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A Natureza privada do lucro e o lucro privado da Natureza. É este o palíndromo bíblico que assomou de febre a oratória do mundo. O capitalismo às carrancholas – nas costas do contribuinte pendido – vai pregando as suas virtudes enquanto, de joelhos, o povo roça desavergonhadamente pelo chão da promessa a pagar. Porque no léxico de quem só quer colectar, dos outros não se espera menos que o mínimo devido: e o mínimo a fazer é pagar. «Pagar» era um verbo. Hoje, é muito mais. «Pagar» era um acto justificado pela prestação de um serviço. Hoje, é muito mais. «Pagar» tinha um fim, e além desse, outro fim em si mesmo: pagávamos para usufruir, pagávamos e ponto final. Hoje não. Hoje «pagar» é um acto compulsivo civilizacional. Terá, inextricavelmente, de assim ser?

O contribuinte comum – aquele que «aguenta, aguenta…» – paga por tudo, a bem ou a mal, de bom grado ou de nariz torcido, de braço estendido ou terminantemente contrariado. Começamos por qualquer bem: cada produto tem um preço, mais outro, complemento para o Estado. Certo. A propriedade intelectual também tem um preço: até ser paga a patente, pode ser de qualquer um. Certo. As estradas têm um preço: o contribuinte contribui, certíssimo. As estradas, por sua vez, têm portagens: o contribuinte, para não se vedar a percorrer o seu próprio país de lés a lés, paga. Para se deslocar na cidade, há que pagar o inapelável bilhete, chorudo, pois os «Swaps» apertam e as arriscadas empresas públicas de transportes não são de ferro em frente à roleta do prejuízo. Mais que certo, uma inevitabilidade quase mortificante. No médico, a história não difere, aliás, só ganha laivos de tortura: ficar doente hoje, é para quem se salvaguardou, poupando escrupulosamente para quando lhe desse uma súbita vontade de ter um ataque cardíaco: «Querida, andei a poupar desde há uns anos para cá, e acho que está na hora de tirar uns dias de férias para ter um AVC». Certo. Porque desde a consulta paga, aos exames pagos, passando pelos remédios pagos e acabando na operação paga, é preciso começar a planear com antecedência o rodízio infindável de pagamentos. Homem prevenido poupa para adoecer, os outros, coitados, que se remetam à sua sanidade e pressão arterial invejável.

O «pagar» não tem fim, e de tanto pagarmos, perdemos-lhe o fio à meada: perdemos o fim ao fim que damos ao dinheiro. Pagamos o carro, mas falta o selo. E o seguro, que é obrigatório mas que de «seguro» tem só o antónimo. Pagamos a chamada telefónica, pagamos cada mensagem escrita, nem que ela seja endossada num pálido nada, por escrever. Pagamos a viagem de avião, mas antes pagamos o passaporte. Pagamos a nossa própria identificação, cada papel e papelinho, cada burocrático pedaço de justificação, de pedido, de exigência, de confirmação. Pagamos a casa, mas não chega: é-nos exigido o pagamento do Imposto Municipal sobre Imóveis. Nas empresas – naquelas que não podem fixar a sua sede fiscal na Holanda – o acto de «pagar» também é um mandamento fatídico: toda a facturação tem o dízimo reservado ao Estado, inclusive sobre rendimentos que a própria empresa ainda não recebeu: a virtude de quem pede aquilo que o outro ainda não recebeu doutrem é digna de quem pede e a mais não é obrigado. Porque quem pede pode tudo, e quem dá a menos não é ordenado.

Os juros são outra obrigação curiosa: acabamos por pagar duas ou três vezes o valor do bem que de facto adquirimos. Há muita gente que acabou por comprar, depois de vinte ou trinta anos de compulsivos pagamentos, três moradias, embora tenha acabado a morar na rua – o capitalismo tem as suas ironias do destino. Se a isto juntarmos os escândalos internacionais de manipulação dessas mesmas taxas de juro, como a Libor (London Interbank Offered Rate) em 2012, a ironia não tem preço. Ou melhor, tem, mas é incalculável. Tal como o paradoxo das nossas vidas enquanto contribuintes, que se resume a isto: temos, durante a vida, uma quantia astronómica a pagar. Não lhe saberemos a exactidão, mas sabemos que, provavelmente, é mais que aquilo que poderíamos calcular. Neste mundo nosso conhecido, já se nasce a dever, como uma trágica mancha inexpiável que carregamos connosco mal somos paridos. Os países endividam-se, as empresas endividam-se, as famílias endividam-se, o indivíduo endivida-se. Está tudo inquinado à partida, de pernas para o ar mal se é parido porta fora neste mundo endividado, de crédito malparado. Nascemos para pagar a dívida que contraímos sem nunca sermos, nascemos para pagar o juro jurado por outros e que nos cai no colo qual herança genética de um sistema capitalista que deve mais do que o que gera. No fim resta o indivíduo, individualizado na indivisibilidade da sua dívida. Porque mesmo que a divida, em suaves prestações, só torna em eufemismo a verdade: a dívida é um gigante pedregulho a ser empurrado, eternamente, ladeira acima, para depois rolar de novo abaixo, como com o  Sísifo da Modernidade: o indivíduo endividado.

No mundo do pagamento, já nem a Natureza escapa à privatização da sua própria índole. O capitalismo, mesmo doente, esboroado, decadente e sifilítico, continua desprovido e sedento. Continua anafado e exigente, alucinado e a monte: a monte de um total desfaçamento vergonhoso. Como demonstram as palavras do Presidente da Nestlé, que é declaradamente contra o direito público que as pessoas têm em usufruir do recurso mais essencial no planeta: a água. Nas suas próprias maliciosas palavras, vomitadas com a classe executiva que um fato e uma gravata tentam impingir, Peter Brabeck-Letmathe acha que esse direito é «uma visão extremista» da Natureza e do modo como a encaramos. Já o modo que ele defende – tão convenientemente – de ver a questão, é bem menos extremista e bem mais plausível: a água é um alimento e como todos os alimentos «tem de possuir um valor de mercado». De facto, a loucura capitalista não deve nem pode parar, o seu canibalismo irreflexo não é o sintoma, mas sim a doença em si. O próximo passo é tornar a Natureza uma assalariada do lucro. Privatizar tudo, até a água do planeta, que deve, não pertencer a todos, mas ser propriedade de uma grande multinacional, que regulará os preços a bel-prazer, tendo a posse, por direito, ao bem intrínseco e fundamental à vida, que sempre foi de todos os habitantes da Terra por inerência natural.

Os limites esgotaram-se faz tempo, mas entre pagamentos infindáveis, não sabemos mais o que é certo ou errado pagar, o que é justo e devido ou o que é abusivo e enganoso. Rapidamente se paga tudo, por tudo, vezes sem conta. O certo é que no fim, a conta aparece. A conta, a dívida, o juro, a taxa, o imposto, a cobrança, a obrigação. Pagamos tanto que invertemos o processo motivacional de existir: existimos para pagar coisas, não existimos por existir, simplesmente. E depois de nos perdemos aí, enquanto gente, vamos ser privados da Natureza por força do lucro privado. Existir para pagar e pagar para existir – prefiro enlouquecer e ficar a dever.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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