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No passado dia 15 de Junho, Hassan Rouhani (64 anos) foi eleito presidente do Irão, sucedendo ao tão famoso quanto polémico Mahmoud Ahmadinejad, que, em virtude de ter completado dois mandatos, não se poderia recandidatar novamente, de acordo com a constituição do país. E como acontece sempre que um ditador é deposto, por meio de eleições ou à força da bala, o mundo rejubila e, qual balão, insufla-se de esperança.

Hassan Rouhani, recém-eleito presidente do Irão, acena numa conferência de imprensa em Teerão, no dia 17 de Junho, 2013 (AFP/Behrouz Mehri)

Hassan Rouhani, recém-eleito presidente do Irão, acena numa conferência de imprensa em Teerão, no dia 17 de Junho, 2013 (AFP/Behrouz Mehri)

E se o discurso de Rouhani parece dar provas animadoras ao Ocidente, será preciso conhecer o homem para que se tente prever o que dele esperar, num país onde não poucos são ainda os crimes cuja pena é o apedrejamento, onde a prostituição é dita problema resolvido mas onde foi, simplesmente, camuflada na instituição dos «casamentos temporários», que podem durar meia hora ou os anos desejados, mediante um pagamento e assinatura de papéis num notário – que o Estado seja um chulo, sabemo-lo hoje na Europa, mas o Irão eleva assim a fasquia −, e onde, afinal, permanece sobre todos um Líder Supremo, o Aiatola Ali Khamenei, que comanda o Irão há quase 25 anos.

É certo que Rouhani tem sido descrito como um político moderado e que certamente contrastará, para melhor, com o governo extremista de Ahmadinejad — as comparações com o que não tem comparação têm sempre o vaporoso dom de tornar tudo melhor –, mas Rouhani é também um membro do clero, e muitos analistas internacionais hesitam no momento de lhe retirar o rótulo de conservador. Isto porque foi na recta final da campanha que Rouhani se aproximou dos reformistas, e porque o clérigo tem, afinal, estado intimamente ligado aos destinos do Irão desde 1980. Do nada, nada se faz, e o novo presidente iraniano não tem estado aprisionado numa bolha. O actual presidente eleito desempenhou funções como deputado no Parlamento (1980-2000), foi Vice-Presidente do Parlamento (1992-2000), Membro da Assembleia de Peritos (desde 2000) − órgão responsável pela nomeação do Líder Supremo e único com legitimidade para supervisionar as suas acções e até o destituir −, tem sido Presidente do Centro de Investigação Estratégica (desde 1992), e foi Secretário do Supremo Conselho Nacional de Segurança entre 1989 e 2005.

O recém-eleito presidente do Irão venceu as eleições com 50,7% (19 milhões) dos votos válidos, dispensando-se assim, com surpresa, a segunda volta das eleições (Reuters/Fars News/Amir Hashen Dehgani)

O recém-eleito presidente do Irão venceu as eleições com 50,7% (19 milhões) dos votos válidos, dispensando-se assim, com surpresa, a segunda volta das eleições (Reuters/Fars News/Amir Hashen Dehgani)

Não obstante, há indícios claramente positivos. Rouhani prometeu promulgar uma carta de direitos civis e zelar pela liberdade de expressão, defende o diálogo com o Ocidente e o regresso às negociações em torno do plano nuclear iraniano – até porque dele necessita, na tentativa de mitigar as sanções impostas ao país, que resultam em claros prejuízos para a economia do Irão, onde a inflação atinge já os 30%, o desemprego está estimado em mais de 20%, o preço das habitações e as rendas praticamente triplicaram, e as sanções às exportações de petróleo reduziram esta fundamental receita em aproximadamente 65%. Quanto à questão nuclear, em 2003, sob a presidência de Khatami, quando Rouhani era o principal negociador entre o Irão e as Nações Unidas, o país aceitou suspender o enriquecimento de urânio. Porém, é Ali Kahmenei quem tem a última palavra no assunto, e não é expectável que, dada a “linha dura” dos seus apoiantes, qualquer travão venha a ser imposto ao programa nuclear que o país continua a afirmar ter apenas fins pacíficos.

Ainda que Rouhani pretenda o entendimento com o Ocidente, serão vários os desafios que enfrentará, mesmo se excluída a questão nuclear. Por um lado, Rouhani nada deverá fazer para retirar o apoio iraniano ao governo sírio, imerso em guerra civil há cerca de dois anos, com o EUA a apoiarem declarada e logisticamente os rebeldes, e com o seu presidente, Bashar Al-Assad cada vez mais perto de um dia vir a sentar-se no tribunal de Haia, por crimes contra a humanidade. Por outro, a animosidade contra Israel, aliado do Ocidente, continuará certamente, até porque o novo presidente o considera um país de apartheid. E se Rouhani garante não ver no debate do programa nuclear um combate entre Ocidente e Oriente, o clérigo islâmico que é não deixará de submergir a questão israelita nos terrenos da religião, que ainda tem a última palavra em todos os momentos da vida do Irão.

Assistiremos, certamente, a uma mudança de estilo na presidência do Irão. Restará saber, porém, se essa será mudança profunda e profícua o bastante. Afinal, é preciso não esquecer que no Irão, que se define como República Islâmica, existem Guardas da Revolução — mais do que uma polícia de costumes –, e um Conselho de Guardiães, alto órgão de conservadores membros do clero que, entre outros poderes, decidem sobre quem pode candidatar-se à presidência do país, e duas candidaturas foram revogadas, em prol, segundo a FARS, agência noticiosa independente iraniana, dos candidatos de “linha dura”, entre os quais, afinal, se contou Hassan Rouhani.

Este é, isso parece claro, um potencial momento chave para um redireccionar do Irão e para o estreitar de algumas relações com o Ocidente, mas só o tempo e a concreta actuação dos seus líderes o poderá confirmar.

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