Home

Há um povo, na Oceânia, para quem os museus não guardam objectos do passado. Nos seus museus há, sim, uma colecção dos haveres que actualmente aquela sociedade usa, como um catálogo de posses que dá conta de tudo quanto àquele povo é dado ter. De alguma forma, os seus museus são os nossos supermercados. E onde é que isso nos deixa?

O Conselho Europeu de Informação Alimentar estima que 33 milhões de pessoas estejam em risco de malnutrição, na Europa. (Dominique Faget/AFP)

O Conselho Europeu de Informação Alimentar estima que 33 milhões de pessoas estejam em risco de mal-nutrição, na Europa. (Dominique Faget/AFP)

Na Europa a 27, 89 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas anualmente (179 kg/indivíduo). Em Portugal, estima-se que se percam ou desperdicem cerca de um milhão e 30 mil toneladas de alimentos por ano, da produção ao processamento, distribuição e consumo. Destas, a produção é responsável por 332 mil toneladas, o consumo por 324 mil, a distribuição por 298 mil, e o processamento por 77 mil. Olhando aos valores, e pese embora a escala alarmante de todos eles, poderíamos ser tentados a dizer que a distribuição é apenas o terceiro maior responsável pelas perdas. Importa, porém, argumentar que a distribuição é a maior culpada, pois é ela que injecta no sistema as suas normas, e é ela quem faz alastrar, a montante e a jusante de si, as ideias que inquinam comportamentos de produtores e consumidores.

De entre as perdas na fase de produção, parte significativa (estima-se que perto de 20%) diz respeito a produtos deixados nos campos, por serem considerados sem valor comercial, apesar de perfeitamente próprios para consumo. É o caso de produtos hortícolas sem dimensão suficiente ou, simplesmente, produtos esteticamente aquém das sensuais formas que os frutos das solanáceas ou as plantas asteráceas adoptam na publicidade. Em cheio: essa mesma publicidade que os supermercados pintam na televisão e com que fazem as paredes das suas lojas. Afinal, é isso oportuno, pois é ela quem literalmente lhes suporta o negócio. É através dela que ditam as regras do jogo, pois os produtores, a quem a nomenclatura reconhece que conhecem o produto melhor do que ninguém, sabem bem que aqueles que não chegam aos supermercados estão em perfeitas condições para consumo humano, mas não para o mediático, o que, podendo parecer o mesmo, não significa exactamente a mesma coisa.

Em França, pelo menos 10 mil toneladas de produtos pescados são anualmente deitadas fora, em perfeitas condições, por não serem estes vendidos nas lotas, antes mesmo de terem hipótese de chegar aos supermercados. Somando esse valor aos entre 10% a 30% que são devolvidos ao mar (estimativas da FAO e da Organização Fish Fight) porque o seu calibre garantirá pouco lucro, ou fará baixar o preço total do lote, e aos cerca de 10% desperdiçados nas fases de distribuição e consumo, são imensas as toneladas, globalmente, desperdiçadas. O problema, aqui, é duplo: por um lado, a devolução ao mar não é mais do que um esventrado eufemismo burocrático de Bruxelas, pois mesmo com redes de malha regulamentar, é inevitável a entrada de algumas espécies sem quotas de pesca em determinados países ou de indivíduos sem a dimensão mínima requerida, mas uma vez no convés dos barcos, porque não trazer esse peixe a terra, seja para venda ou para doação? Por que não fazê-lo, sobretudo se se estima que, do peixe devolvido ao mar, 60% a 70% já está morto ou sem hipóteses de sobrevivência pelos ferimentos sofridos na captura e selecção? O Parlamento Europeu já votou, no início de 2013, contra esta prática, mas dificilmente haverá uma lei promulgada antes de 2014.  Tudo isto, porém, se torna mais chocante quando olhada a outra face do problema: quando se sabe que o peixe não vendido em terra, embora em perfeitas condições, é deitado fora depois de vaporizado com azul de metileno e outros químicos que o tornam impróprio para consumo, prática que muitos supermercados reproduzem nos seus contentores para evitar que os seus empregados ou a restante população os possa aproveitar. Porquê?

