Home

“Fátima, Futebol e Fado”, partitura tripartida que serviu de lema e estandarte ao compasso do regime salazarista que assolou Portugal no último século. O regime caiu, mas os pressupostos enunciados pela letra «F» continuam presentes no colectivo nacional. Não porque o actual governo faz deles a sua bandeira política, mas porque a memória do povo não se apaga aquando a queda dos regimes. É transmutada, de geração para geração, adaptando-se às novas realidades. O que apraz, aqui, perceber, é a forma como a identificação ao lema nacionalista ainda se faz sentir, num país que quer esquecer a estrutura opressora que terminou há quase quatro décadas.

A forma de impor crenças a um povo, que se pretendia analfabetizado, de forma a tornar fácil o processo de interiorização de ideologias convenientes, não é, em si, uma novidade. Crianças, adultos e seniores eram católicos, aplaudiam a glória benfiquista fora das fronteiras e tinham no Fado a forma de identificação cultural, que necessitavam para as distracções estudadas. Amália era mais um símbolo, que poderia ser colocado na prateleira das antigas casas portuguesas, bem ao lado da imagem santificada da Nossa Senhora de Fátima e por cima do cachecol do glorioso. Toda a ilusão necessária para que se construísse uma massificação de valores. Ao mínimo desvio possível, haveria muito que explicar. E o povo seguiu, em passo geral, rumo à obediência. Porque o medo é algo que nos assola e que bem pode servir de ferramenta eficaz para que o rebanho siga a sua marcha.

E Portugal seguiu a sua marcha. Aguentou o fado, de forma resistente, esperando que o futuro trouxesse a recompensa. Esperando a aurora da liberdade e inalando cada pedacinho desta, que teimava em surgir, pontualmente, alternada com o medo de a experimentar. E esta é a forma como hoje me sinto, eu, pertencente a uma geração bem posterior à da ditadura, e adaptado que está o conceito de liberdade à realidade e ao Portugal que me viu nascer. Porque a ilusão de que somos livres e que o rebanho não se forma ante os nossos olhos, e de forma alheia à nossa vontade, é tão condenadora, como saber que Salazar comandava o país ao som de Amália.

Perante sentimentos tão pesarosos, algo que me faz sorrir é pensar nos pressupostos salazaristas que caíram completamente com o seu regime e que o deixam, certamente, aos pulos no caixão de Santa Comba Dão. Talvez o mais flagrante seja o seu modelo de Família. O culto do chefe de família que tende a esgotar-se nas gerações; a mulher que ganhou respeito e autonomia; os filhos que ganharam identidades próprias e, por vezes, díspares do modelo transmitido em casa. A isso, juntaremos a queda do padrão do casamento, o crescimento das uniões de facto e a livre separação de casais. E, com muito escárnio, imaginaremos António Oliveira Salazar, a assistir ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e à aprovação da lei co-adopção nos casais homossexuais, da passada sexta-feira. Cairia da cadeira, pela segunda vez. O orgulho apodera-se de mim. Portugal respirou e abriu-se à mudança.

Mudou, mas deixou permanecer na sua herança o lema anteriormente enraizado: “Fátima, Futebol e Fado”. Desastroso seria, se tivessem sido apagados todos os registos de um período que, embora dele o povo se envergonhe, existiu, e que perdurará nos registos da história. Tamanha catástrofe seria, a de ter um buraco temporal sem registos de identidade, caso a força para esquecer o passado ditatorial, fosse também o esforço do esquecimento das gerações que por ele passaram ou se deixaram afectar. A opressão aconteceu. A cultura estagnou. Rasgos de criatividade eram usados em prol do regime. Mas a cultura cultivada em função do permitido, permaneceu. Não se deixou de rezar em Fátima, assistir a jogos de Futebol ou ouvir um Fado com guitarra, só porque a liberdade rompeu em Abril, com todas as novidades que isso trouxe.

A grande diferença na forma como nos identificamos, actualmente, com um lema que nos define tanto enquanto nação, tanto como a imagem do Zé Povinho ou do Galo de Barcelos, é que esta identificação surge em nichos, em núcleos, e de forma segmentada. Se antes entraríamos, sorrateiramente, por uma casa portuguesa, e veríamos, com certeza, o reflexo nacionalista do estandarte religioso, desportivo e cultural, acontece, agora, que os três elementos continuam presentes entre nós, mas sob uma forma moderna de apresentação e atacando, cada um, o seu grupo de indivíduos alvo.

