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No clássico português «Aldeia da Roupa Branca», a simpática lavadeira Gracinda tratava de recolher a roupa dos clientes de Lisboa, lavá-la com dedicação e deixa-la num branco imaculado. Não fosse Beatriz Costa falecida, e daria jeito dar uma nova vida à sua personagem, de forma a branquear as camisolas em Madrid, que por estes dias tendem a roçar o branco sujo.

ikerJosé Mourinho é um treinador dado a limpezas. Mas, como diz o ditado, a nódoa cai sobre o melhor pano. E nem todas as nódoas são fáceis de remover. Iker Casillas é exemplo disso. O antigo guardião titular dos madrilenos não fazia parte da equipa imaculada que o treinador português construía e a solução passou pela limpeza em lixívia, de forma a remover a nódoa de forma permanente. Contudo, a par do vinho tinto, do café ou do chocolate, Casillas faz parte daquele tipo de nódoa que, por mais que limpemos, esfreguemos e enxaguemos, tende sempre a fazer-se notar sobre o branco. E, assim, mesmo que sentado no banco de suplentes do Real Madrid, há tempo suficiente para estar conformado ou mesmo esquecido, o nome do guarda-redes espanhol continua a ser discussão dentro e fora do Bernabéu.

Estamos habituados a que Mourinho construa equipas de forma convicta, mas sempre com uma ou duas nódoas no caminho. Foi assim no Chelsea e no Inter. É assim em Madrid. O treinador dispensa quem não lhe agrada, mesmo que esse jogador seja um activo importante no clube ou goze de um estatuto intocável. Mas, prova-se agora, que sempre que se decide sentar um gigante no banco, como o é Iker Casillas, com toda a solidez de presença pelos lados do Real, há que saber as consequências que isso traz, para a equipa, mas também para a cabeça do treinador. Penso que Mourinho não soube reconhecer as consequências da sua batalha pessoal para limpar a nódoa Casillas. Nenhuma posição é insubstituível, sabemos, mas, por vezes, há que manter o gigante, em nome do bom ambiente. Mesmo que este seja refilão, inconveniente ou queira assumir a braçadeira de treinador.

Jose Mourinho / PEPEE há sempre alguém que nota esta nódoa. Desta feita, foi Pepe, que a par de Iniesta, veio defender o guardião, pedir-lhe respeito. Como resultado, foi também ele para a limpeza, qual nódoa entranhada. Para o seu lugar foi a camisola branca, novinha e limpinha de Varane. Que aos 19 anos parece ser feito, aos olhos de mourinho, de tecido mais resistente que o defesa brasileiro. O que estranho no Mourinho, até aqui lavadeira eficiente, é a sua mudança de atitude dentro da sua equipa. Habituámo-nos a vê-lo defender as suas nódoas, a limpá-las com firmeza, sem precisar da ajuda da imprensa. Mas, em Madrid, o treinador mudou. Dispara de forma arrogante, respondendo às provocações jornalísticas, ao em vez de as calar, como habituamos a vê-lo fazer noutros tanques.

Bem sabemos que o Bernabéu é um tanque difícil e que os estendais estão repletos de estrelas e interesses. Mas o que me parece é que Mourinho perde, gradualmente, o controlo e fica perdido, definitivamente, o objectivo de obter o conjunto branco imaculado. E fica perdido o objectivo de obter o conjunto branco imaculado com assinaturas portuguesas. A campanha dos nossos emigrantes mais famosos – Coentrão, Cristiano Ronaldo, Pepe e Mourinho – capaz de fazer inveja a muitos emblemas, e que aproximou tanto os portugueses dos espanhóis como nunca a História se encarregou de fazer, soa-me a um plano abortado. Coentrão, porque nunca conseguiu disfarçar as nódoas da adaptação ao novo clube. Pepe, porque acaba a época com a sua titularidade discutida. E até Cristiano Ronaldo, que já se assemelha a tecido manchado e transparente. Longe de conseguir troféus pessoais e colectivos, foi uma nódoa no embate da Champions, frente ao Dortmund, e no último jogo da La Liga, frente ao Málaga, já se sentou no banco.

mouA verdade é que Mourinho desistiu. Desistiu do projecto Madrid. Cansou-se de esfregar, de tentar disfarçar as nódoas, mesmo que ainda deixe em aberto a continuidade. E isso é humano. Não é o expectável, mas é humano. Porque os braços se cansam de tanto bater as camisolas no tanque. Porque até os braços de Mourinho são capazes de experimentar o cansaço. Penso que o essencial para continuar a assistir a Futebol da forma mais objectiva que nos é possível, é não fazer dos seus intervenientes Deuses. Não imprimir aos jogadores ou treinadores características que os separam dos humanos e que os elevam para um patamar superior ao nosso. Não está socialmente correcto e a desilusão tende a ser maior face à queda dos adorados. Assim, mesmo que habituados ao rol de treinadores que atravessaram o Real Madrid e baixaram os braços, é diferente ver Mourinho a fazê-lo, ainda que de forma não assumida. Porque, mesmo para mim, que não acreditei no sucesso branco, é difícil de admitir que este projecto foi falhado. Peço-vos que não o contestem, atirando uma taça ou um campeonato para cima da mesa. Porque isso qualquer treinador consegue. Mas sabe a pouco no trabalho de Mourinho. E lá estou eu, acidentalmente, a coloca-lo no campo superior dos Deuses.

E é tão fácil imprimir ao treinador português características sobre-humanas, por todos os seus triunfos na limpeza de outras camisolas, ao longo da sua carreira. E é por isso que penso que, se as decisões de Mourinho fossem tomadas em prol da equipa, e não tivessem o mínimo de motivação pessoal, os jogadores do Real, por mais imaculadas que fossem as suas camisolas com o astuto de estrelas, não as questionariam. Nem acredito que Casillas seja daqueles que conseguem criar uma legião de seguidores, de forma injustificada. A questão é que, tal como Mourinho, Casillas já provou todo o seu valor no seu papel de jogador. É um número “1”, tal como o é o treinador português no exercício das suas funções. E aqui está o segredo da nódoa.

Nódoa esta, que mesmo que limpa a lixívia, sofre do efeito corrosivo do detergente, que pode fazer estragar o melhor pano. E, assim, o pano de que o Real é tecido, está gasto, a precisar de renovação. Como o está Mourinho. Que se dá melhor com a limpeza de roupa de cor. Porque no branco a nódoa se nota mais, talvez Gracinda lhe pudesse ter dado umas dicas, para conseguir manter imaculada a sua «Aldeia da Roupa Branca». O expectável é que se entregue à limpeza do azul do Chelsea, onde já provou que no tanque é eficiente, e uma vez que o os vermelhos do Manchester parecem já ter encontrado um sucessor a Alex Ferguson, para que as camisolas vermelhas não debotem. Resta saber se Mourinho ajudará a manter o guarda-roupa de Cristiano Ronaldo, no Chelsea, uma vez que o número “7” também já está cansado de envergar branco, por não lhe favorecer os lindos olhos.

Mara desenhoMara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste»

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