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Não é só Cristiano Ronaldo, José Mourinho e a comitiva lusa do Real Madrid (que esta segunda-feira foi desfeita com a confirmação da saída do técnico luso) que dignificam a bandeira nacional pelos relvados dessa Europa fora. Volta e meia recordamo-nos também de nomes como Nani, Raúl Meireles, Miguel Veloso, Danny, Hélder Postiga, Manuel Fernandes ou Hugo Almeida. Mas poucas são as vezes em que ouvimos falar daqueles que elevam o nome do futebolista português em palcos mais recônditos. João China é um bom exemplo. E é «made in… Alentejo»! Portanto, com selo de qualidade.

Longe vão os tempos em que o futebolista português, por mais talentoso que fosse, fazia toda a sua carreira futebolística nos palcos nacionais. A década de 80 começou a ver os primeiros grandes craques a emigrar, nomeadamente para França. Mas o grande êxodo começou no virar do século, potenciado pelas brilhantes prestações de vedetas lusas nos maiores palcos do futebol europeu.

Hoje o futebolista português é dos mais apreciados na Europa (também os treinadores lusos vão ganhando o seu lugar de relevo). E como muitas vezes não tem oportunidades nos clubes nacionais, acaba por tentar a sua sorte no estrangeiro, nomeadamente em ligas de segunda linha como a Roménia ou o Chipre.

O caso que hoje aqui vos trago é um pouco diferente. João Pedro dos Santos Gonçalves, conhecido na gíria como China, não emigrou jovem e até teve as suas oportunidades nos grandes palcos nacionais. Mas antes disso batalhou, sofreu e resistiu à tentação de desistir perante a adversidade. A dedicação foi compensada com a chegada à Primeira Liga, com as cores da Naval 1º de Maio. Porém, a grande aventura da sua vida começou há cinco anos quando emigrou para a Ucrânia, assinando pelo Metallurg Donetsk.

Em entrevista exclusiva ao «Palavras ao Poste», João China fala-nos de um difícil percurso até ao profissionalismo. As origens, a carreira e a aventura na Ucrânia merecem especial destaque!

ORIGENS

PALAVRAS AO POSTE: Como nasceu o ‘bichinho’ pelo futebol?

JOÃO CHINA: Eu acho que o bichinho do futebol já nasceu comigo. Em miúdo lembro-me de jogar futebol nas ruas, nos jardins e no campo de Odemira. Qualquer espaço servia para jogar futebol. E, de vez em quando, lá chegavam as ‘multas’ a casa para o meu pai pagar as flores estragadas e os vidros partidos.

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Tudo começou no pelado do Juventude Clube Boavista (China em baixo, com bola)

Já referiste que a tua infância foi vivida no Alentejo, mais propriamente em Odemira. É mais difícil chegar longe no futebol nascendo longe das grandes cidades e dos grandes clubes?

No meu caso foi muito difícil. Quando saí de casa, com dez anos, fui para muito longe dos meus pais, da minha família e dos meus amigos. As saudades eram muitas e foi muito duro para mim e para os meus pais. Mas meti na cabeça que todo aquele sofrimento seria para um dia chegar longe nesta profissão, porque há oportunidades que só tens uma vez na vida. Em Odemira sabia que não teria condições de vir a ser um jogador ao mais alto nível. Mas por um lado até acho que se torna mais fácil chegar longe quando és uma criança que vive longe das cidades, porque percebemos que não podemos desperdiçar a oportunidade quando ela surge e porque traçamos uma meta e acabamos por dar mais valor ao futebol. Para além disso, crescemos mais rapidamente porque ficamos longe dos nossos pais muito cedo. E prova disso é que não existem assim tantos jogadores da grande Lisboa e do grande Porto a jogar na Primeira Liga e até existem bastantes de meios mais remotos.

De onde vem a alcunha ‘China’?

No futebol e entre os meus amigos todos me conhecem como ‘China’. O meu irmão Vasco, que agora é treinador das camadas jovens do Vitória de Guimarães, é que começou a ser chamado de ‘China’ devido aos seus olhos mais rasgados. Como eu jogava futebol com os mais velhos começaram a chamar-me ‘Chininha’ e acabei por ficar ‘China’ também. Dura até hoje.

