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Aqueles que se manifestam efusivamente nas bancadas, os que discutem no café (e agora também nos fóruns online) e os que nas conversas entre amigos só falam de futebol sempre foram conhecidos na gíria como os treinadores de bancada. E como a evolução faz parte da vida, também aqui deixámos de caminhar a quatro patas e passámos a bípedes. Os treinadores de bancada deram lugar a gestores (financeiros) de bancada. Uma evolução que pode ser vista de forma positiva e natural, um pouco à luz da teoria da evolução de Darwin. Eu vejo-a mais como uma evolução de cavalo para burro, como se costuma dizer na terrinha.

Os gestores de bancada têm menos paixão, são mais racionais. Uma racionalidade que chega a surpreender o cônjuge, habituado a ver o seu parceiro esbanjar dinheiro em boîtes, tascas e casas menos próprias com cheiro a incenso. O seu salário é gasto de forma desenfreada, uns míseros 500 euros mensais. Chegam à segunda metade do mês com as calças na mão. Mas as contas do seu clube são diferentes. Têm que ser bem geridos, têm que saber comprar bem e vender ainda melhor. Não se importam de pagar 40 euros para uma noitada de snooker e bebidas com os amigos mas não aceitam que Oscar Cardozo seja vendido por 13 milhões de euros. “Vale 15 milhões, por menos que isso não se vende”, dizem eles, com o seu pseudo-fato e gravata envergados. Dois milhões não passam de dois Léo Kanu’s, mas a barreira do gestor está definida. Ou paga ou cala.

A discussão passou do “É bom jogador?” para o “Quanto custa?”. Há ainda a versão do “Pode ser valorizado e render uns bons milhões?”. Ditam as chamadas Leis do Mercado que os clubes com menor reputação ou que estejam inseridos em competições de menor renome tenham que, qual toque de midas, transformar tudo o que pegam em ouro para vender a bom preço. Mas não há nada nessa lei que imponha ao comum adepto uma mudança na forma de encarar o jogo. Interessa – ou deveria interessar – a qualidade dos intervenientes. Tudo o que vier a mais é bónus.

Existe até, imagine-se, o campeonato das vendas. Se os outros vendem a ‘x’, o nosso clube tem que vender pelo menos a ‘x+1’. Se os outros facturam ‘y’ num mercado de transferências, o nosso clube deve facturar tanto ou mais. Mesmo que no final, entre os Léo Kanu’s, os Fernandéz, os Balboa’s ou os Sretenovic’s, o passivo do clube continue a aumentar. E depois há também que ser feito o balanço entre as vendas e as compras. E aí, a porca torce o rabo. Os gestores de bancada quando assistem à saída de um jogador por 40 milhões não aceitam que para o seu lugar chegue alguém a custo zero. As expectativas criadas em volta das novas vedetas do clube variam de acordo com o valor do seu passe. O gestor, qual líder de uma empresa com trabalhadores hierarquizados, tem uma expectativa mais elevada e exige mais daquele que chegou a troco de uma quantia avultada. “Este gajo custou-nos uma pipa de massa e não consegue fazer um golo de baliza aberta?”, grita o gestor a partir da bancada.

Estes gestores são ainda resignados. Têm dificuldade em desfrutar de um jogador que sabem (porque ouviram dizer) que só ficará no clube até final da temporada. Se vai sair, que faça o seu trabalho de forma competente e que – sobretudo isto – renda uma boa maquia aquando da venda. Vender todos os craques não é algo que traga mal ao mundo destes gestores, desde que muitos milhões de euros tenham seguido caminho inverso, entrando nas contas do seu clube (isto claro, quando o dinheiro tem esse destino).

Já se assume como verdade indiscutível que determinado jogador, por muito vital que seja para a equipa, deva ser vendido mediante o pagamento de determinada quantia. Mesmo que com essa venda a equipa fique destroçada. E se por um lado falamos destes milhões de euros como a nova essência do jogo, por outro opinamos sobre quantias exorbitantes com a leviandade com que se fala de um jogo de cartas para o rebuçado. O dinheiro injectado (e lavado) pelos novos intervenientes russos, árabes, americanos e asiáticos, faz-nos falar de 20, 30 ou 40 milhões de euros sem realmente termos noção daquilo que nos sai da boca.

Também eu, não raras as vezes, me descuido e falo de contas em vez de futebol. Falo com autoridade da cotação da SAD, dos activos e dos passivos, dos custos com o pessoal. Mas não caio na tentação de aceitar uma venda, a não ser que do lado do jogador exista uma pressão insuportável para partir. Porque o dinheiro que chega não joga a trinco ou a número 10 e muito menos marca golos. E porque no fim de contas, os euros – tal como os craques – seguem outros caminhos.

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 joni_desenhoJoni Francisco

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