Home

Enquanto estas linhas se escrevem adentro na noite, milhares de cidadãos gregos pernoitam em vigília contra a tomada calada de mais um pedaço de democracia em prol da sacrossanta inexequibilidade austera – os «raids» ministeriais são como trovões. A «realpolitik» passa da prática à surdina: antes de ser real é inaudita, e depois de praticada é irreversível. Tal como o incomensurável programa de vigilância da administração norte-americana, o famigerado PRISM. O executivo de Obama deu luz verde a um autêntico panóptico à escala global, um sistema operativo omnipresente que espia, controla, intercepta, lê e escuta os dados de comunicações feitas pela Internet, assim como conversações telefónicas – está em marcha, quer queiramos quer não. O vício terrorífico do terrorismo transformado em antídoto viral contraceptivo apenas impede a gestação da clarividência. Ano após ano, injecta-se o medo e com ele prega-se a solução. O pânico é, afinal, a única virtude da cura: a doença, qual esclerose degenerativa, virá no legado futuro.

Tanto um caso como outro são cobardes ataques à integridade constitucional e democrática dos Estados. Perpetrados pelas costas, como tão bem são desferidos pelos prepotentes, estes ataques ferem de morte os princípios básicos que regem e protegem os nossos direitos. Mas em ambos os casos, a incontornável retórica encerra em si mesma um dogma forjado na obrigatoriedade da inevitabilidade – toda a restante possibilidade é impossível. Na Grécia não existe caminho a não ser o que é, e que teima em não deixar de ser; nos Estados Unidos não existe outra saída para tudo o que expluda, vá de aviões a cartas armadilhadas, passando por mochilas e panelas. Dum lado e doutro se corta e reduz, se rasga e seduz, através de um duplipensamento que nos traça o destino distópico que Orwell crivou em palavras com «1984». O panóptico digital de Obama abraça o divino: o prisma do PRISM é um totalitário olho supervisor incidente na alma de cada um dos cidadãos, espiando todos os passos incautos, escutando por detrás da nossa consciência, violando o segredo da nossa intimidade, como um relógio suíço vigilante: tiquetaqueando com os olhos todas as nossas acções. Para lá de pontual, omnipresente. Se Deus está morto, o «feedback» cibernético tomou o seu lugar – sorria, está a ser alienado em tempo real.

O duplipensamento é a trave mestra do funil orwelliano que nos despeja em «1984». Outrora na obra, como hoje, na realidade, a nossa sociedade anula-se perante o poder manipulador da coerção expectante dos dispositivos de controlo e punição – sob a égide da segurança interna, contra a ameaça exterior. Através desse pretexto sinfonizado, hipnotiza-se o povo a abdicar dos seus direitos e cinge-se a vida alheia a um redutor relatório de fragmentos e rotinas, números e letras, palavras-chave e dados estatísticos, mera informação administrativa em série processada e vigiada pelo Estado abusador. Os fins são infinitamente rentáveis: saber é poder e a informação é o maior lucro que actualmente se pode deter. A privatização da intimidade será o negócio de muitos biliões vindouros, ou não se alinhassem as gigantes multinacionais na calha para coadjuvar o processo de monitorização da nossa vida: Apple, Yahoo, Google, Facebook, Microsoft e por aí adiante, imaginamos nós. Um panóptico de circuito fechado, entreolhando-se no cruzamento dos nossos dados, hábitos, preferências, fotografias, datas, relacionamentos, segredos, profissões, locais frequentados, círculos de actividade, ideologias políticas, credos e mensagens privadas – vender-se-ão perfis, ajustar-se-á a mente ao produto, moldar-se-á o desejo à oferta do mercado. Seremos o consumidor mais previsível de sempre, o mais saciado, o mais domesticado, o mais descodificado. Seremos, nós próprios, um produto do nosso segredo desvendado.

Além da transacção da privacidade, esta espionagem funciona como um condicionamento brutal da liberdade de cada um, aprisionando o indivíduo, confinado a uma gaiola de espelhos à qual, gradualmente, chamará de casa. Seremos estranhos no acto de sermos nós mesmos. Enquanto olhamos para o reflexo do nosso comportamento condicionado, o panóptico digital espiar-nos-á, com a crença de que, apertando limites, furando fronteiras, invadindo intimidades, conseguirá expiar os pecados da sociedade. Espiando para expiar, numa ânsia totalitária de previsibilidade manipuladora, própria de quem reduz a complexidade ao padrão estatístico do lucro, do jogo político e do paternalismo ditatorial. Abdicar de direitos para ter mais segurança é uma falácia do tamanho do mundo, maior até. Uma crença ignóbil e degenerativa que nos custará caro, isto claro, se nada for feito em contrário. Restringir direitos básicos é enfraquecer a democracia e a liberdade: não há segurança podre – traidora e simulada – que justifique uma ditadura encapotada. Nem austeridade que legitime a instalação do obscurantismo jornalístico.

GOSTOU DESTE ARTIGO? ENTÃO ENTRE EM https://www.facebook.com/palavrasaoposte, CLIQUE ‘GOSTO’ E ACOMPANHE OS ARTIGOS DIÁRIOS DO PALAVRAS AO POSTE! 

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s