Chegaste muito cedo à formação do Sporting. Como surgiu essa oportunidade?

Com apenas nove anos de idade jogava no Juventude Clube Boavista [ndr. clube da Boavista dos Pinheiros, Concelho de Odemira]. Num jogo chamei a atenção de olheiros do Sporting e do Benfica mas acabei por ingressar no Sporting, com apenas dez anos. Acabei por ficar no clube durante oito anos.

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China envergou a braçadeira de capitão nas camadas jovens do Sporting, numa equipa onde estava por exemplo Ricardo Quaresma

Nas camadas jovens do Sporting chegaste a capitão. Com que jogadores importantes partilhaste o balneário?

Nesses oito anos no Sporting partilhei o balneário com jogadores como o Carlos Martins, o Hugo Viana, o Ricardo Quaresma, o Beto, o Miguel Garcia, o Marinho ou o Mangualde e convivi com outros jogadores de outras gerações como o Simão, o Cristiano Ronaldo, o Dani, o Boa Morte ou o Nuno Assis. Já naquele tempo aquele clube era um viveiro de jogadores e hoje continua a sê-lo.

Que títulos conquistaste nas camadas jovens do Sporting e qual o momento mais marcante?

O Sporting foi um clube muito especial para mim, o clube que me fez jogador e homem e graças ao qual cheguei à Selecção Nacional sub-15 e à Selecção da Associação de Lisboa. Guardo especiais recordações do título de Campeão Nacional de Juvenis que foi muito marcante para mim e muito forte em emoções.

Ainda em júnior passaste pelo Farense. O que aconteceu para saíres do Sporting e como reagiste a isso?

Quando passei a júnior estive um ano praticamente sem jogar. No final dessa temporada recebi a notícia de que não contavam mais comigo no Sporting. Fiquei revoltado pois parecia que depois de oito anos de sacrifício o sonho tinha terminado. Mas não desisti e acabei por ingressar no Farense no meu ultimo ano de júnior. Essa temporada acabou por correr muito bem e muita gente questionava o porquê de me terem dispensado do Sporting.

CARREIRA SÉNIOR

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No Maia, treinado por Mário Reis, deu nas vistas e despertou a cobiça de clubes da Primeira Liga

Na chegada a sénior passaste por clubes com menor reputação (Desp. Beja, Sp. Pombal, Fátima ou Maia) e por divisões secundárias. Foi difícil a adaptação a essas realidades tão diferentes daquela que vivias no Sporting?

Quando passei a sénior fui para o Desp. Beja, um clube bem mais próximo da minha terra natal. Apesar de jogar sempre, pensava muito em desistir. Foi um período em que estava muito desmotivado porque pensava que já não chegaria a profissional. Mas continuei a lutar, passei ainda pelo Pombal e pelo Fátima e o sonho começou a crescer quando cheguei à 2ª Liga no Maia. Essa foi a montra que necessitava. Fiz uma grande época e comecei a despertar as atenções de clubes da Primeira Liga, acabando por me transferir para a Naval.

Na Naval viveste alguns dos melhores momentos da tua carreira e conseguiste a chegada à Primeira Liga. Foi um clube marcante para ti?

Na Naval foram três anos muito bons. É um clube muito especial para mim e é com muita pena que vejo a actual situação difícil pela qual passa o clube. Infelizmente os salários em atraso já são algo normal no nosso País. Espero que isso mude no futuro.

Lembras-te do primeiro jogo na primeira liga?

Lembro-me muito bem. Foi em Guimarães, com o «mister» Cajuda, e ganhámos por 2-0 [ndr. China acabou expulso e a Naval terminou com oito elementos mas conseguiu segurar a vantagem proporcionada pelos golos de Bruno Fogaça e Lito] causando uma enorme surpresa. Esse foi um dos momentos mais felizes da minha vida pois foi o cumprir de um sonho pelo qual lutei imenso.

Depois da Naval, seguiu-se o Belenenses, clube no qual estiveste apenas meio ano. Que balanço fazes dessa passagem pelo Restelo?

