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À questão “A sua mãe percebe de futebol?” acredito que a maioria dos eventuais inquiridos responda com um simples e redondo “Não”. Pois é. As senhoras que nos carregaram no ventre, nos trocaram as fraldas e nos aturaram as birras durante anos a fio, e que, por isso, admiramos, não parecem prestar a mínima atenção a algo com que nós, adeptos ou fãs do desporto, despendemos tanto do nosso tempo e interesse. Mãe dá à luz, cuida, mima, educa, adverte, orienta e protege a sua cria. É este o seu papel. O papel do pai é ensinar-nos o que é o Futebol.

Definidos que estão, tradicionalmente, os papéis familiares, acredito na fórmula moderna de acumulação ou inversão dos mesmos. E, assim, a união do Lar poderá estar protegida, se o Pai passar a cuidar, mimar, educar, advertir, orientar e proteger (já que dar à luz, não pode). E se a Mãe passar a gostar de Futebol. Baseada nesta última premissa, e em jeito de festejo na data que se assinala hoje, e que honra a faceta materna feminina, elaboro, de forma simples e despretensiosa, um manual de futebol dirigido às mamãs. Como que uma brochura, que se guarda em cima do «naperon», ao lado da fruteira, à espera de ser lida.

1º Passo: Escolher um Clube

Não acredito que seja possível abraçar o futebol sem estarmos ligados, intima e emocionalmente, a uma entidade clubística. É como ter fé e não ter um santo padroeiro. Muita da emoção do futebol não reside na técnica ou na competência de um jogador, mas no emblema que este defende e que ajuda a criar uma ligação com o adepto.

A mãe portuguesa, se não residir numa localidade de tradição futebolística, em que seja obrigada a defender o Sporting da Covilhã, o Louletano ou o Machico, deverá optar por um dos três grandes e históricos emblemas nacionais. E, aqui, o gosto feminino pelas cores pouco deve contar. O charme não está em decidir, apenas, entre o vermelho, o azul e verde, como se de uma simples camisola de boutique se tratasse.

Vejamos que a opção clubística do seu marido deve ser influente e decisiva na opção da mulher. Ora, se o Sr. Zé (chamemos-lhe assim, na falta de um nome mais original) for do Benfica, então deverá abraçar o encarnado e fazer diminuir, assim, os índices de violência doméstica. Se, por outro lado, o Sr. Zé for um adepto leonino, então deverá escolher o outro lado da trincheira e abraçar o encarnado, de forma a acentuar uma posição rival e dominadora, comum à frente feminina moderna. Em alternativa, se o Sr. Zé for um ferrenho portista, então a mulher deverá ter a coragem de escolher o encarnado, porque os opostos têm, afinal, o poder de atracção, sendo que a vida privada do casal pode beneficiar, e muito, desta decisão.

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Arquibancada destinada às mulheres e crianças apoiantes do Fenerbahce, da Turquia (Foto: TODAY’S ZAMAN, M. Burak Bürkük)

2º Decorar o Equipamento

Escolhida que está a cor, encarnada, há que saber identifica-la, como se se tratasse de um amor à primeira vista. A sua equipa assemelha-se a um pequeno grupo de papoilas, pelo que será fácil identifica-la em campo, pela sua mancha de cor. Contudo, há que ter em salvaguarda que este desporto foi criado pelos homens, que, como sabemos, não sabem simplificar. Assim, será necessário estar atenta à existência dos equipamentos alternativos, necessários quando equipas da mesma cor se defrontam, surgindo a necessidade de uma envergar uma palete de cores que não é, originalmente, a sua. E deverá estar, igualmente, atenta ao facto de as equipas trocarem de lugar no campo, após o intervalo. Assim, se a sua equipa iniciou o jogo do lado esquerdo do televisor, é, natural, que na segunda parte esteja a ocupar a metade do ecrã do lado direito.

2º Conhecer o guarda-redes

O guarda-redes titular da sua equipa, deverá ser o atleta que melhor conhece em campo. Poderá continuar a apelidar os outros jogadores da forma que lhe for mais conveniente para os identificar: o «baixinho», o «gigante», o «careca», o «da verruga», o «dos caracolinhos», o «giraço». Contudo, deve conhecer, de cor e salteado, o nome daquele que defende a sua baliza e que, normalmente, é o número «1». Porque, para além de a salvar de uns quantos ataques adversários, e também de um ataque cardíaco antes de idade, este jogador serve-lhe de bússola. Se este está numa baliza, então a sua equipa deverá marcar na contrária. Não há como enganar. A menos que seja efectuado um auto-golo, mas isso é outra história.

