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Tenho um problema com a poesia. Também tenho um problema com a prosa, mas, como diria o Jack, o Estripador, vamos por partes. Por partes iremos, então, olhando criteriosamente a estas e àquelas miudezas, pois que o problema não é sequer um problema, mas outra coisa qualquer, e sobretudo dele não tem qualquer culpa nem a poesia nem a prosa.

A literatura está sob ameaça. Hoje mais do que nunca. E parte muito entroncada do perigo reside no facto – essa é uma ideia que persigo há já algum tempo – de a literatura ser a única arte que partilha com o quotidiano verdadeiramente uma mesma ferramenta: a língua, o texto. E esse é o seu pharmakon, remédio e veneno. Aquilo que poderia potenciá-la torna-se, afinal, a mão precisa que lhe crava a adaga no lombo, depois volteando a lâmina uma e outra vez, em regime de bailado contente, capaz de lhe destruir a gordura e o músculo no mesmo passo deslizante em que, com a outra mão, coloca na prateleira mais um livro.

A verdade é essa: o maior inimigo da literatura é o facto de o comum das pessoas saber escrever moderadamente, ou minimamente. É isso que nivela a literatura por baixo, e a poesia é maior arma nas mãos dos rebeldes, porque em poesia quase tudo parece aceitável, e tudo se pode assim confundir com o génio ou criatividade únicas do autor. Ninguém conhece tantas palavras bonitas como o dicionário, e não consta que ele tenha algum dia tentado passar por poeta. A linha entre o brilhantismo e o disparate tosco tende a ser ténue. Aquilo que torna bela a poesia, a sua maior impermeabilização a cânones ou regras de qualquer espécie concorre para a barbárie com que por vezes algumas mentes a invadem, fazendo uso dessa terra de ninguém e, por que não, dos acríticos que mais do que menos a calcorreiam em passo ababelado, alheios às balas, pouco atentos às minas, e por isso caindo em todas.

O caso é este: imaginemos, agora, que cada um de nós, por saber pintar a parede lá de casa quando necessário, se punha agora a produzir quadros e a lançá-los no mercado. Insurgir-se-á o leitor: isso é um disparate! A maior parte das pessoas nem sabe pintar! Respondo-lhe eu: a maior parte das pessoas também não sabe escrever, e isso não as tem dissuadido suficientemente.

Escultura com livros, da artista Alicia Martin, em Madrid, Espanha.

Escultura com livros, da artista Alicia Martin, em Madrid, Espanha. (Alicia Martin)

O problema, claro, está também no mercado. Aliás, foi o próprio mercado que se aproveitou da alfabetização – ou da sua difundida aparência −, interpelando-nos na televisão e em horário nobre: Sempre sonhou escrever um livro? Quer contar a história da sua vida? Envie-nos o seu manuscrito para… Aí está a génese da degeneração literária. Porque a literatura se deixou mercantilizar talvez mais do que as outras artes, e porque editoras e autores muitas vezes se conluiam para investir juntos na ilusão de que têm um bom livro em mãos, só porque é fácil vender um nome, ou porque o dinheiro por detrás dele permite criar um novo Justin Bieber do romance, uma Taylor Swift do conto, ou outra coisa qualquer. Partilho com o leitor um segredo: na música, com os intérpretes, assim como na literatura, com os autores, o sucesso pode ser atingido à custa de investimento, sem olhar à qualidade da arte. E esse é o perigo. No final do dia, muitas editoras só olham a um livro: o das contas. Isso não está errado nem pode ser, ulteriormente, censurável. O que já o é é que esse livro particular subjugue todos os outros. Editam-se estes em vez daqueles para que os números se regozijem. Assim na literatura como na vida, a tirania dos números estrangula sempre tudo o resto, invade tudo, mutila tudo. É certo que há editoras que fazem um excelente e louvável trabalho na promoção de bons livros e melhores autores – dos mais consagrados aos que ainda ninguém conhece – como em tudo, as generalizações tendem a ser perigosas e é preciso refreá-las −, mas não é senão a familiaridade com as palavras que permite, a muitos, a leviandade de com eles tratar airosamente, sob a doce ilusão de se dominar o objecto em mãos. Ora, nada mais longe da verdade.

Até poderemos, talvez, defender que as pessoas devem poder ler aquilo que muito bem quiserem – não estou pronto a subscrever esta visão −, e se calhar muitas das gentes não distinguem um bom de um mau livro, ou sequer um livro que terá tantos outros por igual. Sejamos claros: entre ler José Rodrigues dos Santos e Dan Brown, o leitor fica na mesma, assim como na mesma – esse sítio das ilusões melancólicas – permanecerá se a sua dúvida for entre Nicholas Sparks e Danielle Steel. Se são livros mal escritos? Certamente que não; era só o que nos faltaria. O ponto é que são reproduções estéreis – pese embora a reprodução – uns dos outros, conchas vazias e nem sequer conchas bonitas. Tais livros roçam quase as bermas da categoria. São novela, telenovela e filme fraco que simplesmente se esqueceu da imagem.

Precisa o leitor de provas? Acaso alguém já teve a sua televisão, interrompendo-lhe o jantar, querendo saber: Sonha esculpir uma estátua? Sempre desejou pintar um quadro? Ambiciona escrever um concerto para orquestra e fagote? Pegue no cinzel, submerja em tinta o pincel ou compre uma resma de partituras e envie-nos a sua obra!

Indivíduos procuram livros num armazém abandonado pela Amazon. Bristol, Reino Unido, 2009.

Indivíduos procuram livros num armazém abandonado pela Amazon. Bristol, Reino Unido, 2009. (Picture It Now, Daily Mail)

Voltando ao início para embrulhar o argumento: o meu problema é com o estado da literatura e com os ataques que muitos livros constituem, como agentes duplos, vermes no seu seio vilipendiando-a, corroendo-a como térmitas a partir das estantes, seu território natural e onde ela se julga mais segura. O problema trespassa a prosa e a poesia, e pelo menos o lado ocidental do planisfério. O que acontece é só que a poesia, talvez sobretudo aqui, talvez sobretudo às custas de tanto nos tatuarem nas meninges que somos povo de poetas e marinheiros, vai convencendo as menores das gentes de que também elas são poetas. E como estamos precisados de marinheiros…

Afinal, assim como no romance de Joseph Heller, Catch-22, se diz que «Actualmente, há cinquenta ou sessenta países envolvidos nesta guerra. Não acredito que todos mereçam que se morra por eles!», não acredito que, dos mais de 2 milhões de livros publicados no mundo, anualmente (mais de 7 mil em Portugal), todos valham a pena ler.

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Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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