stallone, o dicionário regista-os como indivíduos assalariados para cometer agressões. E penso que está mais que definido. O Caceteiro é pago por um clube para, disfarçado de jogador de futebol, partir o maior número de pernas adversárias que lhe seja possível.

Mas, atenção, por norma o Caceteiro sabe desempenhar outras funções. Habitualmente ocupa o espaço mais recuado no terreno e é exímio na prática defensiva. Porque para este jogador vale tudo para defender o seu campo minado, desculpando-se de qualquer atitude violenta, com a sua capacidade instintiva de salvar a bola ou anular o adversário. Adversário que lhes surge com uma característica muito especial, e que já faz parte da gíria do ramo: tem uma canela que vai até ao pescoço. Que é como quem diz, para o Caceteiro vale tudo menos acertar na cabeça. Se não calhar.

Paulinho Santos que o diga. Este é, naturalmente, o Pai dos Caceteiros portugueses, pelo que defendo que seja erguida uma estátua em Vila do Conde, naturalidade do ex-jogador portista. Proponho como legenda da obra: “Caceteiro de Caxinas”, que construiu a sua carreira na base da cacetada. E é disso que nos lembramos nele. Disso, e das suas canelas preferidas, as do João Vieira Pinto, tido como seu ódio de estimação. João Manuel Pinto, também um mestre Caceteiro, elucidou-nos sobre esse facto, numa entrevista dada há um par de anos: “O Paulinho detestava o João. Perdão. O Paulinho detestava o Benfica e detestava o João por este ser o melhor jogador do Benfica na altura. Ele ia para a guerra com o objectivo bem definido: dar no João Pinto. Transformava-se noutra pessoa”. Ficou célebre o clássico na Invicta, decorrido o ano de 97, em que Paulinho Santos deu uma festa amigável a João Vieira Pinto e o deixou a comer papas, ao rebentar-lhe com o maxilar.

Considero Bruno Alves um dos melhores discípulos que Paulinho Santos poderia ter. É verdade que a forma escolhida para dar cacetada não segue fielmente a do mestre. Bruno Alves prefere misturar futebol com artes marciais e fazer disso um espectáculo. Talvez seja por isso que o rácio de faltas cometidas versus cartões mostrados seja tão baixo. Bruno Alves salta, dá piruetas e salta novamente, para conseguir administrar o golpe certeiro. E à semelhança do seu mestre, envergou o azul e branco, como traje de combate contra o vermelho do Sul. Destaque para a mediática cabeçada a Nuno Gomes, em mais um clássico fatídico.

Começamos, a esta altura, a estabelecer um padrão no Caceteiro português, como que uma Prenúncia do Norte. Se aos nomes de Paulinho Santos e Bruno Alves, juntarmos os de Jorge Costa, Fernando Couto, Pepe ou Pedro Emanuel, poderíamos concluir que isto da cacetada faz parte de uma identidade clubística. Mas vai, claramente, mais longe. A identidade caceteira não é de um clube, mas sim de uma cidade. A cidade do Porto é berço da mais famosa escola de Caceteiros do país, a do Boavista. Nunca um clube distribuiu tantas mazelas nas canelas dos adversários como os axadrezados. Penso que uma parte dos treinos orientados por Jaime Pacheco consistia mesmo em afiar os pitons. Que o digam os infelizes que atravessaram o caminho de jogadores como Bobó ou Petit, caceteiros natos.

Há, pois, uma tradição clara na criação de Caceteiros no Norte do País. E o papel dos clubes do Sul é importá-los. Sá Pinto nasceu no Porto e trocou o Salgueiros pelo Sporting, onde refinou o seu papel de predador, desculpando-se com a entrega ao emblema leonino. Só que Sá Pinto tinha uma particularidade, não distinguia os alvos a abater. E da mesma forma que poderia entrar duramente sobre um jogador, poderia atacar um seleccionador, se o seu instinto assim o determinasse. Poderia ter acontecido que Artur Jorge tivesse provado da ira de Sá Pinto, caso este para aí estivesse virado. Ou isso aconteceu mesmo?

Uma das tentativas experimentais de criar um caceteiro no Sul mostrou tal eficácia, que não sei como a fórmula ainda não foi copiada. João Pereira é o exemplo de que a espécie poder ser desenvolvida na Capital. A questão é que, neste caso, o Caceteiro pode voltar-se contra o Criador, algo que não estamos habituados na zona Norte. E, assim, depois de alimentados os instintos, o Benfica tem assistido e provado da ira de João Pereira, que distribui cacetada ora a Norte, no Braga, ora a Sul, no Sporting. O que não torna este jogador completo é o facto de se esquecer que, quando entra em campo, tem de jogar à bola, enquanto distribui a cacetada. Porque uma coisa não vive sem a outra.

A tradição dividida entre o Benfica e o Sporting reside, mesmo, em procurar Caceteiros que não falem português. Esta é uma solução astuta. Porque na hora do protesto ninguém os entende e podem inventar as mais variadas desculpas para justificar os seus actos violentos. E nesta balança comercial negativa, o marroquino Tahar El Khalej, o brasileiro Rochemback ou o espanhol Javi Garcia, têm sido nomes de peso para equilibrar os índices de cacetada em campo.

Outro Caceteiro de peso, a atravessar o futebol português nos últimos anos, e que merece o devido destaque, é Gilles Binya. De entre as cacetadas investidas de águia ao peito (e que não foram poucas, face ao número de partidas jogadas pelo camaronês), destaca-se a entrada dura sobre Scott Brown, num encontro frente ao Celtic, a contar para a Liga dos Campeões. A UEFA viu a cena de olho bem aberto e puniu o jogador com seis jogos de suspensão. O Benfica recorreu. Afinal, tratava-se apenas de uma “cacetadinha”, bem ao modo português. Problema dos europeus, pouco acostumados ao toque.

E toque a toque, no adversário, vai construindo o Caceteiro a sua carreira e afirmando a sua importância no futebol nacional. Os nomes acima enunciados distinguem-se por não serem capazes do toque pontual, que, de forma acidental ou propositada, vai mostrando o lado mais feio do jogo, mas que fazem disso uma característica constante na forma como se assumem como jogadores. E, com essa consciência, fazem deste futebol nacional uma Profissão de Risco. Coragem aos restantes atletas.

Mara desenhoMara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste».

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