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Há quem diga que, para conhecer um escritor, o melhor é abrir um livro seu na primeira página e ler as primeiras linhas, ou o primeiro parágrafo. Outros há, porém, que defendem que o mais ajuizado é abrir o livro numa página ao calhas, pois que o início de um livro poucas vezes revela fielmente quem é o escritor, e que mais frequentemente é lá para diante, no miolo da encadernação, que temos acesso à qualidades do autor. Os dois casos são legítimos, e ambos defensáveis. Nunca vi, porém, − mas também, que sei eu das coisas da vida? −, quem alvitrasse que o mais acertado é abrir o livro no seu final e ler as suas últimas linhas. Tão adequada como as anteriores seria a escolha se se desejasse conhecer o estilo do autor, mas não estamos dispostos a sacrificar o que o livro nos pode oferecer, enquanto novela. Porque o fim das coisas é o nosso fascínio maior. Tememos alguns fins, vivemos em função de outros; os que queremos que cheguem e os que nunca desejamos. E talvez por isso haja fins que evitemos por nem lhes abrirmos os princípios.

A Feira do Livro de Lisboa terminou na passada segunda-feira, e os media regozijaram-se com os 550 mil visitantes, e os organizadores asseguraram que a maior parte das editoras presentes vendeu mais do que no ano passado — algumas, dizem, venderam até 20% mais, num extraordinário espasmo cultural por entre a boa constrictor da crise. Tudo isso é muito bonito, mas mais do que saber quanto venderam, interessar-me-ia saber o que venderam. Porque a literatura − logo ela − não deve contentar-se, como tudo o resto, em proclamar ser um valor universal e, em concordância, esticar-se languidamente no sofá, com o sentimento do dever cumprido pelo mero acto de existir o seu conceito, prescrito um pouco por toda a gente. Para vencer pelos mínimos já nos basta o estouvado Martim-empreendedor, e se ganhar pouco é melhor do que estar desempregado, seria de esperar que ler qualquer coisa fosse melhor do que não ler nada.

Mas não é. Acontece que não acredito nem na primeira nem na segunda panfletária inferência, e se toda a gente deve poder ler o que quer, talvez nem toda a gente devesse poder ler o que quer. Para começar, porque há boa e má literatura, e o grande problema reside, desde logo, no facto de apelidarmos de literatura até aquela que é má; aquela que, na verdade, nem o chega a ser. Porque os livros, vistos de fora, quase se diriam todos iguais. Porque os livros, vistos de fora, quase se diriam todos bons, como os medicamentos, se só se lhes olhar à embalagem sem capacidade para traduzir os nomezinhos esquisitos que adoptam os compostos químicos. Mas de maior simplicidade são as palavras que recheiam os livros, e nem isso facilita o trabalho a muito gente. Porque ler, afinal, é sempre salutar, seja o horóscopo ou Camus, as garrafais de um jornal ou Victor Hugo, a Carta do Cliente do Metro de Lisboa ou o Eça.

Vê já o leitor problema de subscrever tais premissas. Só é possível distinguir um bom de um mau livro lendo-o. No mínimo, lendo o seu primeiro parágrafo, um outro que lhe viva no meio, ou o seu parágrafo final. Claro que para isso será necessário começar por ter disposição para pegar num livro e para o abrir com vontade de o descobrir, pegar num livro que possa ser um desafio, pegar num livro que ainda não se saiba onde a mão do narrador poderá levar, mas isso talvez já sejam vontades a mais para aqueles que de um livro não esperam mais do que um filme sem imagem, novela sem som, mera alternativa ao tablet sem bateria.

Mas não há por que nos espantarmos. A tirania é a dos números, e nós, portugueses, assim como os nossos companheiros desses esconsos banlieues europeus, sabemo-lo bem. O importante é comprar mais livros, ter mais visitantes, festejar a leitura preferencialmente sem chegar a olhar ao texto. Sim, o texto aqui é secundário; é, sobretudo, muito desnecessário. Melhor do que um povo culto é um povo que assim se julga. Dá bem menos despesa. Os políticos fazem, a esse respeito, um trabalho notável. Todos ouvimos o Gaspar, e poderemos encher o peito de orgulho: afinal, somos o melhor povo do mundo.

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Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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