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Armand Munoz foi agredido pela polícia: foto de Alex Mogly

Não há nada tão fraterno quanto o terno despertar da democracia. O sol rasga a turquesa da madrugada, um raio de luz depois do outro, e o galo falha o estardalhaço. Enquanto a manhã acorda da noite, a democracia entra de rompante, para nos acertar o passo – pé sorrateiro ante pé sorrateiro, com a delicadeza que uma retroescavadora sempre oferece, a «demokratía» marcha firme por entre árvores e enxadas, coentros e tomates, batatas e cenouras. De bastão em punho, o pluralismo e o diálogo dão os bons dias à Horta do Monte: deitar cedo e cedo erguer, serve, ao menos, para acordarmos a tempo de assistir à vergonha que se presta a decorrer. Foi assim, ontem, pelo raiar da manhã. A diplomática democracia – nunca é de somenos relevar e repetir o seu cognome – irrompeu no local, com fardas e ordenações terminantes, maquinaria da pesada e uma inflexibilidade empedernida: foi tudo a eito – culturas ceifadas pelas garras da escavadora e bastonadas no lombo dos indignados. Porque, de facto, ainda há gente que insiste e persiste em levar a democracia a peito.

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Democracia em acção: foto de Bruno Cabral

Talvez seja mesmo assim. Talvez a senhora dona, a tal democracia, se faça e perpassa assim, enquanto dormimos. Um dia acordamos, ao ressoar trombeteado de uma cálida bordoada nas costas, e compreendemos tudo: «Bom dia Portugal, bom dia democracia, bom dia Estado de Direito», grita a consciência cívica do igualmente bom cidadão. Talvez seja mesmo assim, pela calada das nossas costas – que apenas zurzem pelas cacetadas policiais – que o processo democrático ocorre, em tudo semelhante a uma invasão secreta à qual somos, ou alheios, ou pior: puros inimigos. Na Graça eram 7:30h da manhã e já a Horta do Monte tinha sido completamente destruída, tolhida pela força bruta das máquinas e controlada pela infantaria autoritária da Polícia Municipal: horta comunitária arruinada sem aviso prévio, diálogo nulo, empurrões, bastonadas, detidos e feridos. Num ápice matinal, aquilo que era um espaço associativo, onde as culturas se cruzavam e projectos de cultivo orgânico eram fomentados, tornou-se num descampado para futuros empreendimentos. Estamos perante uma nova modalidade de democracia, dita «in your face», ou seja, em bom português, democracia nas tuas trombas: entra em força e sem aviso, exige e ordena, destrói e aplica, a lei. A sua lei.

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Detenções: foto do «facebook» de Cátia Maciel

A nova democracia é assim. Pouco fala, pouco argumenta, mas faz-se. Faz-se enquanto dormimos, faz-se nas permissivas entrelinhas do silêncio, na alienação induzida do cidadão tornado espectador. E depois vicia-se no oportunismo das nossas brechas: um eleitorado passivo é um activo político contra a verdadeira política. A nova democracia vai-se fazendo com base no autoritarismo, na opacidade promíscua dos interesses privados, na burocratização total dos meios de participação cívica, na obstrução do activismo, na sumida participação dos eleitores nas resoluções da vida pública, cada vez mais longínquos, mais desfasados, completos estranhos ao serviço – ao serviço público. A nova democracia não se compadece com iniciativas comunitárias, pluralidade de ideologias, activismos militantes e sadios, debates livres e mentes pensantes. Entre o discurso indivisível da catástrofe e o progressivo despejo dos nossos direitos, a política sã perde primeiro, para nós perdermos a seguir: perde-se o espaço, perde-se a voz, perde-se o efeito. Porque há quem grite sem se ouvir – de facto, ainda há gente que insiste e persiste em levar a democracia a peito.

Foi assim que aconteceu ontem, na Horta do Monte. A Câmara Municipal de Lisboa ordenou a destruição da área de cultivo ali presente, sem mais nem demoras. O projecto, uma saudável confluência de práticas biológicas e ecológicas, integrado num contexto de intercâmbio social, aberto a toda a comunidade, foi cavado e revolvido, desterrado e interrompido. Pelo caminho, duas detenções e alguns feridos: tudo maus rapazes, dirá a polícia. Compreensível, eu mesmo me farto de ver vilões que cavam e plantam, que regam e trocam sementes entre si. Deveriam estar todos atrás das grades os sacanas.

A invasão de ontem foi o retrato da nossa actual e vândala democracia. Manhosa e camuflada, inflexível e prepotente. A retroescavadora, arrasando o terreno cuidado sob o olhar monitor da autoridade, soa a metáfora de exterminação. As bastonadas da ordem – coerciva – compõem o ramalhete. Ontem, a democracia levantou-se cedo para devastar uma simples, inofensiva e produtiva horta, correndo as gentes à tareia. Com ela vai tudo a eito. Porque, de facto, a senhora dona, a tal democracia, perdeu por si mesma, e por nós, ora pois, todo o respeito.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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