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Não posso corresponder ao charmoso cliché de que sou uma «cidadã do mundo». Pela falta de vivência nos cinco continentes e porque a conjectura em que vivo me trava a mobilidade. Física, e apenas física, entenda-se. Porém, posso convictamente afirmar que sou uma cidadã da Europa. E isso encaixa na perfeição. Porque sou mais que uma cidadã portuguesa, estranha que sou aos comportamentos da sociedade nacional, em geral. E porque busco, conscientemente, na Europa, o património histórico e cultural que me transformam como indivíduo na sociedade.

Certamente que a busca do património europeu não é algo completamente inteligível, no sentido em que a diversidade transborda no velho continente e que o espólio cultural e social entre as fronteiras de cada país se diversifica, de tal forma que chega, em muitos casos, a ser antagónico. E não me refiro aquela barreira invisível que separa o ocidente dos países mais puxados a oriente. Mas porque a existência de cada país constrói a sua própria memória e se transforma em paradigma nacional, antes que se identifique um paradigma europeu ou continental.

Pelo menos assim tem sido. Cada nação fez recair as suas escolhas mediante os regimes partidários que acolheu, os sistemas políticos que fez encaixar, as liberdades individuais que estes permitiram e os cidadãos que construíram. E, por isso mesmo, estranho será que me identifique como uma cidadã de uma Europa, que salta entre monarquias históricas, políticas reaccionárias e sistemas políticos nascidos do capitalismo e para, só e somente isso, orientados. Entenda-se com este último grupo, o mais abastado em termos de seguidores e de uma consciência continental actual.

Parte da formação de uma consciência política continental surgiu, claro está, com a formação, repleta de pressupostos ilusórios e teoricamente intocáveis, da União Europeia. Sendo que a sua origem não poderia adivinhar o caminho para a fantasmagórica união entre países. Porque esta origem, impulsionada por interesses económicos, de países consideravelmente mais resistentes às mudanças continentais ocorridas ao longo dos séculos, em nada se estranha. Um caminho conveniente para a formação de uma aliança económica não é, no modelo capitalista, nem em qualquer outro, mais do que um tratado favorável entre nações. E de tratados, feitos e desfeitos, está a História repleta.

A minha preocupação não está detida na origem da União Europeia, mas no caminho que esta foi percorrendo, até ao trono ocupado no reino actual da Europa. Dispensável será localizar o trono na Alemanha e indispensável será localizar todas as economias tidas como mais frágeis como súbditos, prontos a servir o reinado.

O mais estranho não é a forma hierárquica e construída na alçada de interesses que contribuiu para a solidificação desta Comunidade a nível europeu, mas a forma como, com a vontade “solidária” e exclusiva, segmentou o acolhimento de nações no seu seio. E com as boas-vindas não lhes ofereceu verdadeiras vantagens, verdadeiros créditos para um futuro comum, mas apenas lhes entregou a enganadora hipótese de participação. E, reforço, enganadora. Porque esta oferta de participação não segue padrões democráticos, mas reúne as nações, com o propósito de serem salvas, e que com essa ânsia de salvação passam, facilmente, a súbditas.

 O que se torna visível quando o poder europeu se sobrepõe ao nacional na tomada de decisões dentro de fronteiras. Quando as directrizes europeias pouco espaço deixam à formação de directrizes nacionais e apagam as que existiam, antes do sonho europeu. Quando os chefes de estado parecem fantoches, com discursos articulados, pela voz da União.  E por isso, à revelia, lhes retiro o cargo de Chefes de Estado e lhes ofereço um novo, bem mais ajustado. O de Mandatários.

Acordámos para a realidade, do sonho europeu de fundos e promessas enviadas, quando a crise económica despertou a consciência de que a união económica deixava cair aliados. E que em vez de os salvar, os endividava, com o propósito escondido disso mesmo, de os endividar. O carácter unificador começou a traçar uma linha que salienta as fragilidades dos países a sul. Como que se de uma maldição do Mediterrâneo se tratasse. A Grécia acabou por ser a primeira vítima, amordaçada com os pressupostos da União Europeia. Depois, e negando querer seguir o mesmo caminho, segui-lhe os passos Portugal.

Poderia deter-me sobre o que se passou depois da chegada de compaixão da Troika. Mas não é isso que se pretende. A razão por que me debato pelo assunto europeu não está, apenas, no presente nacional que vivemos. Mas num continente que começa a disseminar conflitos nacionais, tensas que estão as relações Estado- Cidadãos. Sufocadas que estão as hipóteses de acreditar num destino comum e na negação do poder em aceita-la. Porque às custas da união obediente, aqueles que sofrem as consequências tendem a rumar à desobediência, esgotadas que estão todas as outras soluções. E não, não ousem falar da via do diálogo. A União Europeia é surda e só conhece o imperativo.

Importa, agora, e enquanto cidadãos europeus, distinguir quais são as batalhas nacionais e quais são as que devem ser entendidas num plano que transborda as fronteiras. Porque o corte do sinal na televisão pública grega, esta semana, não deverá ser, apenas, uma luta dos seus trabalhadores. Deverá, pois, ser entendida como um verdadeiro atentado ao destino das emissoras nacionais, bem como ao cair dos pressupostos que estiveram na sua criação. Cortar o sinal grego poderá vir a revelar que o Serviço Público de Televisão é algo que as democracias podem dispensar. Poderia, agora, aproveitar o mote e falar da RTP. Mas a censura é algo que me assusta. E salvar o «Palavras ao Poste» da censura é algo me apraz.

Em alternativa, mais segura, apelo aos cidadãos nacionais que se identifiquem com as lutas que vão surgindo Europa fora. Que se solidarizem com os seus motes, mesmo que não concordem com os seus meios. É que Portugal é, sabido, um país de brandos costumes, cujas manifestações pacíficas têm acertado na minha identificação enquanto protestante. Contudo, é importante que nos revejamos nas batalhas que se vão travando, em nome de liberdades nacionais. Que nos sirvam de exemplo aqueles que tentam soltar as amarras europeias. É que, caso não se recordem, quando a crise abateu, na sua forma destruidora, sobre a Grécia, e as televisões nos demonstravam a destruição do país helénico, tudo o que os representantes nacionais nos faziam crer é que Portugal não tomaria o mesmo caminho. Olhemos para nós agora, e esperemos que os gregos se solidarizem connosco, neste «efeito dominó» que abateu a Europa.

Se a União Europeia está na origem de todos os males europeus? Certamente que não. A Europa tenta vencer a doença crónica do envelhecimento, dos regimes que se desenvolvem, da crise económica enquanto paradigma mundial. A Europa atravessa momentos sensíveis, que se arrastam para lá de uniões, orientações ou decisões no plano económico. A Turquia é o mais claro exemplo disso mesmo, em sequência das manifestações das últimas semanas, numa onda que, esperemos, traga a brisa da democracia. Mesmo que democracia não seja, actualmente, sinónimo de bem-estar, para um cidadão europeu. Mesmo que democracia não seja mais que uma ilusão, que nos une enquanto colectividade nacional.

A construção mental do sentimento colectivo, que a União Europeia procurava enunciar, pode estar mais perto de ser sentido e vivido. Mesmo que pelos piores motivos. A desordem continental poder trazer apenas uma vantagem, na busca de um novo paradigma. Perto do abismo, seremos todos, e antes de mais, europeus. «It’s the final countdown», como cantarolavam os suecos Europe (que nome artístico tão a propósito), no ano de 1986.

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Mara desenhoMara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste».

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