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Torcida feminina do Besiktas (Foto em: Hürriyet Daily News)

3º Não prestar atenção às bancadas

Uma regra de ouro para quando assistir um jogo na companhia do seu cônjuge, ou de um qualquer espectador atento, é concentrar-se, exclusivamente, no que se passa dentro de campo. Mesmo que, por vezes, lhe possa parecer maçador ou repetitivo, é importante que afaste o seu pico de atenção das imagens transmitidas das bancadas, nomeadamente, das bancadas VIP. Porque é natural que nelas surjam figuras que conhece bem e bem melhor do que os jogadores em campo. Aparecerá a Luciana Abreu ou a Diana Chaves, a brasileira que o Pinto da Costa adoptou ou mesmo aquela que pousou nua e aparecia na TV7dias da semana passada. Mas não se entusiasme e, principalmente, abstenha-se de comentários em voz alta. Para além de contribuir para o défice de atenção do seu marido (algo que não irá gostar), não se esqueça que ele também viu as mesmas imagens. E se estas fossem mais importantes que a acção dentro do terreno de jogo, ele teria referido. É como quando assistimos à novela, e somos, indesejavelmente, interrompidas. É de levar às mãos à cabeça.

4º O Futebol é uma Novela

Se for mais fácil encarar todo o ambiente do futebol como se de uma novela, ou de uma série televisiva americana, se tratasse, então faça-o. Porque, no fundo, as semelhanças são muitas. Ora, existe sempre um Vilão no futebol. Normalmente, este é o papel do árbitro, mas pode variar jogo a jogo. E aqui está uma vantagem face à ficção. Não temos de passar dezenas de episódios a odiar a mesma pessoa. O árbitro não é repetidamente o mesmo e o papel de vilão também pode assentar num atleta com má conduta ou num treinador pouco popular. O treinador é normalmente a personagem cómica do enredo. Caricatura de um segmento popular, poderá entreter-se com os seus gestos, expressões ou corte de cabelo engraçado, sem que com isso deixe de estar atenta ao desporto. É certo que os episódios mais marcantes do Futebol são quando os encarnados defrontam os seus rivais directos, mas posso garantir que todos os capítulos têm, por norma, motivos de interesse Depois, existem os finais felizes. Normalmente acontecem em Maio e, curiosamente, estará mesmo a tempo de assistir a um, numa próxima semana, no Marquês de Pombal.

5º Amor materno a um clube

É certo que não deverá haver um amor mais imenso que o de uma mãe para um filho, mas, ligada que já está emocionalmente ao seu clube, há muitas das características do amor materno que podem coincidir com o amor a um emblema. Porque irá a aprender a defender o seu clube de todas as injúrias, a perdoar-lhe toda as derrotas, a perseguir todos os seus passos e a sentir um orgulho inexplicável quando alcançados os sucessos. Tal como a um filho. Porque é um amor incondicional, que só aumenta e não conhece a subtracção. Que nunca sairá da sua asa e cujas alegrias farão esquecer todas as dificuldades. E, por isso, estará, agora, proibida de defender os seus opositores e lançar sentenças como «Nas competições europeias, eu torço por todas as equipas portuguesas». Isso não existe. Porque a cria está acima de tudo.

Querida mãe, espero que, com esta sucinta exposição, tenha demonstrado que o futebol não é, apenas, um «hobbie» masculino e que pode perfeitamente ser assistido entre tachos e panelas de pressão. Comprometa-se a tentar e garanto-lhe que gostar de futebol é quase tão fácil como lançar um sorriso ao seu filho. Porque «Mãe é Mãe» e, afinal, os futebolistas também são todos «filhos de uma Mãe».

Mara desenhoMara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste».

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2 thoughts on “Futebol para mães

  1. Penso que este manual posa servir para muitas maes, más sendo mae, acho que hoje em día as “maes” em geral percebemos muito de futebol….e a serio achei-o um pouco pretencioso de mais….

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