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A realidade já não precisa da ficção para absolutamente nada. Aliás, a própria ficção é que necessita, realmente, de uma certa bússola do real. A tragédia já não precisa da comédia para nada, pois de facto, uma e outra tornaram-se num ente único, uma fusão teatral que passou a encenar a vida de todos os palcos: choramos a rir e rimo-nos de tanto chorar, quais esquizofrénicos sem guião. O pesadelo já não urge, suplicante, pelo sonho, pois a monotonia sonial é um homogéneo limbo de promessas e desfeitas, de terrores às espreitas, onde a esperança convive com a desilusão. Mais que isso: a esperança é já ela uma desilusão, repetente. E na desilusão, virando ao avesso, vemos também espelhada a própria esperança. E assim por este caminho adiante, ciclicamente, rumo a uma dimensão bem acima da Quinta. Haja alguém que me desminta. Ontem, anteontem e em todos os outros trasanteontens, essa tem sido a sina do povo português. Aqui acima – bem acima da Quinta – fica a minha prosa da loucura. Dessa sujeita, dona dos destinos da governança, a Loucura apessoada, tão palpável que desconfio já ser munida de personalidade jurídica: numa certa ilógica faz todo o sentido, pois só depois do aval da Justiça é que a insanidade pode fazer jurisprudência. Artigo número um – da Constituição da Demência.

E a isto se resume o actual – e crónico – estado. Estado de tudo: de coisas, de governo, de narrativa, de sítio, de já nem sequer nos lembrarmos se alguma vez se chegou a ter estado. Ou a ser Estado. Há quem defenda que nunca houve Estado que se visse, realmente. Há quem duvide de todos os estados que temos tido. É somente compreensível: a loucura inerente aos seus eventos é inescrutável. Ela caminha por trilhos insondáveis, tão densos no sonho que a nossa mente se perde no vazio das nuvens e se afoga na incerteza do surrealismo. Não há chão que vede nem firmeza que nos segure. É tudo um pesadelo pesaroso, e na ressaca do medo, volta aquela esperança regeneradora, toda ela cheia de mentiras dentro da verdade. Sim, estou a falar do nosso panorama político: uma escalada alucinada. Um feroz carrossel de pusilanimidades e viagens intergalácticas no vaivém da estupidez grelada. Implodiu-se a realidade, tragicómica, e o sonho da esperança é feito das mesmas palavras que o horror do pesadelo.

Gaspar demitiu-se, depois da espiral recessiva de atropelos à inteligência do povo. Nunca, sequer por um segundo, o homem das finanças acertou uma única vírgula que fosse. Tétrico, robótico e papagueando, o ministro da austeridade foi sempre o baluarte – dogmático – da Constituição da Demência. Um desvio colossal, uma patologia orçamental, rumo à aniquilação de tudo o quanto é. Graças à perícia e brilhantismo do tecnocrata de algibeira, estamos pior, mesmo que todas as avaliações triunviradas tenham sido positivas: o país está na decadência mas parece que isso é de salutar. Eu cá acho que isso é o elevador da Loucura a trabalhar. Depois da demissão de Gaspar, Passos nomeou Albuquerque para segurar a pasta das Finanças: morro de gargalhadas impronunciáveis. Caio na depressão, rio de tanto chorar e choro a bandeiras soltas, tal não é a tragédia que acabo de parafrasear. Ora, Passos escolheu a senhora do Tesouro para liderar as contas do país, a exótica não-tóxica Secretária dos «Swaps». Era exactamente ela quem o executivo precisava: uma duvidosa e rocambolesca Secretária sob fogo cerrado devido a contratos sombrios, ruinosos para o Estado. Tenho de admitir: Passos respeita solenemente a Constituição da Demência.

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Portas: o manhoso mestre da táctica política

Em reacção a tal nomeação, Portas bateu com as portas. Uma nas ventas de Passos, deixando-o nu na calçada portuguesa, outra na cara de Albuquerque, passado que foi o atestado de menoridade. Pelo meio dos desentendidos, Cavaco acendeu um cigarro ao governo: não passa nada. O dia de ontem foi o culminar da Loucura: depois de ontem – já nem sei o que chamar ao pós-ontem – entrámos em território totalmente desconhecido para a espécie humana: muito para lá da Quinta Dimensão, com uma condizente Constituição. A da Demência. Portas demitiu-se pouco tempo antes da tomada de posse de Albuquerque, colocando a cereja no topo do bolo: a cerimónia consagrou uma ministra politicamente morta, de um governo completamente morto. Qualquer semelhança com a ficção é pura realidade. Ou será ao contrário? Começo a duvidar seriamente dos meus sentidos. Contemplo com apreensão a minha compreensão. Terá tudo isto acontecido factualmente, ou terei sonhado tais peripécias, conjecturadas numa intrépida perfeição ignóbil e simplória desresponsabilização política? Tanto Passos como Portas, Gaspar, Cavaco e Albuquerque elaboraram todo um novo patamar onírico, onde a ficção engoliu a realidade e os cenários – políticos e sociais – envolventes transportam-nos para os cantos mais recônditos e lúgubres do pesadelo colectivo que nós, enquanto cidadãos reféns do Estado anti-Estado, habitamos. Esse patamar onírico vai-se materializando nas idiotices da nossa desclassificada classe governativa, erguendo as ruas do protesto através das quais somos obrigados a agir. Esse patamar chama-se a Constituição da Demência e desconfio que chegámos até aqui por termos andado a dormir.

Agora que o governo morre, acima da Quinta Dimensão, do sonho profundo e da tragicomédia, a nova desilusão abeira-se de nós, maliciosa e vindoura. Chama-se esperança; que o diga Seguro. Nós, o povo português, temos de rodar o pião para sabermos se estamos a dormir, mergulhados no sonho enganador do eleitor perdedor. Se o pião cair estatelado, estaremos acordados, prontos a repensar o nosso activismo e a nossa conduta perante a rotatividade viciada do «centrão» político. Se o pião permanecer interminavelmente rodopiante, estaremos a dormir. Gritando ao vazio, circulando no carrossel da ficção democrática, inebriados com o acessório e analfabetizados em termos cívicos. Caso estejamos a dormir, há que suicidar o sonho. A realidade não pode esperar muito mais.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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