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António-SalvadorHá cerca de onze anos, o Sporting de Braga terminou a Liga Portuguesa no 14.º lugar da tabela, apenas 2 pontos acima dos lugares de despromoção. Logo no ano seguinte, já com António Salvador na liderança, o clube minhoto saltou para os primeiros lugares do campeonato, fechando a temporada num sensacional, à época, 5.º lugar.

De lá para cá, foi o que se viu. Quatro vezes quarto, uma vez terceiro e outra vice-campeão, para além de nunca ter ficado fora das competições europeias, à excepção da época de  2007/2008, onde terminou em 7.º. Algo inédito, nos tempos mais recentes.

O Braga foi-se habituando a ganhar e a fazer frente aos três grandes, a enfrentá-los e até a batê-los. Decidiu títulos, porque não dizê-lo, e chegou a uma final europeia, um marco para a história. Atingiu o impensável, a Liga dos Campeões, e gostou tanto que agora não quer de lá sair.

Com Domingos Paciência, que no ano anterior tinha falhado o acesso à Liga Europa, os bracarenses entraram tímidos e acanhados, mas foi só ouvir a música dos milhões que parecia que lá tinham estado a vida toda. Perdida a timidez, os “guerreiros do Minho” soltaram-se e fizeram como se estivessem em casa, passando rapidamente para um estado de excessiva descompressão que os fez acreditar estarem num palco que desde sempre lhes tinha pertencido.

Deslumbrada com os estádios cheios e os jogos de grande cartaz, agora reais e não na Playstation, a equipa do Braga foi queimando etapas do seu crescimento e atingiu demasiado cedo um estatuto que nunca chegou a ser sustentado com vitórias.  Vitórias daquelas verdadeiras, daquelas que contam, daquelas que vêm nos livros, e não nos rodapés dos jornais.

Esta época, porém, a história até contrariou a tendência dos últimos anos, ditos vencedores. Houve direito à Taça da Liga, conquistada ainda para mais ao Fc Porto, e o segundo título da história dos bracarenses chegou numa altura em que já ninguém esperava. Com  um ano futebolístico já dado como perdido.

Apesar da contestação em torno de José Peseiro, a verdade é que  o treinador natural de Coruche consegue um quarto lugar na classificação, um título (o primeiro da era Salvador, como o próprio já se encarregou de recordar) e quebra o recorde do clube de golos marcados numa temporada (60). Mais que o quinto lugar e os 50 pontos de Jorge Jesus em 2007/2008, por exemplo.

É verdade que estes 60 golos, não muito diferentes dos 66 de 2004/2005 do seu Sporting, assim como as 16 vitórias deste ano, não muito diferentes das 18 de há oito anos, ou ainda as derrotas -10 em Braga, 9 em Alvalade (impressionantes estes trajectos praticamente iguais)-, não apagam o falhanço da Liga dos Campeões e a sua perda para uma equipa como o Paços de Ferreira.

Mas ajudam a levantar uma ou mais questões: até que ponto a presente temporada, e a prestação de José Peseiro, podem ser catalogadas de fracasso? Até que ponto o clube minhoto tem legitimidade para reenvindicar o estatuto de quarto grande (e até terceiro) do país? Como pode um clube com um budget tão reduzido estar consecutivamente na Liga dos Campeões? É possível?

Claro que sim, os últimos anos assim o têm demonstrado. No futebol como na vida, a criatividade e a competência são o melhor remédio para as carteiras vazias. António Salvador, aliás, tem sido o melhor prescritor de uma receita que é cada vez mais passada em Portugal.

Mas o comprar barato e vender caro é mais fácil de pronunciar do que aplicar. Ir às compras com poucos euros pressupõe um intenso trabalho de observação do mercado e um planeamento estratégico que assegure uma taxa de erro reduzida. E nem sempre se acerta.

Com um orçamento inferior aos 17 milhões de euros desta temporada, António Salvador terá de errar menos e repensar os objectivos para o clube. É indesmentível o seu papel no processo de afirmação do Sporting de Braga no futebol português e europeu, assim como na consolidação das contas e aumento das receitas e  sócios do clube. Tudo isso é verdade.  Mas todos estes números acabam por esbarrar na história e nas estantes do clube, ainda vazias de títulos e recordes de relevo.

Outra quota de responsabilidade terá também de ser atribuída à imprensa portuguesa, sempre pronta a inventar o “próximo” quarto grande do nosso futebol. E por entre invenções e histórias da carochina, há um clube ali bem perto que vai caminhando firme, apesar da turbulência. O Vitória cai e volta a cair, mas não cede.

Em Guimarães há uma fervorosa massa adepta que não abandona o clube. E que não o troca por outro. Na hora da derrota ou da vitória, na primeira ou na segunda divisão, o apoio é sempre incondicional e não faz depender do sucesso a sua ligação ao clube e a sua força no panorama nacional. Esta necessidade de afirmação bracarense, também nos adeptos, precisa antes de mais de ser fundamentada. De ser estruturada a partir do sucesso mas também do fracasso.

Se o objectivo estabelecido no início da época era mesmo o apuramento para a Liga dos Campeões, então há que assumir esse falhanço. Mas será efectivamente uma época tão assombrosa como o próprio Salvador quererá fazer parecer? Com Peseiro já crucificado e na linha de saída, resta saber se o dirigente minhoto conseguirá ser capaz de aproveitar esta oportunidade para redefinir o significado do verbo vencer no Estádio AXA.

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???????????????????????????????André Cunha Oliveira

 

One thought on “Braga: o significado do verbo vencer

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