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Dizem que é uma das piores, senão mesmo a pior, linhas de comboio do país. Chovem, ou choviam, notícias de assaltos violentos, roubos, violência contra passageiros e maquinistas, e o mais variado tipo de distúrbios. A mim nunca me aconteceu nada. Enquanto o país se escandaliza e se assusta com a violenta e temida “linha de Sintra”, eu divirto-me. Até ao dia.

Uma viagem de 30 ou 40 minutos, dependendo do destino, dá para muita coisa. Dá para dormir (não raras vezes), dá para comer, dá para ler, dá para adiantar ou terminar o trabalho que ficou por fazer, dá para ouvir música, dá para jogar psp, dá para pensar no que se vai fazer o resto do dia…e dá para cortar as unhas.

221Há senhoras que não dispensam a oportunidade de o fazer. Para quê desperdiçar tempo em casa com esta tarefa, e deixar de fazer o que é realmente importante, se existe o comboio? Lógico. Às vezes as pessoas não pensam. Assim como uma viagem de trem é o local ideal para aparar as lâminas córneas dos dedos, há um outro sem número de situações propícias a actividades de limpeza ou gestão de todo o tipo de imundices e secreções que diariamente vão entupindo o nosso corpo. Como tirar macacos do nariz enquanto se conduz. É matemático, é adequado, é perfeito. Limpar o salão durante uma viagem de carro é quase como aquelas celebridades que apenas conseguem exponenciar a sua liberdade quando saem do seu próprio país ou dos terrenos por onde o seu mediatismo costuma pisar. Andamos kms e kms sem precisar de ter o capuz colocado e podemos ser porcos e fazer as javardices todas que  não se podem fazer em público. Seria muito azar apanhar um amigo na estrada…

a-importancia-do-fio-dental-para-seus-dentesAssim como há quem corte as unhas, também há quem aproveite para cumprir a rigor e preceito as regras e recomendações para uma boa higiene oral. É que de manhã saímos a correr e à noite estamos tão cansados que a escova quase que desliza por entre os dentes, como se lhes tivesse a fazer festinhas. Às vezes sai um elixir bocal e um bocadinho de flúor para sacar a bicharada toda, aquela que o deslizar da escova já não consegue apanhar. E é precisamente por isto que no outro dia, quando apanhei outra senhora a sacar de um fio dentário e a fazer ali mesmo, na carruagem, a limpeza à sua dentição, extraindo os resquícios do empadão da noite anterior (aqui entra já uma dose interessante de imaginação da minha parte), pensei para mim mesmo: “olha, boa ideia, sim senhor. Nunca tinha pensado nisso”.

Mas continuando esta linha de “gestão pública da higiene”, chamemos-lhe assim (o que só prova que os passageiros de transportes públicos em Portugal são limpinhos, e não deixam para amanhã o que podem fazer hoje), não se pense que o brio e a preocupação com o asseio é  coisa de mulheres. Se há coisa, e passo a redundância,  que o homem da linha de Sintra gosta de fazer, e que eu enquanto passageiro da CP posso comprovar, é vigiar o nível de cerume armazenado dentro dos ouvidos. O stock é para ser controlado até porque a mercadoria está sempre em andamento. A vistoria, essa, é feita invariavelmente com a ajuda do instrumento que quase parece ter sido inventado para esse efeito: as chaves do carro.

Numa viagem de comboio há muita coisa a acontecer, e às vezes a dificuldade é mesmo não perder o fio à meada, que de tão boa, e rica, merece ser contada. E por isso escrevo estas linhas.

Nem toda a gente tem uma Psvita, uma Nintendo Ds ou um GameBoy Pocket. E como o tempo tem que ser gasto com alguma coisa, o segredo é mesmo ser criativo. Por exemplo:  pessoas que gostam de passar as viagens a experimentar toques de telemóvel que de móvel pouco parecem ter e que por não serem smart são capaz de enlouquecer qualquer um. Sim, é verdade que os smartphones são mais caros, mas na verdade nem é preciso ser-se muito smart para ter um telemóvel moderno que consiga ter toques em formato mp3. Alguns deles custam € 20 e serão certamente menos irritantes que o Nokia 3310 e os seus ruidosos e estridentes toques polifónicos. Se toda a gente tivesse um telefone destes, a brincadeira de andar uma viagem inteira a testar os toques sair-me-ia menos cara. A mim e aos meus humildes tímpanos.

A malta mais jovem da linha de Sintra não gosta de experimentar toques de telemóveis. Isso é ridículo e não faz o mínimo sentido. Divertido é pôr em alta voz a playlist dos seus, agora sim, smartphones, e obrigar a carruagem inteira a ouvir e a gostar das songs que estes djs da noite vão passando. Foi pelo menos assim que um dia uma música de Buraka Som Sistema me soou a algo agradável e bonito de se ouvir.

Porque nem toda a gente é dada a jogos e música, e a toda esta agitação, há quem passe o tempo da viagem de forma mais relaxada e tranquila, acompanhando o passo cada vez mais vagaroso dos vagões da CP. A melhor forma? Lendo, lendo e lendo. E nem falo nos jornais e nas revistas bombásticas com títulos garrafais que fazem dores de cabeça. E muito menos nos best-sellers que às vezes parece que são distribuídos, qual flyer publicitário, nas entradas das estações. Uma viagem de 40 minutos a ler um catálogo do Mini Preço, garanto-vos, demora para aí metade do tempo. Quando menos damos conta já estamos no Rossio, prontos a desembarcar.

sapatos-em-pele-de-cobra-e-sola-de-couro-44-Seixal_434302100_2Outro passatempo pode ser também mirar os estilos, as indumentárias, só mesmo naquela. Para quem é vaidoso, então, isto funciona sempre. Não se pode dizer que a passarelle da linha de Sintra seja do mesmo estilo da do Chiado, por exemplo (só para vincar as diferenças). Mas isso nem vale a pena explorar muito, até porque seria abusivo. Seja como for, um dia hei-de ter um daqueles sapatos de pele de cobra e transportar aquele odor infalível a Hugo bOOs. Não falha.

Esta exagerada reverência à linha de Sintra não tem o mínimo cabimento nem sequer nos dias de greve, quando é suposto as pessoas assumirem o seu lado mais selvagem. As carruagens até podem ir empanturradas, é verdade – as célebres sardinhas em lata, ou antes latas com sardinhas-, mas o passageiro é por norma muito educado e até polido, de certa forma, no discurso utilizado. As senhoras de meia idade, sobretudo, gostam de intervir nestas situações, mostrando a sua indignação e desaprovação para com o comportamento alheio, com expressões como “sinceramente!”, “já não há educação” ou “as pessoas realmente…”.

Depois a linha de Sintra deve ser a única linha férrea do país a adoptar o “Tratado de Schengen”, com livre circulação de bens e mercadorias. E quando digo livre é mesmo livre, já que quem, por convicção ou motivos de outra natureza, estiver na disposição de comprar um passe social ou um bilhete de comboio, diferindo do diapasão, pode sempre fazê-lo sem ser discriminado ou repreendido. Ninguém o impede, nem seque os “senhores-picas”. Já quem se sentir confortável no seu papel de “passageiro sem título de transporte”, está à vontade. É certo que a CP perde anualmente um milhão de euros em receitas, mas este deverá mesmo ser o preço a pagar pela liberdade.

E pelo menos enquanto houver liberdade, haverá passageiros a circular nos comboios e a dar-lhes vida, todos os dias, e das mais variadas formas. Já que o dinheiro, esse, nem vê-lo.

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???????????????????????????????André Cunha Oliveira

 

 

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