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Ayrton_Senna

No passado dia 1 de Maio a História recordou um dos seus filhos pródigos. Um predestinado que honrou com a mais elevada dignidade a memória que ele próprio edificou em vida, e que dia após dia permanece intacto na mente e nos corações de quem assistiu a cada sinal esperança de partida, a cada aceleração vertiginosa, a cada curva apertada, a cada ultrapassagem suspirante. A cada desfraldar hasteado da vitória, a cada grito abafado de glória. Ayrton Senna adicionou o seu nome à definição de «Coragem». Fosse queimando a borracha derrapante dos pneus em travagens aventureiras, fosse regendo a sua vida pelos princípios do mais saudoso humanismo, Senna deu corpo ao verdadeiro carácter da vitória: humilde para com os seus semelhantes, ambicioso perante a vontade de triunfar, audaz ao serpentear cada chicane, pensativo para com a corrida da vida, que foge rumo ao destino com a velocidade de quem cruza a meta num festejo de felicidade pura. A vida é um circuito que passa por nós enquanto tentamos o nosso melhor tempo, e Senna teve pouco tempo para a vida que tinha dentro de si – sempre mais célere que os rivais, também a sua imortalidade chegou cedo demais. Tinha 34 anos de idade.

images (2)Senna revolucionou o heroísmo desportivo: deu-lhe o reflexo humano, a paixão do limite venturoso, a generosidade altruísta de um sábio, que nunca se coibiu de partilhar e aprender ao mesmo tempo. A sua morte é o ponto de partida para a sua recordação eterna: o resto é tudo. O progresso, o talento monstruoso, as vitórias briosas e elegantes, o companheirismo e a genuinidade de um inequívoco exemplo, o profissionalismo abnegado e o desejo obcecado da perfeição. Senna venceu muito mais do que as «pole positions» e as vitórias que figuram no seu currículo: o caminho que percorreu fê-lo cortar as metas mais sublimes que um homem pode almejar – a vitória mais árdua é aquela em que se alia o engenho à filantropia. O dom à amizade. A determinação à hombridade. Ayrton Senna era um campeão natural, como em si eram naturais todos esses adjectivos que diferenciam a banalidade de um campeão da dignidade de um vencedor crónico, dentro e fora da pista. Senna venceu tudo. Conquistou os grandes prémios em corridas tresloucadas, conquistou as pessoas com o seu coração quente e o seu olhar reflexivo. A sua pose distante e premonitória, nos minutos que antecederam a sua última largada da vida, são o retrato fiel  da fatalidade a que os mais retumbantes estão condenados: Senna pareceu pressentir o perigo sussurrante. O seu periclitante Williams levá-lo ia à sua última viagem. Ainda assim o desafio foi aceite. Senna nunca virou a cara a um bom duelo.

Piloto da Toleman em 1984, foi rápido a provar ao mundo a sua habilidade: das fraquezas do seu monolugar fez forças sempre que manobrava por entre adversários, conquistando lugares à medida que fazia das tripas coração e das mudanças tempo de sobra. Seguiu-se a Lotus em 1985, onde obteve a sua primeira vitória na Fórmula 1: sob uma copiosa chuva lusitana, Senna arrebatou a vitória no Estoril.  Mas é em 1988, com a ligação à McLaren-Honda, que o sucesso passa a ser uma constante: Senna sagra-se campeão nesse ano e acende-se no seio da equipa uma faísca de rivalidade que deflagra entre o brasileiro e o seu companheiro de equipa, o francês Alain Prost.  No ano seguinte a polémica adensa-se e o título de campeão é ganho por Prost, depois do francês ter guinado o seu McLaren contra o de Senna aquando de uma tentativa de ultrapassagem do brasileiro. Determinado e batalhador, Senna voltou à corrida, recuperou estoicamente e roubou a liderança, cortando a meta em primeiro, para depois ser desqualificado por ter voltado à pista depois do embate.

images (1)No campeonato de 1990 Senna arrecada o seu segundo título, depois de se envolver em novo choque com o acérrimo rival Prost: desta feita, nova decisão polémica da FIA prejudicou o piloto brasileiro, depois de este ter obtido a «pole position» sendo ‘presenteado’ por esse feito com o pior lado da grelha de partida, que beneficiaria directamente o segundo classificado no alinhamento, Alain Prost. Mais tarde, Senna explicou as injustiças a que foi sujeito, tanto em 1989 como em 1990: «Eu acho que o que aconteceu em 1989 foi imperdoável e eu nunca irei esquecer isso. Eu me empenho em lutar até hoje. Você sabe o que aconteceu aqui: Prost e eu batemos na chicane, quando ele virou sobre mim. Apesar disso, eu voltei à pista, ganhei, e eles decidiram contra mim, o que não foi justo», afirmou contundentemente. «Em Suzuka no ano passado eu pedi aos organizadores para trocar o lado da «pole». Não foi justo, porque o lado direito é sempre o sujo. Você se esforça pela pole e é penalizado por isso. E eles dizem: ‘Sim, sem problema.’ E depois o que acontece? Balestre dá a ordem para não mudar nada. Eu sei como o sistema funciona e eu pensei que foi mesmo uma merda», desabafou o campeão, que foi fustigado por sanções da FIA e do seu presidente, compatriota de Prost, Jean-Marie Balestre. O brilhantismo de Ayrton Senna tornou-se imparável e a graciosidade das suas vitórias valeram-lhe novo título em 1991. A temporada subsequente foi vencida por Nigel Mansell e o ano de 1993 foi o palco cronológico de uma batalha velocipédica feroz entre o inglês e Senna, que tantos duelos protagonizaram para a posteridade: a corrida de Donington Park, pelos críticos apelidada de «Corrida do Século», viu Senna fazer bailar o seu monolugar pelo percurso, numa valsa de ultrapassagens consecutivas que fez delirar todos os adeptos da modalidade – Senna partiu em quarto e caiu para a quinta posição logo ao desdobrar da primeira curva, mas como que por magia, a sua incomensurável habilidade fê-lo ascender ao primeiro lugar ainda antes de se esgotar a primeira volta! Essa vitória marcou, como uma travagem que desliza através do tempo marca, todo o amante da velocidade aliada à técnica. Na retina fica a sua incursão mais rápida em Donington, forjada, incrivelmente, numa volta em que passou pelas «boxes».

