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A política é muitas vezes − talvez mais do que seria de prever, e certamente mais do que as desejáveis – jogo de ilusões, quer ela seja feita em passos de magia e jogos de mãos quer ela se faça por detrás de máscaras gregas e palavras suspiradas nos passos perdidos do Parlamento.

Relembrando Baudrillard, «Dissimular é fingir não ter o que se tem. Simular é fingir ter o que não se tem.» A política é, então, isso: jogos de simulação e dissimulação. E Portugal, aí, não é já o bom aluno, mas o magistral professor ardiloso. E o que pode parecer elogio, está bem longe de o ser.

Vítor Gaspar tem simulado. Está demissionário há quase um ano, desde Outubro de 2012, quando a contestação à Taxa Social Única e ao aumento das contribuições dos trabalhadores subiu de tom. Mas Gaspar, antes de simular, dissimulava: desde o chumbo do Tribunal Constitucional, em Julho, tinha os dias contados e a sua saída era inevitável, embora o ex-ministro fingisse não os ter.

Cavaco tem dissimulado. Tem fingido não ter qualquer poder, qualquer papel na democracia nacional, qualquer palavra a dizer na crise que não é só económica mas também política. Fingiu não ter responsabilidades no abate da frota pesqueira e no abandono da agricultura, assim como finge surpresa por ver hoje os campos abandonados. Camufla o apoio ao governo na apatia dolente com a isenção que não tem,  assim como finge o sentido de Estado que lhe escapa fazendo a incapacidade governativa e o impasse que não te coragem de resolver passar por decisão ponderada.

Paulo Portas tem simulado, e prepara-se agora para ser dissimulado. Depois de ser a segunda ou terceira cabeça da venenosa hidra governativa, Portas, onde o corolário de simulação é atingido no âmago — cuspindo, a preceito, dentes e saliva ensanguentada — com a sua demissão, torna assim explícito o que antes estava submerso, ainda que alguns pés de fora do lençol pudessem ser pista sobeja: há muito que Portas era, no governo, visto como um estrangeiro, pouco tido em conta e curiosamente relegado para as filas de trás do governo, como se ser líder de um dos partidos da coligação significasse pouco para um governo que, de outro modo, seria de minoria parlamentar, incapaz de governar em cenário de austeridade. Mas Portas será agora dissimulado, pois fingirá não ter quaisquer responsabilidades no estado a que chegámos, nem qualquer papel na investida da austeridade sobre os portugueses. Essa via de emergência vinha, aliás, a ser preparada já há algum tempo pelo próprio, com finca-pés mais ou menos inconsequentes e, após todos os agravos à vida e aspirações dos cidadãos, pouco significantes e nitidamente populistas.

Passos Coelho, mestre fingidor, hipnotizador que se distraiu e deixou levar pelo movimento do próprio pêndulo, tem feito um pouco de tudo, vogando sem pé na hiper-realidade que criou, desarrazoado pela Racionalidade Zero, epicentro do seu suicídio político, cuja onda de choque pode inclusive arredar o PSD da vida política nacional durante vários anos, se se escapar a assinalar o Ground Zero que finalmente liberte o país deste pânico suspenso que é cada dia comatoso do XIX Governo Constitucional. Depois de toda a simulação, prepara-se agora para o último assalto de dissimulação: depois do primeiro round, em que tentou imputar ao chumbo do Orçamento pelo Tribunal Constitucional a responsabilidade pelo inaugurar da ingovernabilidade do país, preparar agora uppercut, depositando toda a responsabilidade na decisão inesperada de Paulo Portas. Porque, afinal, até aí tudo estava bem e o caminho era o da recuperação.

Mas José Seguro, nome que a habitual dança das cadeiras parlamentares – muito pouco apetitosa ou competitiva, aliás −, anuncia-se já como simulador e dissimiulador: há, por um lado, que dissimular as semelhanças de currículo com Pedro Passos Coelho, e, por outro, simular que é alternativa verdadeira, fingindo-se mais à esquerda do que efectivamente será capaz de estar.

E se o Bruno Falcão Cardoso escrevia ontem, aqui no Palavras ao Poste, que «A realidade já não precisa da ficção para absolutamente nada», eu concordo, mas mesmo concordando, inverto a questão sem que isso a destrone, pois a essência mantém-se intocada: já não há aqui qualquer realidade, mas apenas a ficção mais desbragada, ocupando o seu lugar, verdadeiro simulacro, substituição do real por uma mentira, narrativa ritual que tudo confunde e oblitera.

O risco de tudo isto, porém, é aqui óbvio, e as eleições antecipadas, que me parecem inevitáveis, hão-de dar-nos a resposta. Como Baudrillard perguntava, fechando o seu raciocínio: «O simulador está ou não doente, se produz os verdadeiros sintomas?» Afinal, toda a situação, todos os clamorosos erros e garrafais absurdos nos parecem óbvios, mas que atitude demonstraremos quando nos puserem um boletim de voto nas mãos? Já por mais do que uma vez demonstrámos como somos atreitos aos encantos da (dis)simulação. Afinal, Passos Coelho Primeiro-Ministro é produto maior desse nosso vogar satisfeito nos mares da hiper-realidade, que o real e o racional já nada têm a fazer aqui.

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Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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