As peregrinações religiosas ao Santuário de Fátima continuam a acontecer de forma massiva, principalmente em dois períodos do ano (Maio e Outubro). Continuam a ser cumpridas promessas, a serem feitos sacrifícios em nome da Fé e acendidas velas em nome dos que mais se amam. Fátima é a confirmação do peso católico no povo português. E isso, nenhum regime irá alterar. Se, por um lado, existe um crescente número de ateus entre as novas gerações, por outro, a crise encarrega-se de reunir um grande número de devotos que se encontravam em modo apagado. Em altura de dificuldades, a fé multiplica-se. Mais do que agradecer o destino que se cumpre, trata-se de pedir, muito. Pedir muito, rezando ainda mais. Que o destino é incerto e a aurora teima em não chegar. E que diferença existe nesta devoção e na que se fazia sentir em tempo ditatorial? Nenhuma. Salazar só aproveitou esta apetência nacional para o culto. Não se enganou. Tanto, que ela é actual.

Como é actual a distracção futebolística, em forma a entreter um povo que está triste. Portugal está triste, desorientado e sem motivação. E talvez o único momento em que nos sentimos crentes e unidos num orgulho nacional, é quando nos juntamos num café, a assistir às tentativas de sucesso das equipas nacionais em territórios europeus, bem como da selecção na sua campanha de quinas ao peito. É aqui que se revela um sentimento de pertença a um país, que em todas as outras alturas nos parece desiludir. Ninguém beija a bandeira, qual símbolo exímio do nacionalismo, sem ser nestas alturas. O futebol agarra-nos e faz-nos acreditar numa superioridade que não existe. Como se o erguer de uma taça pudesse apagar qualquer desígnio do nosso fado. E não foi isso mesmo que Salazar pronunciou com a glória encarnada, no último século? Não continuamos a ter, neste escape desportivo, a procura da identidade nacional? Continuamos. Somos, afinal, o país que exportou Mourinho e Cristiano Ronaldo para o mundo do Futebol. Somos um Berço de Ouro, qual cidade de Guimarães.

Se a Fé e o Futebol não nos bastassem, nesta viagem ao encontro do que nos define enquanto nação, encontraríamos um Fado, enquanto estilo musical, que renasceu. Uma nova geração de fadistas faz-se ouvir. Diz-se amante da tradição e afina-se na melhor forma de fazer propagar a Voz nacional. Mariza, Carminho, Ana Moura, Cuca Roseta e Camané estão na moda. Porque a Amália estava out, mas, se lhe emprestarmos nova melodia às letras que entoava no Olympia, os álbuns pavoneiam-se no Top de vendas nacional. O fado, que era triste, sombrio e pesado, é, agora, variado. Canta-se alegre, em jeito de intervenção, ou num jeito popular, com duetos em Espanhol. Canta-se em Português, a confirmar a supremacia da Língua Portuguesa, que Salazar reclamava.

Se Salazar fosse vivo, talvez não entrássemos em «desacordos» ortográficos. Porque a língua evolui, mas não se adapta ao interesse das potências emergentes, outrora por nós colonizadas. Mas, atenção, que a minha sentença é um perigo e pode causar danos colectivos. «Se Salazar fosse vivo», é como que desejar que este senhor, com tanto jeito para números, nos governasse agora, num destino que é meramente numérico. Porque respeito a sapiência dos mais velhos, que a certa altura ganham o estatuto de poderem afirmar tudo o que lhes dita a vontade, mas dos quais me apetece fugir, quando, volvidos tantos anos, e ultrapassada uma vida em ditadura, enchem o fôlego para chamar à ribalta o antigo ditador. O país é pobre, mas no tempo do Salazar os cofres estavam cheios, justificam-se. Pois bem, regozijam-se com o seu legado: «Fátima, Futebol e Fado». Porque o resto está enterrado.

“Na carência a que me referi e no que é essencial, o que nos tem valido é o fundo ainda consistente da lusitanidade, as lições da história e o exemplo dos seus valores, a sã tradição de nossos maiores que os acontecimentos políticos dos últimos séculos não conseguiram obliterar”

(Discurso de António Oliveira Salazar, 1963)

Mara desenhoMara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste»

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s