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jorge_perestrelo_lusaNem sempre uma imagem vale mais do que mil palavras, já sabemos. Nem sempre aquilo que vemos com os nossos olhos é suficientemente forte para que o significado do que nos chega nos chegue efectivamente. Aquilo que uma imagem transmite tem muitas vezes menos impacto do que aquilo que nos é dito, da forma em como nos é dito.

No futebol, os relatos da rádio das partidas dos nossos clubes contam uma história que os nossos olhos não vêem. Porque quem conta acrescenta sempre um ponto, as palavras que ajudam a contar o jogo têm sempre o seu quê de imaginação, como o avô que conta a história do capuchinho vermelho trinta vezes de trinta maneiras diferentes.

É essa subjectividade inerente ao relato que lhe confere uma dose de misticismo e devoção: quando não há imagens, quando não há televisão, aquela é a voz na qual devemos entregar toda a nossa confiança. Confiar nos jogadores evocados, confiar nas jogadas, confiar na intensidade, confiar no penalty que não foi, confiar que o nosso avançado estava mesmo em fora-de-jogo. Não temos alternativa, aquele é mesmo o nosso jogo de futebol, a história em que temos de acreditar.

Muitas vezes me questionava, quando era miúdo, sobre o porquê da diferença de intensidade dos jogos da rádio e da TV. Os da rádio eram sempre melhores, eram sempre mais rápidos, os jogadores corriam que nem loucos até à linha, cruzavam com o esquerdo, com o direito, rematavam de todas as maneiras e feitios e faziam golos. Quando não faziam, jogavam por todo o campo com uma raça de guerreiros que nem a falta de pontaria podia ajudar a ignorar.

Mais tarde cresci e percebi que a questão não era essa. Obviamente que os jogos eram os mesmos, os jogadores também e os estádios ídem. Era tudo a mesma coisa, tudo igual. O filme do jogo era só um, claro. As imagens assim o comprovam.

A verdade é que ainda hoje, e apesar disso, não deixo de continuar a acreditar que estes são dois jogos completamente diferentes. O da rádio e o da televisão. E antes que me perguntem deixem-me já responder: sim, confesso. Prefiro muito mais os jogos da rádio.

Podia não gostar do “relato” televisionado simplesmente pelos “totós” que o fazem, quais estudantes de faculdade à beira de entrarem no primeiro sono depois de uma noite de ressaca. Podia não gostar deste jogo tão só pela ausência de imprevisibilidade na TV, que a rádio oferece. Podia também passar o resto deste artigo a tentar explicar isto, mas talvez não conseguisse.

E nem sequer é isso que importa. A capacidade de contar uma história não está ao alcance de todos. É por isso que as crianças têm sempre os seus preferidos na hora de adormecer. O poder de prender os ouvintes, de os agarrar pela voz, pelas palavras, pelo grito, pelo recitar estonteante dos nomes dos jogadores, em suma, pela velocidade do relato, é um dom.

Cada locutor tem o seu estilo. O de Jorge Perestrelo era particularmente marcante. Quem não se lembra do Portugal-Inglaterra, de 2004?

“É um sofrimento atroz meu Deus…é o Ricardo que vai bater o penálty, ele pediu para marcar o penálty. Vai partir Ricardo, atira…Portugal! Portugal! Portugal! Portugal! POR-TU-GAL! Oiçam, oiçam o Estádio da Luz…que bonito foi Portugal, mas que bonito foi Portugal!”. [Oiça o relato de Jorge Perestrelo]

O relato do último penalty marcado por Ricardo contra a Inglaterra, e que valeu o passaporte para as meias-finais do Europeu, é uma verdadeira preciosidade, uma autêntica peça de museu. A apreensão dos comentários iniciais antes da marcação do penalty, a confiança nas palavras antes do pontapé de Ricardo e os gritos de emoção já com a bola dentro da baliza denotam a perfeição da técnica de Perestrelo. A dose da reacção e comoção usadas na proporção certa, sem exageros, sem cantigas ou patetices para inglês ver. A graça deste lisboeta com sotaque angolano não era o “ripa na rapaqueca” nem muito menos o “qu’é que é isso é meu?!”. Isso eram apenas adereços que ajudavam a compôr a sua natural vocação para o relato, para sentir o palpitar cardíaco do jogo, o pulsar dos jogadores, e a sua capacidade para o comunicar com alegria e sentimento.

O relato frenético do antigo locutor da TSF contou como nenhum outro, como nenhuma outra imagem, como nenhum outro espectador que esteve no estádio, o ambiente que rodeou aqueles minutos finais desta partida histórica para a Selecção Nacional. Não me lembro para que lado o Ricardo bateu a bola e como foram os festejos do resto da equipa. Estes minutos de pura adrenalina e inquietação, que Perestrelo foi capaz de despertar, fotografaram o retrato que nenhuma imagem televisiva foi capaz de mostrar. E falo desta como poderia falar de muitas outras peças do acervo de Jorge Perestrelo, um nome incontornável do jornalismo desportivo em Portugal.

pedroSousaMas não se pense que a televisão também não é capaz de oferecer ao espectador aquilo que ele mais espera de um jogo de futebol: emoção. Prova disso foi a minha tarde de sábado do dia 12 de Fevereiro de 2011. A cábula de que me socorri serve apenas para o registo da data. O golo, e o relato de Pedro Sousa, em directo para a Sporttv, jamais poderei esquecer. Manchester United e Manchester City empatados a 1 golo em Old Trafford, num belo jogo de futebol. Até que aos 77’ do segundo tempo Wayne Rooney resolve fazer um daqueles golos que ficam para a história. A execução do pontapé de bicicleta mais sublime que eu vi até hoje, a passe de Nani, resolveu um jogo de um minuto para o outro. Não foi o primeiro nem o último golo de “chilena” a que já assisti. [Veja o golo de Rooney a partir da bancada de Old Trafford] Mas o seu relato, simples e descomprometido de bitaites e tácticas da treta, foi um dos mais espectaculares que já tive oportunidade de ouvir. Vibrei com aquele golo “lado a lado” com o Pedro Sousa, um locutor que fui acompanhando e admirando nos vários jogos da Premier League ao fim-de-semana.

Continuo e continuarei a acompanhar futebol. A ver jogos de Portugal, Itália, Inglaterra, Espanha, Alemanha e por aí fora. Mas a incerteza do resultado e aquele bichinho que nos mantém ligados durante os 90 minutos, só acontece na rádio. É lá que reside a essência do desporto-rei. Na TV só estão as imagens dos golos. E isso é pouco.

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???????????????????????????????André Cunha Oliveira

 

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One thought on “O poder do relato

  1. Tostéis muito da forma como “relatas” as diferencas entre os dois tipos de relato….devo confessar que em certos jogos e em certos momentos, prefiro sem duvida a radio….Obrigada

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