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Entre nós, o terrorismo terá sempre sucesso. Porque o terrorismo compreende os media, mas os media não compreendem o terrorismo. O terrorismo é sonho mediático, os media são sonho terrorista.

A história dos atentados de Boston, infeliz e amargamente, é a mesma de tantos outros ataques terroristas antes deles. Porque não sendo mentira, os atentados são sobretudo narrativa, e o discurso mediático que os envolve no presente e regista para a posterioridade é, pois, pró-ficcional. Mas a marca do terrorismo não é tanto o acto em si, sabemo-lo bem. O triunfo do terrorismo dá-se no temer das réplicas, dá-se no despertar – ou fabricar − em cada cidadão da consciência do risco de cada passo dado, de cada ida a um concerto, a um jogo de futebol, de cada embarque num avião ou num comboio, ou no risco – o corolário é esse – de, simplesmente, se ser.

E é aí que os media se tornam arma maior do terrorismo. É na sua maior boa vontade mercantil, na sua compreensão magna de que o que é preciso vender jornais, e no seu capitalismo vaporoso, bamboleando-se na translucidez das cortinas românticas e axiológicas que se agitam como estandartes ao vento, levantando a voz em nome do dever de informar, que dos media se faz terrorismo, ou que do terrorismo se fazem media.

Porque os media são a primeira vítima da lógica terrorista. Os media são as primeiras vítimas – morais, talvez – a cair. São eles o peão avançado da psicose, o batedor do lodaçal da loucura que o próprio terrorismo atolou. E uma vez atraídos os media para dentro do frasco de mel previamente inquinado, basta ao terrorismo soltar a carica de uma cerveja, assestar o rabo tranquilo no sofá, levantar os pés, em meias ou pantufas, sobre a mesa do café, e assistir ao espectáculo em directo, no seu plasma de cinquenta polegadas. Tomados os media, todo o forte pode então ruir.

"O Massacre dos Inocentes", Peter Rubens, 1611-12. (The Thompson Collection at the Art Gallery of Ontario)

“O Massacre dos Inocentes”, Peter Rubens, 1611-12. (The Thompson Collection at the Art Gallery of Ontario)

E não é senão isso que acontece quando, após a fatídica maratona de Boston, todas as maratonas caem, subitamente, nas boas graças mediáticas, e todos – jornalistas e clientes − lhes prestam atenção. Não porque a maratona subitamente tenha conquistado adeptos fervorosos, ou que algum grupo de pressão tenha escancarado as páginas das agendas noticiosas ou transposto os portões das redacções. O destaque que as maratonas ganham deve-se precisamente ao facto de elas terem deixado de ser, para os media, evento desportivo. No rescaldo da maratona de Boston, todas as maratonas são potenciais cenários de catástrofe, palcos da guerra trazidos para as nossas portas, como se a Jihad tomasse o atletismo como seu figadal inimigo. Assim como a aviação após o 11 de Setembro ou os caminhos-de-ferro depois do 11 de Março, Madrid, ou demais transportes públicos atingidos no 7 de Julho londrino. A cada novo passo, a cada novo atentado, os meios de terror e o terror dos media conspiram para o apertar do cerco, qual Boa costrictor em anel de fogo e pirotecnia à descrição, tornando a própria existência nociva, e sobretudo nos espaços onde ela não o é nem nunca foi. É também aí que o terrorismo se revela eficaz: não obedecendo a regras nem sendo previsível na aleatoriedade que o corporiza, parece ter dificuldade em convencer-nos disso: a lógica mediática sucumbe de imediato, pois gruda-se às premissas mais fracas, aos complementos circunstanciais, para com vigas de ténues inferências arquitectar sistemas e iludir-se na busca de padrões premonitórios, crendo e fazendo crer que é capaz de dar sentido e corpo a tudo.

Vivemos nos ecrãs, e os ecrãs vivem na ânsia do massacre, sonhando o cataclismo, na sombra da iminência da explosão, do risco, do pré-acontecimento, da iminência que se torna também eminência, espectacularidade visual, delírio informativo, deleite excitado que tão bem se poderia sentar nas prateleiras da ficção. Os media são veículo maior da ameaça porque dão corpo à promessa de destruição, à promessa de que tudo isto, afinal, se provará capaz de ir pelos ares. Tal é a sua natureza e, também deste lado, a nossa. Talvez o que queiramos seja, no fundo, que, muito simplesmente, e parafraseando Jean Baudrillard, a explosão se dê e nos salve deste pânico inominável, do discurso espiraliforme da segurança que, qual verniz técnico, cobre tudo e domina tudo, expressando-se em proibições, códigos e salvaguardas que, um dia de cada vez, vão aprisionando a vida à fiadeira do controlo e da dissuasão, da anestesia e da astenia.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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2 thoughts on “A ânsia do massacre

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