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portugal 2O Estádio da Luz acolheu ontem o jogo entre Portugal e Rússia, referente à qualificação para o Mundial de 2014 que decorrerá no Brasil. Confesso que só na manhã do próprio dia me apercebi que tal acontecimento iria suceder quando liguei a televisão e todos os canais já se ocupavam em fazer as mais bizarras projecções, como sendo a emenda de pequeno-almoço dos jogadores. “Decerto algo ligeiro e nutritivo”, dizia o repórter, e ligeira foi também a minha paciência para aturar a ignorância que por aquele ecrã me estava a ser injectada naquela matutina hora; desliguei o arcaico aparelho de marca Sony e percebi que em vésperas de dia de Santo António os verdadeiros santos da nossa nação se iam reunir numa partida de futebol, perante uma assembleia de mais de 50 mil fiéis. E que linda celebração foi aquela.     

O jogo não podia ter começado melhor. Um golo de Postiga a meias com o defesa russo e com o poste conferiu a vantagem no marcador para Portugal, resultado que quase por milagre se manteve intacto até ao final do encontro. Nas habituais entrevistas posteriores, ouviu-se dizer que o resultado foi justo e que a vitória é a demonstração do trabalho e da união daquela selecção. Pena é que o discurso não tenha sido o mesmo depois dos empates frente a Israel em Tel Aviv e diante da Irlânda do Norte em pleno Estádio do Dragão. E se olharmos para esses dois jogos em comparação com este último verificamos que as diferenças não são muitas; talvez tenha sido mesmo o Santo António a proteger estes bonitos santos cá de baixo, evitando que estes fossem retirados do altar e julgados perante o impiedoso tribunal da inquisição futeboleira.  

Na verdade, a história que tem pautado toda esta fase de qualificação repetiu-se mais uma vez frente à Rússia. Uma selecção nacional amorfa, desmotivada, sem capacidade de construção de jogo, pouco pressionante, vacilante na defesa e reticente no ataque, sem vontade de partir para cima em busca da vitória, quase inofensiva. Uma “selecção” que mais parece um clube particular, onde os jogadores disponíveis se restringem àqueles que constituem o plantel e jamais podem ser trocados por outros. E talvez seja a existência deste intransigível “núcleo duro” tão falado por Paulo Bento a grande causadora da atitude passiva demonstrada em campo, já que transparece a ideia de que aconteça o que acontecer, jogando bem ou mal e com regularidade ou sem ela nos respectivos clubes, estes craques serão sempre os eleitos para o próximo jogo de Portugal. E eles sabem-no melhor que ninguém.

Mas o que vale é que para bem de alguns, tendencialmente sempre os mesmos, a crise económica vivida no nosso país também tem uma face positiva. As dificuldades do dia-a-dia e o ódio sentido pela classe política despertam na população um sentimento de nacionalismo muito mais ausente em tempos de prosperidade. Por ignorância ou falta de melhor alternativa, e já depois do Fado e de Fátima terem passado para segundo plano, este simbólico patriotismo colectivo manifesta-se no único dos três F’s que ainda consegue promover de alguma forma a união social: o Futebol. Isto acontece em todos os jogos da selecção nacional, em qualquer que seja a parte do mundo e mesmo que os profissionais que vestem a camisola das quinas não mereçam tamanha demonstração de apoio, porque no final das contas para nós eles já não são meros jogadores da bola, mas sim os símbolos da esperança portuguesa e as únicas figuras capazes de nos dar alegrias enquanto membros deste país. São eles os novos santos populares da nossa nação.   

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Diogo Taborda desenhoDiogo Taborda

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One thought on “Os santos populares da nossa nação

  1. Parabéns pelo artigo!

    Gostei imenso!

    Abordas dois temas que acho que fazem todo o sentido:
    1 – O “núcleo duro”: neste momento não entendo como o Bruno Alves e sobretudo, o Raul Meireles têm lugar cativo na selecção nacional.

    Sei que um “núcleo duro” é importante até para manter o nível. O problema é quando esse núcleo não tem nível para isso. E esse parece-me o caso.

    2 – O patriotismo exibido através do futebol é algo bonito de se ver, mas inconsequente. De que vale nós fazermos juras à pátria e beijarmos a bandeira e o símbolo das quinas em pleno estádio, se depois no dia-a-dia, andamos todos a tentar roubar uns e outros? De que vale todas essas juras se constantemente nomeamos ladrões e palhaços para nos representarem. Representantes esses que em vez de fomentarem desenvolvimento e crescimento, semeiam mediocridade e corrupção no país?!

    Eu gostava era que o país visse o futebol como os alemães vêm-no: um espelho do que a sua sociedade é. E, não um “wishfull thinking” do que gostaríamos que fosse!

    Na Alemanha o futebol é uma celebração merecida para o povo. Aqui em Portugal é uma festa de e para os bobos da corte.

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