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Pela primeira vez na história, a final da maior competição europeia de clubes será totalmente alemã. Bayern de Munique e Borussia de Dortmund surpreenderam meio mundo (ou deveria dizer quatro quintos do mundo?) ao ultrapassarem, nas meias finais da Liga dos Campeões, os pseudo-favoritos Barcelona e Real Madrid. O mundo desejava uma final espanhola mas vai ver uma germânica. E ficará melhor servido.

A final de Wembley será também um confronto entre dois treinadores completamente antagónicos. Jupp Heynckes é o melhor exemplo da velha guarda alemã. Um treinador com currículo (embora também com algumas manchas no seu percurso). Um homem que impõe respeito aos seus jogadores e que salvaguarda uma certa distância para com estes. Um treinador de discurso monótono e de conferências de imprensa bolorentas. Jürgen Klopp é tudo menos isso. Jovem, irreverente, apaixonado. Está para os treinadores da Bundesliga como o Borussia está para as equipas: são ambos uma lufada de ar fresco numa competição onde muitas vezes falta o sal e a pimenta que tem existido noutros campeonatos. Basta ver, por exemplo, que no passado fim de semana o Borussia recebeu o Bayern para o campeonato, num jogo sem qualquer significado para as contas finais da Bundesliga. E Jürgen Klopp ‘pegou-se’ com Rafinha e, imagine-se, com Mathias Sammer, tão somente uma das maiores figuras da história do BVB e que neste momento está do outro lado da barricada.

A campanha do Bayern de Heynckes na Champions deste ano começou aos solavancos, como o demonstra a incrível derrota em Borisov diante dos bielorrussos do BATE. Os bávaros acertaram caminho e acabaram por passar em primeiro do seu grupo. Porém, nos oitavos de final voltou a soar o alarme. A uma vitória esclarecedora no terreno do Arsenal seguiu-se uma derrota por 2-0 na Allianz Arena. O maior número de golos marcados fora carimbou o bilhete para os quartos de final, num jogo onde a equipa de Heynckes acabou a queimar tempo. A partir daqui, porém, o Bayern europeu transfigurou-se. Nos quartos de final, aquela que parecia ser a eliminatória mais equilibrada e espectacular teve pouco de ambos. O Bayern manietou os italianos da Juventus em casa e fora (2-0 e 0-2), qualificando-se para a semi-final com um à-vontade claro. Nas meias aconteceu o que todos nós já sabemos, com o acumulado de 7-0 nos dois jogos diante do Barcelona.

Já em Dortmund, cedo se percebeu que o Borussia europeu deste ano já não era a equipa alemã ingénua que desiludiu na Europa dois anos seguidos. O primeiro lugar no grupo da morte, à frente de Real Madrid, Ajax e Manchester City, rapidamente terá sido esquecido pelos mais desatentos. Só isso explica que a grande maioria dos apreciadores do desporto-rei esperassem uma qualificação fácil para os merengues quando o sorteio voltou a colocá-los no caminho do BVB.

Em Dortmund as coisas são diferentes. Há menos dinheiro e o plantel tem menos soluções. Mas não há menos talento. E aqui, o nome de Jürgen Klopp é incontornável. A longa mas modesta carreira enquanto jogador do Mainz em divisões secundárias alemãs colocou-o no topo dos favoritos do clube. Porém, a elevação a ícone do Mainz deveu-se ao trabalho enquanto treinador, promovendo os Nülefunfer pela primeira vez à Bundesliga em 2004. Isto depois de ter sido eleito treinador do Mainz em 2001 e de nas duas primeiras épocas ter levado o clube ao 4º lugar da 2. Bundesliga. Caso para dizer que à terceira foi de vez. Na primeira temporada na 1.Bundesliga garantiu um lugar na Taça UEFA, a primeira participação europeia do clube, ficando com a vaga do prémio fair-play. Nas duas primeiras épocas no principal escalão do futebol alemão, o Mainz repetiu o 11º lugar. Na terceira foi relegado ao segundo escalão mas Klopp não abandonou o barco. Saiu no final da temporada seguinte mas esteve pouco tempo no desemprego.

O Borussia vinha de uma temporada frustrante, espelhada no 13º lugar, e viu em Klopp o elemento ideal para a mudança. Na primeira temporada no Westfalenstadion, Jürgen Klopp levou o BVB a um surpreendente 6º lugar. Em 2009/2010 voltou a colocar o Borussia na sexta posição até que no ano seguinte se sagrou campeão. O investimento na equipa foi baixo, como não poderia deixar de ser numa equipa que ainda recuperava dos graves problemas financeiros do início do século. Mas foi certeiro. Na primeira temporada, recrutou Subotic ao ‘seu’ Mainz, o dispensado Zidan ao Hamburgo, Owomoyela ao Werder Bremen, Felipe Santana ao Figueirense, Hajnal ao Karlsruher e Lee Young-Pyo ao Tottenham, para além de ter pomovido o desconhecido Schmelzer da equipa secundária. Fez ainda regressar Nuri Sahin do Feyenoord, onde tinha estado emprestado. Como o dinheiro não abundava, necessitou de equilibrar as vendas e as compras e abriu mão, por exemplo, de Mladen Petric.

