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Sou uma entusiasta da obra de Hitchcock e, por muito que a vá progressivamente explorando, nenhum filme me provoca tanto fascínio como “A Corda”, filmado, teatralmente, em 1948. Muito deste fascínio se poderia dever aos pressupostos do realizador, tão original e pontualmente utilizados neste filme, contrariando a sua habitual visão sobre o cinema. Mas mais se deve à temática que encerra a história passada num apartamento de Manhattan, onde um homicídio premeditado serve de fio condutor à trama.

Brendon e Philip, as personagens de autoria do crime, partilham mais que uma amizade, num estado cúmplice de consciência de que figuram entre seres intelectualmente superiores, suportados pelas lições de um professor de filosofia, que lhes apresentou a teoria nietzschiana do Super-homem. Decidem, nessa base, matar um colega, que consideram socialmente inferior, de forma a experienciar o crime, que entendem como manifestação artística e um objecto de paixão.

A vítima, David, é morta em sua casa, pelo meio de estrangulamento com uma corda. A mesma corda que os homicidas utilizarão para atar um monte de livros, que oferecem a pai de David, quando, bizarramente, e após o homicídio, o convidam para jantar, com a sua esposa e futura nora, acompanhadas de um colega e do famoso professor vinculador de Nietzsche. O jantar será servido em cima de uma arca, que no seu interior contém o corpo quente do “inferior” David.

Será o professor Rupert Cadell, protagonizado por James Stewart, que acabará por perceber que o jantar será uma celebração macabra dos seus antigos alunos, que vão motivando um diálogo entre os convivas, baseado na divisão da raça humana, numa dicotomia entre os inferiores que são vítimas da arte criminosa e os superiores que se investem de direitos morais para a praticar.

Aconselhando vivamente a que assistiam a esta obra, que coloca teorias filosóficas de forma astuta e inteligente, confesso que o que me recordou recentemente “A Corda” foi o episódio vivido entre as instituições do Futebol Clube do Porto e do Sporting Clube de Portugal, quando os segundos decidiram comunicar o termo de relações com os primeiros. Não que me vá debater sobre qual o lado superior neste confronto, ou que sugira que alguém o resolva na base da corda, mas porque existe uma teoria nietzschiana por detrás da forma em como os azuis se têm servido dos verdes, num momento qualitativamente inferior da sua história.

É claro que em termos desportivos o clube do norte se eleva no pódio nacional, mas o que importa, aqui, é a forma como também se eleva em termos de negócio. Se entendermos o Clube como uma empresa, e a forma como esta tem sido gerida, com todas as manhas e artimanhas, em termos de negócios, é fácil perceber que o Porto reclama para si a qualidade da superioridade, na lógica nietzschiana. E o mais importante é que com esta qualidade passa a gozar do poder de extinguir os considerados inferiores.

E o Sporting tem sido um alvo inferior. O que a superioridade da formação de Moutinho fez revelar, a forma como o Porto encarou o negócio do “Judas” fez apagar. E as contratações de Izmaylov e Liedson vieram antecipar que “o poder de matar pode ser tão satisfatório como o de criar”, como refere Brandon, um dos homicidas em “A Corda”. Porque, levando a minha teoria ao extremo, o Porto entendeu que, tão importante como importar activos como Moutinho, é igualmente relevante impedir que os rivais acertem em contratações. Porque destruir não consiste apenas em roubar atletas, sob negócios duvidosos, mas também em abalar as instituições, para que estas enfraqueçam, minadas que estão no seu núcleo.

E enquanto os clubes do sul se entretinham em discutir incessantemente as suas rivalidades, o clube do norte envergou a capa do Super-Homem, na imagem de Jorge Nuno Pinto da Costa e da sua comitiva com poderes superiores, preparando-se para enforcar o Sporting e colocá-lo escondido na sua arca. Por cima desta, os poderosos festejam com banquetes os títulos que vão arrecadando.

ng2584969Se estou a ser extremista nas minhas afirmações, talvez seja a influência de Nietzsche sobre mim, mas a verdade é que o Porto detinha uma relação de vassalagem sobre o Sporting. A ajudar a encobrir o crime, estava o Benfica, que ajudava a entreter os adeptos leoninos, na sua aversão ao encarnado. O norte aplaudia e tinha um aliado fiel. Até que Bruno de Carvalho se cansou da tensão na corda, que o Porto ia esticando.

“Vem a direcção do Sporting comunicar que suspende todas as relações institucionais com o FC Porto até que fique claro o seu efectivo respeito pela nossa instituição e sua efectiva vontade de estabelecer relações normais e de respeito pela instituição Sporting”, entoava o comunicado leonino lançado há dias. Acrescentando que “ nunca seriam toleradas posições de subserviência relativamente a nada, nem a ninguém” e que “todos aqueles que se relacionam ou queiram relacionar com o Sporting Clube de Portugal terão que o fazer numa base de entendimento, assente no respeito mútuo”.

Pois bem. Não me parece que a subserviência e a falta de respeito pela instituição resultem apenas de desentendimentos entre duas personagens num jogo de andebol. Estas salvaguardas no comunicado resultam de algo mais profundo. O facto de Bruno de Carvalho não assentar na personagem que se esconde na arca e reclamar para si o lado superior na trama. De forma exagerada ou impulsiva, o presidente aproveitou o incidente para impor a sua posição e evitar mais crimes de paixão. E com isso, o Sporting aliviou um pouco mais a corda, no pescoço.

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Mara desenhoMara Guerra
* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste»

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