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A luz em festa carpiu. As reservas de salva deram lugar às outras, reservas de medo. Perdidos no relvado, com as cócoras do cansaço e os ombros de quem perdeu o mote, alguns jogadores do Benfica comiseravam-se, derrotados, pelo empate. O mundo dos benfiquistas era um ténue sonho acordado, tão real quanto virtual: nesse limbo, semana após semana, a fome acentuava-se e os golos davam a certeza da expectativa. Os golos, os postes, as defesas de Artur, a dama da sorte, a pastilha de Jesus e os reflexos do mestre. O Benfica jogava bem, e aquando da falta de perícia, arrancava fora o coração e punha-lo no jogo: na UEFA sempre em frente, na Liga outro tanto adiante. Faltavam três jogos, mas apenas um de nível estratosférico. Na Luz, o Benfica tremeu com o abanão do Estoril – estratosférico será, agora, o nível exigido. Segue-se o FC Porto e as dúvidas arrastar-se-ão até ao dia do jogo: o vermelho que tanta certeza provocava, (até Vitor «Calimero» Pereira certificou o campeão Benfica) vê-se agora roído de dúvidas. De ansiedade. De impaciência. Afinal o abismo sempre esteve ali ao lado, mirando o Benfica incessantemente. Contra o Estoril o Benfica apercebeu-se, finalmente: e olhou, de volta, para o abismo. Nesse entreolhar foram-se dois pontos e provavelmente o campeonato.

«Provavelmente» pois as hipóteses dividem-se. Mas acedamos, 50% de chance é uma previsibilidade assustadora para quem esteve com mão e meia na taça de campeão e agora terá de se aventurar no dantesco campo da Antas, quase sempre de má remembrança para os encarnados. O abismo contemplativo é um vazio – perder frente ao Porto é meio bilhete de derrota contra o Chelsea, logo quatro dias depois, frente a uma constelação fisicamente mais apetrechada e sem o rasgar desconcentrante da desilusão nacional. É esse o abismo que o Benfica indomitamente foi vencendo ao não lhe prestar contas nem importância. O percurso encarnado tem sido inolvidável e o esforço de todos tem sido não menos que soberbo. Mas ao não desferir o golpe quase final, o Benfica adia para a casa do rival a decisão nervosa e enervante. E de que fibra é feito esse abismo?

Das derrotas passadas, dos duelos frustrados com o rival, da expectativa engordada própria de uma excelente época em todas as frentes. Numa década em que pouco se ganhou, o Benfica deve, a si e aos famintos adeptos, uma vitória categórica na Liga: e ela esteve quase, quase garantida. Da retórica humilhante de Vitor Pereira, que a cada palavra ácida de azia proferida infligia aos portistas uma derrota interior, tentando diminuir o rival (que até pouco mérito teria na UEFA, onde os Capelas diabólicos não existem) em toda a linha, até ao desejo de vitória dos encarnados, a expectativa cresceu naturalmente. E tornou-se num monstro. Gordo, grande e ternamente assustador. Esse tal abismo, paciente, que a cada vitória decisiva se esquecia, nunca se esvaneceu, por força da matemática: o Porto continuou forte e na perseguição. No empate contra o Estoril, no entanto, os olhares dos onze encarnados bateram no vazio: o choque foi demais. E foi o Estoril, com brio, correria, bola no pé e calma, que tirou os pontos aos nervosos por antecipação. Mas a verdade é que foi a mente a pregar a partida. Desculpo-me, Marco Silva, dando-te os parabéns pela excelência do teu trabalho, mas foi o Benfica que se atropelou na ânsia de se livrar do buraco. Do abismo. Da pesada expectativa que nunca o largou, apesar das exibições e das vitórias. O Benfica entrou forte na partida, mas acusou um falhanço. Depois dois. Depois o meio-campo perdeu-se com Enzo, e depois foi-se a confiança e o factor casa. O fardo de querer ganhar quando se ganha pouco é pesado demais. É assim para todos. O Benfica venceu estoicamente as adversidades, com a mestria de Jesus e a capacidade dos seus pupilos, mas nem sempre se ganha.

Seja por cansaço, nervosismo, mérito adversário ou qualquer outra andança. Seja pela oportuna expulsão de Martins, a quem os encarnados ficam a dever um par de cachaporradas pedagógicas. E agora Benfica? Vais vencer no Dragão? Vais-te queimar em lume brando, esperando um deslize em Ferreira depois de perderes o clássico? Não podes. Vais ter de ganhar o campeonato no campo do inimigo. O empate passado traduz isso. Quem não acautela tem de ser o mais corajoso dos corajosos: empataste na Luz, vais ter de sofrer a súplica da espera e a provação maior.  E dessas decisões são feitos os homens e as mulheres de confiança inabalável e de carácter rijo com as barbas de um Barbarossa destemido.  Agora não há espaço para calculismos, o empate contra o Estoril matou esse modo de pensar. Agora resta a bravura destemida do corpo-a-corpo: e aí meu caro Benfica, tanto se pode matar como morrer. É esse o significado da coragem.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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