Na segunda temporada, continuou a revolução silenciosa. Chegaram Lucas Barrios, Hummels em definitivo (sem lugar no Bayern), Sven Bender e Grosskreutz e saiu a estrela Alexander Frei. No ano da consagração, Klopp ordenou as compras de Lewandowski (que não fez parte do onze tipo nessa temporada), Piszczek (a custo zero) e Kagawa. Nos três gastou menos de 5 milhões de euros. Promoveu ainda Mario Götze dos juniores e adquiriu o jovem promissor Moritz Leitner por uma pechincha.

O que impressiona também neste Borussia de Dortmund é a capacidade de regeneração da equipa que, nos últimos anos, tem perdido peças importantes mas tem conseguido sempre colmatar essas ausências. Na primeira época, Klopp viu-se privado de Petric. Na segunda de Frei. Mas as baixas mais significativas começaram quando chegaram os títulos. O BVB campeão de 2010/11 viu partir Nuri Sahin para o Real Madrid a troco de pouco mais de 8 milhões de euros. O substituto foi Ilkay Gundogan, adquirido ao Nuremberga por cerca de 5 milhões de euros, jogador que agarrou o lugar na equipa e na seleção e que é seguido por vários colossos do futebol mundial. Na temporada seguinte, novo título de campeão e nova perda de vulto: Shinji Kagawa. O japonês rendeu 15 milhões de euros ao BVB, manifestamente pouco para o seu real valor. Klopp já estava preparado para essa saída, tendo assegurado o concurso do jovem Marco Reus, naquele que foi até ao momento o grande investimento do BVB nos últimos anos.

Antes do final desta temporada, Klopp já levou novo ‘murro no estômago’. Mario Götze não resistiu aos cifrões e ao projecto aliciante do Bayern e será jogador dos bávaros a troco de 37 milhões de euros, valor da cláusula de rescisão. As saídas podem não ficar por aqui até porque Robert Lewandowski, Gundogan, Hummels ou Piszczek têm muito mercado. Vai ser interessante ver como Klopp colmatará a ausência de Götze. Leitner e Bittencourt parecem demasiado verdes pelo que será de esperar nova investida a sério no mercado.

Para os mais românticos, Jürgen Klopp é o treinador da moda. A forma como o seu Dortmund joga apaixona, é verdade. Assim como fascina a sua relação com os jogadores. No entanto, sobretudo na Alemanha, começa a existir uma falange de críticos, normal em quem tem sucesso mas não apresenta um perfil passivo. Klopp vive o jogo e tem o coração na garganta. Acusam-no de ser agressivo e de semear essa agressividade perto das quatro linhas quando aquilo que faz não é mais do que viver o jogo de uma forma apaixonada, vibrante e, de certa forma, louca. Isto é desporto meus amigos, não é ópera. Não queiram tirar a piada que ainda resta neste jogo. Deixem lá que os jogadores celebrem os golos como bem entenderem… Deixem lá que os treinadores festejem efusivamente as suas vitórias. Permitam que Klopp barafuste, grite, gesticule. Estes figurões fazem falta ao futebol.

Sobre a final de Wembley, o Bayern é favorito. Mas não terá um jogo fácil. Os bávaros sabem-no melhor do que ninguém e, também por isso, são a equipa que melhor está preparada para bater o Borussia na competição. A Bundesliga foi ganha com mérito pela formação de Heynckes que fez uma competição quase sem falhas e beneficiou de um início comprometedor do BVB. Mas aqui a competição é outra. E nos duelos entre ambas as equipas, o equilíbrio tem sido nota dominante. Para o campeonato, dois empates (ambos 1-1). Na Taça da Alemanha o Bayern venceu à tangente (1-0), tal como na supertaça (2-1). Vou estar a torcer pelo Dortmund. Mas a Champions ficará bem no museu de qualquer um destes clubes.

joni_desenhoJoni Francisco

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One thought on “Ich bin Jürgen Klopp

  1. Também vou estar a torcer pelo Dortmund. Mais um grande artigo do Joni Francisco, muito bem elaborado e conhecedor profundo da Bundesliga por aquilo que está descrito acima.

    Neste momento a MARCA adiantou que o Borussia está interessado no jogador andaluz Jesus Navas para colmatar a saída do Mario Götze e também já se falou no Julian Draxler do rival Schalke 04. Mas parece-me pouco provável que o jovem formado nas escolas do clube de Gelsenkirchen mude para o Signal Iduna Park.

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