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menina-chorando 2Hoje é Dia da Criança. Os jardins de todo o país ganham nova cor com a contagiante alegria dos mais pequenos, os eventos comemorativos multiplicam-se por cada teatro, as lojas dos centros comerciais enchem-se de consumidores de bolsos vazios esfomeados por comprar nem que seja um chupa-chupa para o filho ou para o neto. Hoje é Dia da Criança, as televisões passam reportagens contrafeitas sobre a felicidade de ser menino, sobre o talento daqueles que são o futuro deste país. Juventude é esperança, esperança é crença, e a crença tem que ser racional. Fará sentido acreditar num futuro já hipotecado?

Hoje é Dia da Criança, mas poderia não ser. 1950 foi o ano em que este dia começou a ser celebrado um pouco por todo o mundo, com o reconhecimento oficioso dos direitos fundamentais das crianças por parte dos estados membros da Nações Unidas. O processo para além de tardio demorou uma eternidade a ser consumado e só a 20 Novembro de 1959 é que a Declaração Universal dos Direitos da Criança é aprovada por unanimidade pela Assembleia Geral da ONU. Daí em diante desenvolveu-se um difícil e penoso período de mudança de mentalidades nos países desenvolvidos, que passo a passo foi atribuindo socialmente aos mais pequenos as condições de existência que o seu estatuto justifica e merece. Chegados ao séc. XXI, o panorama espelhava melhorias significativas, com reduções drásticas dos índices de mortalidade e trabalho infantis, de violência doméstica para com os jovens e de analfabetismo entre os mais novos. Até que, a certa altura, chegou a tão falada “crise” e tudo entrou numa espiral recessiva. O problema criado pelos adultos reflectiu-se naqueles que menos culpa têm, e hoje numa visita a uma qualquer escola do nosso país facilmente se encontram episódios de meninos com fome. O Dia da Criança devia ser todos os dias, mas não o é. E o 01 de Junho não é excepção.

Hoje é Dia da Criança, mas a hipocrisia dos adultos não tira folga e marca presença a cada esquina. Ela insiste em aparecer representada na personagem de um Secretário de Estado da Educação que se passeia pelas comemorações deste dia, num primeiro-ministro que sorri perante as acusações de corrupção que lhe são dirigidas e foge com um amuo de bebé às perguntas mais incómodas, na triste figura protagonizada por uma comunicação social que insiste em transmitir uma imagem colorida de uma data que se torna mais negra a cada ano que passa. Isto tem piada, faz bem ao espirito presenciar este tipo de teatros, mas ultrapassada a euforia o fim do mês acaba sempre por chegar e para muitos a dispensa lá de casa já está há muito vazia. Hoje é Dia da Criança, mas haverá motivos para festejar?

O São Pedro até prometeu ajudar, o calor voltou e o sol brilha por todo o país. Os céus estão connosco, é boa altura para colar um sorriso plastificado na cara, esquecer os problemas que nos estrangulam, e sair à rua com as pequenas pestes que vão alegrando as nossas vidas. Eles merecem, e tão bom que é não terem a plena noção da realidade e daquilo que os espera. Ou talvez alguns já a tenham, por força das circunstâncias que o destino lhes reservou, o mesmo que carrega consigo uma enorme quantidade de miséria e desgraça que estão ainda por chegar para muitos mais. Dizem-nos para viver um dia de cada vez, e assim o faremos. Hoje é Dia da Criança. E amanhã, o que será?

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Diogo Taborda desenhoDiogo Taborda

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