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No passado sábado disputou-se mais uma edição do Festival Eurovisão da Canção. A Dinamarca ganhou. Espanha e Irlanda dividiram entre si os dois últimos lugares da tabela. Portugal optou por não participar. Assim na Europa como na Eurovisão.

Portugal não foi capaz de compreender a importância do momento. Escusarmo-nos a participar na Eurovisão é empurrarmo-nos, com as costas da colher, mais para a borda do prato da Europa – não esquecer o esgar de nojo no rosto. Porque antes de ser efectivo, tudo é simbólico. E tudo aquilo que é simbólico é eminentemente performativo.

Daqui em diante, assim na Eurovisão como na Europa: assim como na Comissão Europeia, também na Eurovisão há um grupo de países – aqui conhecidos por Big Five – que dominam o festival pelo facto de o financiarem com as somas mais avultadas, e que têm, assim, a sua presença sempre assegurada na final, escusando-se a lutar nas semi-finais com o resto da maralha. Assim como na Europa, também na Eurovisão os países nórdicos são uma elite, votando uns nos outros e não dispersando muito os seus votos fora da região. Assim como na Europa, os países do Leste andam sempre em bloco – soviético – evitando sair do clã que se vai escorando por detrás de uma barreira de ferro que impede o estilhaçar dos votos e que os mantém de braço dado, com mais ou menos turras. Assim como na Europa, na Eurovisão os países do sul, e mais um par de periféricos, parecem ser verdadeiramente os únicos em competição, os únicos que devem realmente lutar e, mais frequentemente do que não, encolher os ombros e partilhar entre si os últimos lugares da tabela, porque há menos vizinhos para neles votarem e talvez sobretudo porque, enfim, são pouco produtivos e há ali um je ne sais quoi que os mercados — perdão, os espectadores — não compreendem e, em concordância e a preceito, desconfiam.

Portugal não se tem revelado capaz de compreender a Eurovisão. Um pouco à imagem da populista medida de acabar com os feriados – populista apenas para a parte tola da população; medida revestida da tola lógica que nos diagnostica um problema de produtividade passível de resolução por alguma engenharia de excel, somando um par de dias ao ano para que os salários por eles divididos pareçam comprar um pouco mais de actividade −, a decisão de não participar na Eurovisão é terrorismo reputacional e de notoriedade. A Eurovisão é celebração e reunião dos países que connosco partilham um recanto do mundo, e é talvez o momento publicitário mais importante de que estes países gozam, com a certeza de chegar a milhões de lares por todo o continente, com a garantia de porem um número pouco razoável de países a falarem dos seus países, mostrando as suas paisagens e principais atracções. Pode a música perder o concurso, mas o turismo ganha  hipótese de ouro.

Porque o festival da Eurovisão é isso mesmo: um festival publicitário-propagandístico, um momento político, e Portugal não o soube aproveitar, em nome de uns milhares de euros que, sejam eles quantos forem, nada têm a ver com a situação actual do país nem, coitados, têm poder de lhe causar mossa.

Em todo o caso, se tivéssemos ido, o mais provável seria, talvez, termos caído numa tristonhice compatível com o momento. Ao contrário dos gregos, que apresentaram uma rockalhada intitulada “O Álcool é grátis”, com a tradicional baglama, instrumento grego comum e historicamente associado aos prisioneiros – brilhante jogada grega em função do sequestro financeiro, social e político que envolve a República Helénica. A única vez em que o tentámos, com os Homens da Luta, em 2011, falhámos num ponto: cantámos em português uma música cuja mensagem queríamos entendida e partilhada pela grande maioria da Europa já em crise. Os gregos foram mais espertos: não renunciando ao grego, deixaram o refrão em inglês, e obtiveram o sexto lugar na competição.

Repito: Escusarmo-nos a participar na Eurovisão é empurrarmo-nos, com as costas da colher, mais para a borda do prato da Europa. Precisa o leitor de provas? Como não participámos, não pudemos também votar. Sabe a organização que teríamos dado a vitória aos nossos irmãos gregos, ou espanhóis, italianos ou irlandeses. Afinal, se já nem na Eurovisão temos voto, em que é que esperamos ter uma palavra a dizer na Europa? Em que é que não estar a concorrer nos impede de dar o nosso voto? Vê o leitor: esta é apenas mais uma forma de nos dizerem não, vocês já não fazem bem parte disto.

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Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

(imagem no topo: Pat Campbell in Canberra Times, 27 de Maio de 2012)

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