Depois de três anos na Naval o contrato terminou e fiquei um jogador livre. Tive outras propostas, tanto para clubes portugueses como para o estrangeiro, mas acabei por escolher o Belenenses pela grande vontade e persistência que mostraram em contratar-me. Tenho orgulho em ter passado por um clube grande e histórico como o Belenenses, que conta com adeptos únicos e que felizmente está de regresso ao lugar que merece. Aproveito para dar os parabéns ao clube, merece estar na Primeira Liga e faz falta junto dos grandes.

AVENTURA NA UCRÂNIA

Em 2008 aparece o Metallurg Donetsk. Como surgiu esta possibilidade?

Acabei por ficar apenas seis meses no Belenenses porque surgiu a proposta do Metallurg, que não poderia rejeitar. Foi uma proposta muito boa para mim mas também para o Belenenses que estava a atravessar graves dificuldades financeiras.

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China no seu actual clube, os ucranianos do Metallurg Donetsk

E que balanço fazes destes cinco anos ao serviço do Metallurg?

O Metallurg Donetsk é um grande clube. Nestes cinco anos conseguimos chegar à Liga Europa por três ocasiões. Esta última temporada correu muito bem a nível colectivo, com nova chegada à Europa, mas foi a minha pior temporada a nível individual devido a uma lesão que me fez parar por seis meses. Não joguei nesta temporada mas tenho confiança que a próxima possa ser muito melhor.

E como foi a adaptação à Ucrânia?

No inicio foi uma adaptação muito difícil. O país, o clima, a língua… Mas agora já está tudo ultrapassado, sinto-me bem aqui e até já falo um pouco da língua.

Quando acaba o contrato?

Termino contrato em Junho 2013 mas ainda gostava de jogar mais dois anos no estrangeiro porque, infelizmente, a realidade do nosso pais não é convidativa a um possível regresso. Mas nunca se sabe o que vai acontecer amanhã…

Já pensaste no que farás depois de pendurares as chuteiras?

Ainda não pensei muito nisso. Como disse, quero continuar a jogar depois do contrato com o Metallurg expirar. Mas quando terminar a carreira gostava de ficar ligado ao desporto.

Que sonhos ficaram por cumprir?

Creio que ficaram sobretudo três sonhos por realizar. Primeiro, jogar num clube grande de Portugal. Depois, jogar na Liga dos Campeões. E, claro, jogar na Selecção Nacional.

ACTUALIDADE

Sei que torces pelo Sporting. Como viste a temporada do teu clube do coração, culminada com a pior classificação de sempre?

Admito que é estranho ver o Sporting nesta situação. Mas penso que foi apenas um ano atípico e que não voltará a acontecer.

Consideras que o FC Porto foi a melhor equipa do campeonato e por isso um justo campeão?

Um campeão é sempre justo. Porém, se me perguntares qual foi a melhor equipa e a que praticou melhor futebol, respondo-te sem dúvidas que foi o Benfica.

A Selecção Nacional está a enfrentar dificuldades no apuramento para o Mundial. Achas que vamos estar no Brasil em 2014?

A verdade é que a nossa Selecção já nos habituou a sofrer nas fases de qualificação. Mas acredito que vamos ao Mundial e que vamos fazer boa figura.

A posição de lateral esquerdo está bem preenchida na selecção?

Sem dúvida. Temos o Fábio Coentrão que é o melhor lateral esquerdo da actualidade.

E qual o teu grande ídolo?

O meu grande ídolo é Deus, sem dúvida.

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A equipa do «Palavras ao Poste» agradece ao João China a sua disponibilidade e prontidão ao aceitar o repto lançado pelo nosso projecto. Foi para nós um prazer e uma honra poder contar com o seu testemunho – a narrativa de uma carreira que se foi construindo com esforço, perseverança e claro, talento. Porque não só do mediatismo imediato vive o desporto português, que insiste em brilhar apenas na direcção de uma pequena minoria. Porque dar voz a quem bem representa o desporto, e, neste caso, o futebol, fora de portas, também merece espaço e atenção. Obrigado ao João China pela cooperação.

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joni_desenhoJoni Francisco

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