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Sempre que o retroprojector emocional faz incidir a sua cintilação na parede translúcida da nossa ardósia, a imperceptível repetição do mais recôndito esgar nasce, sangra e verte, para se coser a si mesma, em cicatriz. Como um esfaqueamento que se absorve ou um tiro que se engole enquanto os sinos da garganta azorragam o meio-dia, a meia-noite, a meia vida. Na lente de Fresnel a nossa mente está de partida. Multiplicada na ânsia da diáspora sensitiva, anatomizada em fragmentos desconexos que se autopsiam em morte sem nunca se terem recordado em vida, quais retratos assombrados cuja imagem desabitada busca frivolamente uma cara. A nossa mente partiu rumo à colisão da luz – o cego paradoxo humano achaca-se na entropia do desperdício, choque após choque, busca um túnel sorvido de saídas e elevadores, de orgasmos imagéticos e de labirintos hologramáticos, onde o fetichismo da omnipresença ultrapassa a anos-luz a própria finitude da vida do hospedeiro. Ficámos para trás.

Como aqueles mortos que abrandam a procissão na esperança irrealizada de acertarem o passo com a vida doutrora. Somos a visão behaviorista de uma máquina benzida, que nos assegura o vício metralhado da hipersensibilidade desordenada – demos o involuntário passo rumo à ronda de balázios automáticos, de peito feito à irreflexão, de dente cerrado contra a estupefacção: afrontamos o que desejamos. Se hoje a objectiva disparasse sobre nós, o obturador abriria um milissegundo, e outro, numa cascata repetida de pequenas faíscas que nos rebentam as entranhas e nos descarregam em cima – a alienação. Somos o retrato que falhou a moldura, por muitos alvejamentos que tenhamos tentado. Entretanto cosem-se os ferimentos da matança: estamos ainda vivos e nunca tão mortos.

turcke

Turcke é filósofo e professor na Universidade de Leipzig

É neste estreito paralelo entre o disparo fotográfico e o metralhado que li Christoph Turcke. A sua «metralhadora audiovisual» serve na perfeição o propósito: explicar de que modo é exercido o domínio fetichista e banalizador da sensação, disparada freneticamente através da metralhadora de imagens, sons, luminosidades, slogans e soundbites e conteúdos desprovidos de interior. É neste processo de sensacionalismo intensificado que identificamos a patologia sistémica da nossa contemporaneidade: a desatenção. O défice cognitivo que advém da «distracção concentrada» que o filósofo alemão expõe, é fruto da espectacularização do real que os Media projectam na transparência ávida da nossa mente. Ligados à máquina de suporte vital da distracção, estamos condicionados ao instinto irreflectido de uma compulsividade – a vontade de concorrermos pela atenção de uma sociedade cuja estrutura assenta na competitividade da sensação, do espanto, da imagem e do imediato. É essa distracção que impede a auto-reflexão, sendo «resultado de um regime de atenção que penetra no mais profundo interior da pessoa, decompondo-a, causando, por conseguinte, estados psíquicos de desassossego e inquietação. Trata-se de um novo tipo de sofrimento psicossomático».

Como uma arma automática que tosse convulsivamente as balas que alberga, como uma máquina fotográfica que se descarrega de flashes qual piscar ígneo dos olhos e da memória, assim restamos nós, reféns da anestesia geral típica do espectador. Inundados pela hipérbole guerrilhada do tiroteio, piscamos os olhos num frenesi sonhado. Somos projectados para o onirismo genérico, onde até a imaginação é manufacturada em série: «Substituem-se os sonhos das próprias pessoas, fornecendo-os prontos, como se eles fossem comida encontrada no supermercado. No fundo, trata-se de um processo de desapropriação das capacidades básicas mentais das pessoas», explica Turcke.

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Zapping: a compulsão da repetição irreflectida

No fundo materializa-se a uniformização do desconcerto, a incapacidade disruptiva do pensamento, a falta de reflexividade e a boçalidade primária da distracção. Como atesta Turcke, esta hipnose mediática tem por base «um impulso voltado para alguém que vive sistematicamente distraído. Essa pessoa não é mais capaz, por exemplo, sequer de fazer um resumo sobre um filme inteiro. Todas as programações da televisão supõem um espectador incapaz de acompanhar uma obra do início ao fim». E assim pisamos na realidade que nos faz, constantemente, tropeçar. Da TV à rádio, da ideia ao debate, da tecnologia ao reino da estética, da política à arte, do bom senso à mínima palavra: a cultura vigente desconstrói cada um de nós, usurpando o nosso espaço mental para seu usufruto próprio e colonizando a percepção, subjugando-a aos ditames estandardizados da hiperactiva sensação, que entretém ao invés de reflectir. A dor que sentimos ao deixarmo-nos para trás é a fuga efectivada que impomos ao correr adiante. Enquanto a metralhadora cospe os tambores revoltos, nós desesperamos pelo exorcismo da repetição. Fugindo em frente, fugindo da dor, dando o peito ao audiovisual e desalojando o intelecto, saltando de sensação em sensação, numa corrida sem-fim rumo ao nada totalizador da dormência aditiva.

socialmedia

A metralhadora também chegou ao on-line

Não é difícil transpormos a teoria para a prática. Do stresse e da psicose à falta de sensibilidade, da massificação de conteúdos à banalização do valor intrínseco, da perversa pedagogia à mercantilização do ser, do aniquilamento da cultura em prol da vanguarda consumista, vários são os exemplos que poderíamos arrolar. A superficialidade que a «metralhadora audiovisual» faz reinar vive do espectáculo – o grande equívoco dos nossos tempos, a mentira empolada para os cegos que não querem ver. Disso se ressente a política, que impera quanto mais demagógica for. Disso se ressente a arte, que perdeu a aura de Benjamin para a sumptuosidade ridícula dos palacetes pindéricos de Joana Vasconcelos. Disso se ressente o debate ideológico, que é tragado pelo mofento e formatado discurso «sem alternativa» de uma classe a martelo feita. Disso se ressente a profundidade dos conceitos. Das correntes. Da análise compreensiva. Disso se ressentem as vidas tornadas em mortes incontestadas pela injustiça incontestável. Disso se ressente o labor, surripiado a quem o quer por aqueles que querem escravizar uma geração inteira.

Este poderia ser o meu primeiro artigo. Provavelmente sempre foi. Ele nasce de um esclarecimento faz tempo devido, sobre esta tira de folha virtual que a quarta me destina. Porque me penso e me vejo reflexo, porque me silencio e não tenho pejo. De analisar, filtrar, discutir e criticar. De pensar. Esta é a minha trincheira. O meu espaço solitário que vos guardo para me ocultar. Aos tiros extorquidos de uma qualquer e furtiva metralhadora.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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