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Nelson Mandela está hospitalizado. Aos 94 anos de idade, o maior expoente da luta contra o apartheid permanece internado há cerca de três semanas na cidade de Pretória. Muito se especula em torno do estado de saúde de Madiba; há quem diga que já não reage a qualquer estimulo, há quem diga que esta será a sua última batalha, há até quem diga que já faleceu. Futurologias à parte, as televisões têm-nos mostrado um grande número de sul-africanos concentrados nas imediações do complexo hospitalar onde Mandela se encontra, empenhados em transmitir insistentes mensagens de apoio ao seu eterno líder. A morte não chega enquanto a vida perdurar, e estas pessoas prestam a sua sentida homenagem a alguém que se encontra, até notícia em contrário, no mundo físico dos mortais. Elevar os mortos e desprezar os vivos tem sido o paradigma dominante da cultura ocidental. Seremos nós tão donos da razão como julgamos?

Falamos de gratidão, de humildade, de humanidade, de memória comum selectiva dentro de um quadro cultural, histórico e social. Mandela deu um contributo decisivo para a construção de uma renovada sociedade sul-africana estruturada sobre as bases da igualdade, da fraternidade e do amor entre pares. Passados já longos anos, o povo da África do Sul demonstra, através de tomadas de posição como a que hoje presenciamos, que não se esqueceu da obra que valeu a Madiba o Prémio Nobel da Paz. Curioso é ver que estas pessoas, agora transformadas em notícia por motivos nobres, são aquelas mesmas pessoas tantas vezes classificadas com o rótulo de incivilizadas ou selvagens pelos nossos sempre fiáveis meios de comunicação social. Se homenagear alguém que está vivo pela magnificência das suas conquistas é algo irracional, então deixem-me ser selvagem à minha vontade.

É indubitável que por terras africanas assistem-se a grandes atrocidades dos mais variados tipos contra a vida humana. Mas é preciso ter em atenção que esta pouco rara espécie de bárbaros também habita no super-desenvolvido mundo ocidental: basta olhar para os casos do holocausto e para os criminosos incidentes nucleares promovidos pelos Estados Unidos, isto sem querer falar do 11 de Setembro. Talvez aqui não haja tanta diferença como se pensa, e talvez devêssemos reflectir sobre as razões pelas quais condenamos os ditadores dos dias de hoje e ao mesmo tempo atribuímos a Salazar o título de maior português de sempre. A reflexão é longa, a resposta obscura e o motivo simples: no pensamento contemporâneo o morto tende a ganhar uma nova luminosidade, um estatuto de mártir que o coloca num pedestal de adoração pública e o reconhecimento de que, por muito mal que tenham feito, “ele era muito boa pessoa”.

Esta realidade é promovida pelos mass media, mas o nosso consentimento enquanto cidadãos é que a efectiva na prática, e nunca é tarde para mudar. Recordar os mortos é fundamental, mas o valor de um ser humano tem que ser alvo do seu justo reconhecimento em vida e enquanto ele tiver a capacidade de o percepcionar, porque depois da morte ninguém sabe como será. Sejamos coerentes ao ponto de não glorificar os falecidos que em vida todos criticavam e humildes ao ponto de declarar o valor dos vivos enquanto eles podem usufruir dessa brilhante condição. Alteremos o errático culto dos mortos que nos persegue e unamos forças em prol da construção de um novo culto dos vivos baseado na justiça e na moralidade que dignifique e atribua a honra legítima a quem o merece. Nelson Mandela e o povo sul-africano têm sido um grande exemplo desta abrangente concepção de humanidade, dando uma lição de civilização a um mundo ocidental que parece estar sedento pela notícia da morte de Madiba. Esperemos que não seja para já.

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Diogo Taborda desenhoDiogo Taborda

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