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Há, por estes dias, um sismo que assola a Turquia.
O epicentro deu-se à superfície, no parque Taksim Gezi, famoso local da cidade de Istambul, mas como acontece frequentemente em sismologia, as ondas-de-choque e as réplicas estendem as repercussões do abalo a pontos que inicialmente seria difícil prever.

Polícia dispersa manifestantes com gás lacrimogéneo (Omar Orsal - Reuters)

Polícia dispersa manifestantes com gás lacrimogéneo, no Gezi Park, Istambul (Omar Orsal – Reuters)

Os governos de pendor totalitário, declarado ou submerso na subcutaneidade dos seus líderes, têm apenas uma vantagem: dão rosto capaz de servir de alvo e tornam o combate visivelmente necessário, de barricadas e frentes e linhas muito bem definidas. Sintomaticamente, são também desastrados com as palavras, e a incapacidade de reconhecer o poder veiculado num punhado de letras é o que torna miserável a existência a muita gente. Erdogan, primeiro-ministro turco, afirmou que “não existirá uma Primavera turca”, e nessas cinco palavras tornou óbvia não só a necessidade de um tal movimento de libertação como selou o seu destino. Erdogan terá de abandonar o governo. Restará saber quando e, sobretudo, como. Por outras palavras, restará saber se a Turquia será a próxima Síria ou não.

Erdogan, porém, poderá ter um azar que Bashar al-Assad não enfrentou. É que a Turquia tem parte do seu território, e a sua cidade mais importante, na Europa — razão, aliás, que legitima a pretensão turca de integrar a União; pretensão essa que é uma das bandeiras do próprio Erdogan –, o que poderá encostar o actual governo turco às cordas, obrigando-o a aliviar a brutalidade policial — como, de resto, o presidente turco, Abdullah Gül, já pediu à polícia –, a levantar a censura sobre os meios de comunicação, libertar o acesso à internet, e não ameaçando as mais básicas liberdades individuais, como o acesso a cuidados médicos.

Sangue nas ruas de Istambul. (autor desconhecido)

Sangue nas ruas de Istambul. (autor desconhecido)

Assim seria, pelo menos, na Europa em que acredito, na Europa em que desejo viver. Perante a Turquia, porém, a Europa tem-se revelado coerente na desarticulação das suas acções e, da mesma forma como ficou a meio caminho perante os propósitos da sua génese, a União — hoje, mutante hidra governativa — perde-se na assepticidade de todas as suas intervenções politicamente correctas. Mas é preciso que nós, seus cidadãos, a questionemos. Apelar à calma quando contingentes policiais têm ordem para dispersar manifestantes pacíficos pela força do medo, com canhões-de-água, gás pimenta e lacrimogéneo? Apelar ao diálogo quando há cidadãos a serem espezinhados por tanques, quando a polícia faz mortos entre cidadãos que jurou proteger, ou quando há manifestantes a cegar pela desajustada acção das forças que deveriam ser de segurança? Apelar à contenção quando a liberdade de imprensa e de associação são suspensas? Não terás de ti vergonha, Europa, quando perante os mais vis ataques àquilo que és e em que acreditas apenas tens a coragem de recomendar mais diálogo? Acaso te tornaste tão estéril que não te resta senão recomendar a calma?

Manifestante resiste de braços abertos a um canhã-de-água da polícia, em Istambul. (AFP)

Estamos de acordo que as boas associações de Homens devem ter por base o diálogo, e que será sempre mais benéfico o resultado de um acordo do que o produto de uma obrigação. É, porém, muito necessário que se saiba quando engavetar as palavras e afiar os punhos. Pois se esgrimir com palavras é prova de mais elevada cultura e soberania intelectual, é preciso que a inteligência seja em dose suficiente para não se deixar vencer pela não-inteligência. O radicalismo das palavras, afinal, pode provar-se tão nocivo quanto o das armas, se ele esvaziar de poder e sentar no lugar do morto quem o advoga. Sobretudo, é preciso que quem tem razão não a perca por opção. Afinal, nunca alinhei com a ideia de que é possível perder a razão pela forma como se (re)age.

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Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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