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Não estou certo se se trata de uma benesse ou de um tormento, mas hoje calha-me a inequívoca honra de escrever o centésimo artigo que se publica no Palavras ao Poste, e o que tem algo de efeméride corre também o risco de se tornar tumular, e por tal é preciso que eu eleve um pouco os pezitos na ânsia de sobrelevar outras tintas para alcançar a qualidade que se espera da matéria-prima que faz efemérides. Sei já que é um esforço ingrato, mas se algo tem sido reconhecido pelos leitores é o talento e a robusteza intelectual deste conjunto de autores, ao qual tenho a sorte e o orgulho vincado de pertencer.

E olhando para trás, para os artigos publicados nos seus dias devidos e para todos os outros que, sempre pertinentes, foram ao leitor sendo dados para que depois este não pudesse a nós dirigir-se reclamando do pouco tratamento dado às coisas da vida quotidiana, esquecendo-nos nós de ancorar na realidade as opiniões mais estouvadas ou certeiras que aqui vamos fazendo alinhar, como bons soldados, há uma dúvida que não deixa de me assaltar: o que nos trouxe até aqui? Quantas causas é possível apontar para que, hoje, esteja aqui eu a escrever-vos, neste espaço que aqui há uns meses não imaginei existente, a chamar as minhas mãos a celebrar, matraqueando sobre este teclado, o artigo número cem deste projecto?

Sem que acredite que alguma coisa nos matematismos do universo conspire para traçar destinos ao mundo, e sem qualquer problema em crer na pura coincidência das coisas, equaciono muitas vezes isso: quantas causas podemos encontrar para um singular acontecimento? Não, a pergunta foi mal feita. Quantas, podemos encontrar as que quisermos, mas não é disso que se trata. Quantas causas é legítimo apontar para a acção mínima, para o ínfimo acontecimento? Quão atrás poderemos ir, segurando em nós a honestidade intelectual intacta?

É certo que, se nenhum de nós tivesse nascido, o blog dificilmente estaria hoje de pé, mas isso não equivale a dizer que o Palavras ao Poste nasceu porque nós nascemos aqui há uma mão-cheia de anos. Vê o leitor que isso seria abusivo. E assim, sinteticamente passando a mensagem, creio eu, abster-me-ei de transformar este artigo que se espera comemorativo em mais uma reflexão exigente e demorada: é preciso resgatar a diferença e apontá-la ao comum dos outros dias.

Atirando, então, quaisquer condicionalismos universais pela porta dos fundos, e despedindo a ideia de destino mal ela se apresente pela porta, eis aquilo em que acredito, e onde sei ser secundado por todos aqueles que neste espaço vos escrevem: o Palavras ao Poste nasce, antes de qualquer outra coisa, das estreitas relações entre um óptimo e muito talentoso grupo de amigos (aos quais outros, maravilhosos, se foram juntando, e certamente se continuarão a juntar) que, entre muitas outras coisas, partilham o gosto por conhecer mais, por descobrir, por informar e também por escrever, clamando por um espaço de que sentiam eles próprios falta enquanto leitores; um espaço descomprometido, com vagar para a tão necessária reflexão num mundo em que se insiste que não há tempo e espaço para nada, sobretudo para a calma de pensar; um sítio sem agendas escondidas e que não se limitasse à reprodução estéril, à cópia muda e vazia, à velocidade de um flash. E é somente até aí que estamos autorizados a encontrar causas para o Palavras ao Poste: amizade, talento, honestidade e ambição.

Há sensivelmente três meses pusemos mãos à obra, e os números estão do nosso lado: com 100 artigos, mais de 30 mil visualizações e mais de 500 seguidores no facebook, o arranque foi sólido e prova do esforço investido e que assim se vê recompensado. Tudo faremos para manter a confiança que em nós têm depositado e prometemos que, já aí ao virar da curva, algumas surpresas se encontrarão.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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