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Sou totalmente a favor da pedagógica queda de pianos sobre cabeças néscias. E se polícia alguma alguma vez houvesse que existir, teria que, irrefreavelmente, ser a da parvoíce, o que à partida colocar-nos-ia um problema incontornável: o da privacidade, pois que não há nada mais íntimo que a parvoíce. Grela por dentro, expande-se como uma teia sobre o cérebro, embrulha o parvo e devolve-o à procedência – já cantava o Carmo nas palavras trovadas do Ary, «parecem bandos de pardais à solta…». E eles sim, parecem – não os putos mas os parvos – bandos de pardais. E pior. Adivinhou: à solta.

Conversar é um acto saudavelmente compulsivo e edificante: é, com grande convicção o digo, um traço de indistinta superioridade. A comunicação é o abolimento da ignorante fronteira, reduto base – e básico – da boçalidade e do preconceito, da treva e da alienação. Mas é um acto surrado e sovado do modo mais selvagem que o arsenal do selvagem consegue dispor, através de imparáveis golpes de estupidez assolapada que vertem sobre a pobre conversação, açoitada em falácias boquiabertas, caneladas gramaticais até ao osso, cabeçadas iliteratas e, para finalizar, ganchos de provocação que roçam o queixo com a mesma delicadeza com que grassam o maxilar do ridículo. O próprio ridículo querer-se-ia um conceito abstémio, e não, como os parvos insistem em fazer dele, uma muleta para toda a falta de inteligência, um «passe-partout» que transporta o parvo, do seu elemento, para o convívio dos beneplácitos. Sim, por dedução à contraposição, os parvos são histéricos: histérico na medida do desatento, na justa e proporcional medida do atormentado. Seja pela falta de polimento intelectual, pelo inexistente cultivo cultural ou pelo simplório fanatismo clubístico que faz o parvo sair à rua, pronto para socar uma ou outra conversa adiante. Nota para profilaxias futuras: a concentração e o silêncio são vias rápidas para se largar a parvoíce. Basta parar de falar – usualmente barulho e não significados – para darmos um encontrão no pensamento: «Olha, afinal não sou assim tão parvo».

Adivinhou novamente: há esperança para o parvo, mas terá de ser ele a dar o primeiro passo. Outros existem que preferem mesclar a parvoíce com a fina e depurada retórica do descaramento insidioso: raios, você adivinha tudo: falamos dos políticos. Mas a generalização apressada perfaz um erro redutor: políticos somos todos, usando do dom da palavra para arquitectar a nossa socialização, dispondo da argumentação para provar, desprover ou apologizar. E na saudável ginástica das tais conversas, quer os parvos quer os manhosos adoram meter a colher: quase sempre para se refastelarem com o desbaratamento das mesmas. Vão, assim, levando água ao seu moinho. Os parvos são desinteressadamente parvos, os manhosos são parvos por conveniência e conivência – quase sempre, estas duas criaturas – o parvo e o manhoso – assumem, do alto da sua infundada presunção, que somos todos parvos. Mas não somos.

Levando a água ao moinho vão, ambos, até desordenarem, de volta aos fundamentos anciães, a dita da conversa, hoje praticamente desdita, por entre a parvoíce instalada, a desinformação, o descaramento e a leviandade sem obséquio com que empregam os seus raciocínios. Não admira que, como disse um dia Brecht, tenhamos de andar a defender o óbvio – a excepção tornou-se a regra. De pernas para o ar já se fazem argumentos válidos, e não falo daqueles que não deixam nada a desejar à imaginação, falo sim daqueles que revolvem a lógica assente e puxam o tapete do jogo a meio: agora sim, falo estritamente dos políticos.

As labirínticas conversas entre Mahalik e CJ são produto da parvoíce, é certo. Fazem o contraponto com a mesquinhice política do Governo, que é levemente parvo e grosseiramente manhoso. Clique em «play» e introduza-se à minha vontade pedagógica relativa à queda de pianos.

Isto é parvoíce. Pura, singela e sobrecarregada. É, basicamente, um engarrafamento. Muito diferente da atitude do Governo para com muitos dos seus funcionários públicos, na sequência austera do manhoso programa de mobilidade especial – especial, de novo, ou como de pernas para o ar se tenta vender gato por lebre. Mas apesar de diferentes, ambos os espécimes – o parvo e o manhoso – acabam por se cruzar irreversivelmente. Porque ambos fazem partir o seu darwinismo aparvoado de uma leve parvoíce que depois grela, mais nuns que noutros: o caso do Governo de Passos e Gaspar é a amostra perfeita  para o nosso estudo, já que agrega ambos os defeitos. O modo aldrabão como tenta impingir despedimentos cobardes e velados na função pública chega a roçar o limite do descaramento, da desonestidade intelectual e, não poderia faltar, da parvoíce a condizer. Ora, passando à mobilidade especial, vários trabalhadores ficarão, passados dezoito meses, a receber zero. Continuam com vínculo à função pública e não são despedidos. Mas ganham zero ao fim do mês. Vou repetir as ideias chave: Não se é despedido mas não se aufere. Quer dizer, ganha-se, mas ganha-se zero, ou seja, ganha-se mas não se ganha na realidade. Vou contorcer mais um pouco: é-se trabalhador do Estado mas o Estado não lhe dá trabalho, trabalha-se para o Estado mas não se faz nada, recebe-se um salário mas o tal salário é zero. Fico pasmado com os pinos que a nossa mente dá enquanto se aventura por raciocínios como estes. Até me sinto ligeiramente azamboado. De facto, comprovamos laboratorialmente que Mahalik e CJ são em parte espécimes semelhantes a Passos, Gaspar, Portas e trupe adiante. Entre as conversas sobre «rats and mices», «waking up dead» ou «turning up missing», esta da mobilidade especial passa sem destoar. Se me permitem o desvario, considero-a bem mais parva que qualquer tirada parva de Mahalik e CJ. Parva e impronunciável, parva e atentatória: esta medida coage o funcionário a despedir-se, coisa que, a acontecer, o lança para o desemprego sem direito ao subsídio relativo ao mesmo. O caso agrava-se ainda mais quando trabalhadores com vinte e trinta anos de labor são atirados borda fora, com um corte brutal na sua indemnização compensatória. Uma desgraça de homens pequeninos, manhosos e com laivos de parvoíce para pendant fazer.

E assim se é governado, pagando o preço do desinteresse cívico, porque como costumo ouvir da malta que por aí prolifera: «Eu cá não me interesso por política». Pois devias-te interessar, pelo menos, por um pedacinho de inteligência só tua. E compartilhá-la em conversas. Reflectidas, atentas e racionais. Verás – ou verias – meu caro parvo, que terás – ou terias – muito a agradecer. Tu e todos nós. Porque é na educação cívica e cultural que se começa a revolução das coisas e do pensamento. Um parvo é um entrave inadvertido, um manhoso um obstáculo premeditado. Mas ambos merecem o mesmo fim: um belo e chovido piano cabeça abaixo.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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