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Não somos, em nada, dissemelhantes da cultura prevalecente doutrora. Dos seus maneirismos obsoletos, da sua inoperante sensibilidade, da sua historicidade tirânica e da sua pueril injustiça global. Por muitos séculos que se cataloguem na gaveta mnemónica da nossa consciência colectiva, poucas são as rupturas axiológicas de que nos podemos gabar. Na alternância dos sistemas e na ondulação cíclica das morais, existem vícios nefastos, fartos, vis e arqueológicos – como uma pirâmide anciã enraizada nos ombros do povo – que se sustentam, indiferentes ao galopar do tempo, alheios ao sibilo da mudança mas maleáveis à insídia da sua simulação. A minha antropologia de bolso – e o exército intelectual de Frankfurt – diz-me que somos da mesma cepa que os outros cepos: a História, vista do vértice altivo da pirâmide, onde as particularidades mais acérrimas se desfocam, nunca passou da cepa torta.

Quando o indivíduo moderno olha para trás – recordando o que não viveu, decorando a escola das narrativas – graceja-se paternalmente com as trevas da menoridade de outras civilizações: os sacrifícios ritualizados, o medo do incógnito, a barbaridade subjacente a ambos. A época das luzes pré e pós-Socráticas e da democracia pela metade, os maliciosos bastidores imperiais e a centralização romana. Mais tarde, as cruzadas de sangue – da ganância e da religião, do fanatismo e do apologista Deus da aniquilação – e depois o Iluminismo cartesiano, as Sistinas e as assexuadas Monas, a moral de Kant e num ápice as revoluções: a industrial e a francesa. Uma no carvão e outra no cesto – uma com comboios e a outra sem cabeças.

Este preâmbulo quer-se incompleto, como a um epitáfio de qualquer grandioso finado. O indivíduo que se prostra sobre a campa da História e a absorve reconforta-se com a esmagadora latência da sua certeza: a era contemporânea é de outra cepa. Pode ter infinitos lados negativos – quantos lados negativos do prisma são moralmente toleráveis…? – mas ultrapassa qualitativamente a desgraça do antepassado, até porque a nossa pedagogia imediatista ensina-lo: o presente é o presente do tempo aos seus presenteados habitantes. Assim temos que, quem vive, por agora, vive o melhor dos tempos. Tudo o resto foi um infeliz, retrógrado, preliminar e primário rascunho do dia de hoje: «Graças a Deus que estamos na era da tecnologia, da informação, do audiovisual e da globalização», suspira aos deuses o presenteado habitante do presente, enquanto ergue as mãos ao céu da sua cidade arranhada de arranha-céus e sente a reconfortante certeza de que as guerras, as mortes frias jazendo nos descampados, as execuções sumárias, a fome carcomida nos corpos, a exploração esclavagista, a discriminação de género ou a alarvice corporativista, são cepa torta de outros filmes, realizados por um grito de «acção!» que nós, aqui no Ocidente, somos capazes de tolerar, pois que bons samaritanos  somos.

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Os monopólios continuam a florescer: nos EUA, 90% do conteúdo mediático divulgado é detido por apenas 6 empresas.

A narrativa da globalização mente, sempre. Aprendemos a descodificar – e mal, diga-se – o conceito de tragédia, que nos surge como algo inusitado, fatalmente acontecido e quase sempre despropositado, quando na maioria das vezes tudo se trata de um simples desencadeamento lógico de pretensões e vontades. Por outro lado, aprendemos a ficcionar o macabro, dando-lhe um cariz surreal e afastando-o das nossas molengonas consciências. A globalização esconde a sua terrorífica sistematização e mascara – e mitiga – os seus resultados medonhos. Nós, enquanto espectadores dos desastres crónicos, não descortinamos as pistas: cremos na tragédia pontual de um sistema que, afinal, é globalmente pernicioso.

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O atentado de Boston é mais uma prova do ocultismo e da carência de investigação na «era da informação»: só o medo foi semeado.

As execuções teleguiadas de inocentes em chacinas caladas, a exploração laboral requintada no Ocidente e à descarada nos países asiáticos, a tortura africana na busca do metal sagrado, a fome mortificante que despedaça corpos no mesmo continente, a mentira que legitima a guerra e a morte do desperdício, a centralização e o controlo da informação – a censura e a segurança da privação – e o poder divino intocável do oligárquico corporativismo, são somente alguns terroríficos resultados de um processo que deu frutos e filhos, todos eles lógicos, todos eles expectáveis.

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Protesto de índios da etnia Guarani-Kaiowá, que desde 2003 são chacinados por fazendeiros e «lobbies» com interesses industriais. Tudo com o silêncio complacente dos media e do Governo brasileiro.

Como o extermínio do povo índio e a igual receita aplicada aos povos indígenas da Amazónia  Porque essa gente não tem, nem o padrão, nem a moral, nem a importância, nem a cultura, nem a História, nem a legitimidade, nem o mesmo direito que nós a ter a sua própria escolha. Certo? Errado. Visceral e revoltantemente errado. A globalização é um conto mentiroso. Que uniformiza, centraliza, padroniza, e estandardiza, anulando as culturas e apagando a sua memória em prol da sua cegueira de ponta. Não somos, em nada, dissemelhantes da cultura prevalecente doutrora: somos preconceituosos, subjugamos, tiranizamos, matamos sem dó nem memória, exploramos de modo medieval – e maquilhado – e continuamos com o desdém sobranceiro que caracteriza o presente sobre a caracterização do passado. O modo é outro mas a cepa continua torta.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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