Estima-se que um pequeno supermercado local desperdice oito contentores de produtos alimentares por semana, num valor entre 1500 e 2000 euros. (lyzadanger)

Estima-se que um pequeno supermercado local desperdice oito contentores de produtos alimentares por semana, num valor entre 1500 e 2000 euros. (lyzadanger)

Porque claro, é preciso proteger o mercado acima de tudo. O mercado e, bem assim, o lucro. E isso parece-lhes justificação válida, legítima, a esses para quem o «come tudo o que tens no prato que há meninos a morrer à fome» mais não é do que lengalenga irreal como o papão, capaz apenas de desarmar o petiz mais irrequieto mas — réstia de esperança — com o tino e o humanismo que lhe falta aos pais. Outra questão, e a resposta torna-nos na mesma toada: sabendo muitos supermercados que empregam trabalhadores pelo salário mínimo e muitas vezes com situações de subsistência frágeis, por que razão não distribuem os alimentos em bom estado pelos seus empregados carenciados, em vez de os deitarem para o lixo ou até de os distribuírem a instituições de solidariedade? A razão é simples: estas últimas constituem uma doação legal, e por isso as distribuidoras conseguem assim um abatimento nos seus impostos, ao passo que nenhum benefício financeiro lhes advém da doação a particulares. Mas, afinal, sabemo-lo há muito: as causas para a fome no mundo, e sobretudo nos nossos países desenvolvidos, nunca estiveram relacionadas com a escassez de alimentos.

A luta pelo conceito de frescura na mente dos consumidores leva os supermercados a deitar fora alimentos em óptimas condições por conterem pequenas imperfeições. (Estima-se que um pequeno supermercado local desperdice oito contentores de produtos alimentares por semana, num valor entre 1500 e 2000 euros. (Nagiris - supermercado indiano)

A luta pelo conceito de frescura na mente dos consumidores leva os supermercados a deitar fora alimentos em óptimas condições de consumo por conterem pequenas imperfeições estéticas. (Nagiris – supermercado indiano)

Por sua vez, na fase de consumo, na casa de cada um de nós, acarinhamos também as sementes que os distribuidores plantaram em nós, e contra mim falo. Na Europa, calcula-se que quase metade dos alimentos comprados acaba por ser desperdiçada pelos próprios consumidores. Os famosos prazos de validade dos alimentos e os prazos de «consumo preferencial» obedecem também à capitalista lógica da necessária rotação rápida dos produtos e da moeda. Se os prazos de validade de carne e peixe devem ser rigorosamente respeitados, por estarem sujeitos ao desenvolvimento de determinadas bactérias nocivas, diversos estudos mostram que, se devidamente acondicionados no frigorífico, os lacticínios pasteurizados podem ser consumidos até, pelo menos, dez dias depois da validade indicada, sem qualquer risco para a saúde. Além disso, todos os produtos que indicam «consumir de preferências antes de…» não acarretam rigorosamente nenhum perigo de consumo; apenas poderão ter perdido algumas das suas propriedades após o prazo indicado. Mas, novamente, nada disso nem os supermercados nem ninguém nos diz, nem é conveniente que o saibamos. Afinal, a sua luta — e a nossa ambição — é a da frescura, a do do dia, e a da Natureza muito pouco natural de uma série de frutas e legumes quase artificialmente tornados gigantescos, de formas esplendorosamente arredondadas, de cores photoshoppadamente vivas e saturadas, e de peles suavíssimas, como se tratadas com um milagroso anti-rugas da Nivea, da L’Oréal ou outra do género, com Pro-Retinol A e Elastyl ou Manteiga de Karité, ou outra dessas coisas unanimemente fantásticas que nenhum de nós sabe o que é.

O caso é complexo, claro – de contrário, talvez nem chegasse a existir −, mas o problema residirá talvez nessa forma como perspectivamos aquilo que possuímos. Se imitássemos o tal povo da Oceânia, a nossa sorte poderia ser diferente. Se pensássemos os nossos supermercados mais como museus, eventualmente o futuro nos mostraria como teríamos menor necessidade dos nossos museus no futuro. Afinal, para nós a diferença entre estes e os supermercados é que os primeiros só guardam a memória do que já não temos.

GOSTOU DESTE ARTIGO? ENTÃO ENTRE EM https://www.facebook.com/palavrasaoposte, CLIQUE ‘GOSTO’ E ACOMPANHE OS ARTIGOS DIÁRIOS DO PALAVRAS AO POSTE!

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s