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Senna auxiliando o piloto Comas, que colidiu e perdeu os sentidos. Em entrevista, o francês confessou que Senna lhe salvou a vida

Em 1994, Imola foi a sua derradeira corrida. Pilotando um Williams, Senna furou a curva Tamburello a uma velocidade estonteante e embateu violentamente contra o muro de cimento. O mundo parou por um instante – eu susti a respiração. Suspendi-me no desejo incontrolado de o saber bem. De o ver caminhar carro afora, calmo e de capacete amarelo na cabeça. Cedi e tomei novo fôlego, como uma criança que se recusa a perder a convicção: eu era uma criança. Era essa criança. Mas Senna não mais voltaria para me embalar o sorriso aos Domingos. Chorei. Senna não mais acenar-me-ia a partir daquele olhar envidraçado que tanto mistério encerrava, que tanto grito, lágrima e festejo escondeu: «O capacete oculta sentimentos incompreensíveis», afirmou um dia. Senna morreu e levou consigo os Domingos: em diante, faltou esse dia no meu calendário. Faltaram as vezes em que me deliciava com as suas loucas ultrapassagens ao ritmo da chuva, faltou-me a magia da meta cortada antes de tudo e de todos, no deserto acelerado de quem palpita por um ídolo, como que o esperando depois da bandeira ondulante, para o receber de braços abertos. Senna não voltaria a chegar. A sua morte foi um trágico golpe para o mundo do desporto e o resto do mundo perdeu um embaixador. O luto foi mundial. No seu «cockpit» uma bandeira austríaca fora encontrada: Senna planeava erguê-la em homenagem a Roland Ratzenberger, que falecera no dia anterior, na maldita, sempre a mesma, curva Tamburello, onde a sua asa dianteira se soltou, vindo o monolugar a colidir, na curva Villeneuve.

No hospital de Maggiore, em Bolonha, Senna teve alta para a imortalidade. O seu cérebro fatalmente perdido contrastava com um corpo presente, mas sua alma já tinha partido, respeitando um qualquer sinal verde de esperança. Senna partiu, e eu, a partir desse dia, desenhei as suas vitórias e colori os seus festejos: no caderno da minha infância foste sempre tu a ganhar-lhes, Ayrton.

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Senna à boleia de Mansell: boa disposição entre rivais

Apaixonado pela vitória, focado na perfeição com que manobrava a sua velocidade, Senna foi um homem impressionante. Impressionou-me a mim, ao cronómetro supervisor, ao reflexo do seu perseguidor. A rapidez extasiante sugava-lhe a racionalidade e o seu talento estava para além de todos os outros, qual enfeitiçado sendo dominado pelo vertiginoso abismo da destreza com que se desenvencilhava das curvas: «Subitamente, eu estava a rodar quase dois segundos mais rápido que qualquer outro piloto. E de repente percebi que já não estava conduzindo o carro conscientemente. Conduzia-o por uma espécie de instinto, só que estava noutra dimensão. Como se estivesse num túnel. Eu estava muito para além do limite, mas conseguia sempre ir mais além. Acordei e percebi que estava num ambiente diferente daquele em que normalmente estamos. Minha reacção imediata foi a de levantar o pé, abrandar. Conduzi devagar até às boxes e não quis voltar à pista naquele dia. Assustei-me pois eu estava muito além da minha consciência.».

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Pintura de Oleg Konin: Senna sai pelo seu pé do acidente em Imola. A pintura representa a fórmula do sonho de qualquer fã de Senna.

O relógio da memória bateu no dia 1 os 19 anos desde a tua partida. Naquela tarde eu sei que adivinhaste. Eu só suspeitei. Bateste com tanta força que os sonhos espalharam-se imediatamente ali, como quem se derrama e não se pode perder. Removeram-te da sucata, mas já não eras tu. Eu não me enganei, mas susti até poder, o fôlego: soltei o choro por não te voltar a ver. Na minha televisão antiga, no meu tempo de menino, naqueles Domingos em que simulava as tuas vitórias na carpete da sala, com o McLaren da tua felicidade.  Quanta saudade. Partiste no 1º de Maio mas no meu caderno de infância esse dia nunca viu o traço colorido das minhas canetas de feltro. E tu continuaste a ganhar. Hoje revejo os desenhos na mente e volto a chorar: mas alegra-te Ayrton, é por um bom motivo. É que hoje, cá para nós, tu voltaste a ganhar.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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