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Deparei-me, madrugada adentro, com a seguinte parangona kafkiana: «Metro perde dois milhões de passageiros por mês». Não pude acreditar. Desde que o Metro se mede aos palmos, ou seja, desde que a sobreposição de crises acicata a dívida do Estado, que me lembro do Metro perder passageiros, assim: ao desbarato. Um desbarato dispendioso, de facto, um carrossel nada barato – o preço dos bilhetes tem subido, metro após metro, até ser quase impagável andar de Metro. Ida e volta e fico logo com tonturas: são muitos metros acima da minha rente carteira. Começa a ser intrincado e penoso para o português mover-se nas duas grandes cidades: provavelmente é esse o tipo de mobilidade que o Governo quer implementar, a mobilidade especial – acessível somente a algumas carteiras mais altivas, mais generosas, bem menos lisas. Todos os outros, rasteiros assalariados ou pobres desempregados – que se esquecem de pedir dinheiro aos pais para entrarem no ramo das t-shirts e competirem taco-a-taco com o monopólio cigano – não estão à altura do Metro. Não tive a oportunidade de ver a cotação do Metro na bolsa, mas certamente que já ultrapassou metro e meio, ou dois, talvez tenha chegado aos três. Uma coisa eu sei com certeza: andar por aí não é para qualquer freguês.

MetroLisboa_Thecityfix_onlineMas não pude, nem por um segundo, desviar-me daquele título gordo e impactante: «Metro perde dois milhões de passageiros…» – É um ultraje. Temo que Portugal fique sem um único habitante, temo sinceramente. Ora, se o Metro perde à ordem de dois milhões de passageiros por mês, fazendo as contas a 2013, Portugal ficará sem pessoas por volta do fim de Maio: dez milhões de passageiros desaparecidos, sabe-se lá onde, sentenciados ao deus-dará, condenados à sorte incerta, pontapeados no real traseiro rumo à paragem deserta. Consigo pincelar, na tela da imaginação, como será um país desses, votado à circulação assombrada: uma terra de ninguém, caminhada sorumbaticamente por fantasmas que entram e saem do Metro num vaivém morrediço com destino inconcepto e há muito extinto – qual Marquês, quais Restauradores, qual Oriente, qual Senhor Roubado. Próxima paragem: Senhor Parado. Senhor Imóvel. Mas por um segundo, tudo faz, pelo menos, sentido cronológico: depois de Senhor Roubado, Senhor Parado, que é o mesmo que dizer «depois de casa assaltada, trancas à porta». Nós fomos Senhores Roubados, agora resta sermos Parados. De facto, depois de ter intentado a minha última viagem de Metro – ida e volta, acompanhadas de uma ligeira e ubíqua tontura… – jurei a mim mesmo nunca mais sair de casa. Desde aí tenho estado Parado, o que, surpreendentemente, não aliviou os sintomas de ter sido tão-Senhor Roubado. Vá-se lá perceber estes anacronismos.

metro-lisboa1_4É, sem dúvida, uma realidade atroz, enquadrada numa espécie de filme terrorífico onde os passageiros desaparecem aos milhões, até exaurirem as ruas da cidade, do país, de toda a comunidade. O malévolo Metro, qual abdutor mágico da Quinta Dimensão, faz do sumiço colectivo a sua preferida profissão. Basta abrir os jornais e ler – por mês, são aos milhões. São milhões de almas descaminhadas e milhões de euros de prejuízo. Não há metro que possa medir tão incomensurável vazio: é como esticar uma fita métrica para tirar o diâmetro ao espaço sideral. O país afunda-se num marasmo inerte, cada vez mais pobretanas, cada vez mais pedinte, um passo mais perto de passo nenhum, aproximando-se, a uma velocidade vertiginosa, de nunca sequer ter chegado a sair do lugar. Portugal vai-se tornando num deserto de gente. Numa terra de pântanos pouco movediços, onde a mobilidade deixou de estar ao alcance de todos – este colete-de-forças tem um Metro. Ou dois, talvez três.

Para onde irão os misteriosos passageiros desaparecidos? Para onde verterão os prejuízos milionários que, ano após ano, vão decrepitando o Metro, empresa pública que não goza sequer de concorrência ou competidor directo? No monopólio das medições, o Metro tem-se gerido aos palmos, do exacto modo a partir do qual não se devem medir os homens. Ou as mulheres. Perdem-se passageiros ao desbarato porque se desbaratou a exacta medida das coisas, no carrossel desgovernado dos «Swaps» e das gestões a metro quadrado, obrigando agora os preços a dispararem. Diria que a ficção da minha imaginação não fica muito distante da realidade fantasmagórica de um país que, além de social e culturalmente estagnado, se torna, aos poucos, raptado dos seus próprios tripulantes. Refém da sua inaptidão governativa, à mercê da paragem vacilante, pé ante pé, metro após metro, sem nunca se mover um Metro que seja. A parangona kafkiana ecoou noite dentro: neste fim de Maio, pelo menos na minha cabeça, Portugal subtrair-se-á à população zero. Mais que não seja, à metáfora de tudo isso. Será o meu filme de terror e suspense: «E tudo o Metro levou». A cena final terá um plano inclinado, onde um padre exorcista gritará, empunhando uma cruz: «Vai de Metro Satanás!».

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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