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“Na TV nada se cria tudo se copia” – afirmou, há um bom par de anos, o brasileiro Abelardo Barbosa, eternizado como Chacrinha, mediático apresentador e descobridor de talentos.

Mal sabia ele que a década de 90 traria a Portugal uma versão saltitante do seu show. Com o endiabrado João Baião, nas extenuantes tardes da SIC, o Big Show Sic foi um estrondoso sucesso de audiências e de vergonha alheia. Mas não vou entrar por aí. O macaco Adriano e companhia já foram brilhantemente relembrados pelo André Cunha Oliveira no Palavras ao Poste.

Este “show” foi uma das poucas imitações de excelência que se fizeram em Portugal. O país não sabe reconhecer e explorar talentos. Adorava por exemplo, ver uma versão lusitana de “O porquinho Babe” com a Fanny no papel principal, mas falta visão a quem comanda.

A TV portuguesa sempre foi profícua em espectáculos alucinantes e deprimentes. Quem não se recorda do clássico “Malta Gira”, apresentado por Nicolau Breyner, onde os convidados espectaculares faziam coisas tão difíceis e excitantes como dar toques com o braço numa bola de praia ou partir atacadores com as mãos? Felizmente houve uma enorme melhoria nos últimos 20 anos. Devemos agradecer à TVI e aos seus realitys shows, que por arrastão salvaram a TV nacional. Programas como o Big Brother vão ajudar imenso a reformular Portugal. Principalmente nos ministérios da Defesa e da Educação, onde figuras como Gisela (Masterplan) e a Cátia (Casa dos Segredos), respectivamente, seriam de utilidade extrema neste período de reformulação governamental.

transferirQuando já pensávamos que tínhamos visto de tudo surgiram pérolas especiais como o “Salve-se quem puder”, onde meia dúzia de cidadãos vestidos com uniformes em tons de bicicleta cromada se desviam de umas paredes com formatos peculiares para evitar uma inevitável queda na piscina, que faz delirar um audiência de idosas reformadas e jovens desocupados em busca de tostões fáceis.

Nesta fase do verão a potência do sol torna até a atraente praia difícil de encarar. As férias resumem-se a um movimento giratório de sofá em sofá, de comando na mão em busca de um programa de excelência. Algo que prenda a atenção e não faça salivar o sofá ao fim de 5 minutos. A TV Portuguesa tem tanta qualidade que há dias quase morri afogado na piscina que se tornou a minha poltrona. A diversidade de opções é tanta que o difícil é escolher.

Há para todos os gostos: desde os berros da Júlia (que também ordena no “SPLASH”) ao excesso de bondade da Conceição (ama acariciar assistentes com sacos de gelo e muletas), passando pela elegância do Goucha com a estridência vocal da Cristina e terminando com o charme do Malato e com o homem que comeu o Fernando Mendes. Aquele volume todo não pode representar apenas um individuo.

De qualquer maneira nenhum desses programas fenomenais chega aos pés do grande “SPLASH”!

Este programa televisivo é a prova cabal de que nos dias de hoje filmar uma anã a molhar as partes tem potencial para atingir o estrelato. O objectivo do programa (supostamente) é fazer um concurso de mergulhos com famosos (alguns) numa piscina com pranchas de alturas distintas.

A avaliação dos mergulhos é feita por um júri especializado onde se destacam: a visão negocial de um ex nadador (patrocina os fatos de banho e ainda recebe para mandar uns bitaites sobre os mergulhos), um humorista carente (de pescoço e afecto – está sempre a querer ser amigo de todos) com o condão da moralidade e uma treinadora de nado sincronizado que além de se picar com o carente ainda não percebeu que a linguagem técnica (“flectiu ligeiramente as pernas na entrada da água”) não se aplica numa competição onde o máximo que 90% dos concorrentes consegue é molhar o rabo.

931384_542921119089808_1654921111_nO “SPLASH” é um programa de família. Para participar os requisitos são claros: homens de cabedal farto e definido ou redondos possuidores de alguma proeminência abdominal. Os primeiros para prender a atenção das senhoras e os segundos para os maridos se sentirem em forma; Mulheres com o ginásio em dia para ser filmadas em biquíni e satisfazer as mãos calejadas dos borbulhentos adolescentes nacionais. Os outros participantes por norma já são assalariados da SIC, expõem- se mais um bocadinho ao ridículo e a estação poupa em novos vencimentos. Alguns pseudo famosos e a categoria “diferente” preenchem o resto das vagas. A categoria final utiliza o golpe da diferença para vencer a concorrência. Pode ser um anão, um cego, um transsexual, um Zé Castelo Branco, tudo serve.

Nada contra cegos e anões mas fazer deles coitadinhos como forma de promoção ao programa não é propriamente uma maneira nobre de abordar as questões. A desculpa de que este circo é uma forma de promover o desporto não pega. Tanto treino para em 90% dos mergulhos simplesmente deixar-se cair na água? Realmente é uma tarefa hercúlea…

Antes do heroísmo é preciso pensar nos seus. Rita Andrade deu um belo exemplo de consciência ao rejeitar saltar da prancha de um metro, já que padecia de uma lesão gravíssima, provavelmente no cérebro, que colocaria a sua vida em risco e poderia encerrar ali o futuro do seu filho. Era um desafio poderoso. Já lhe basta andar de mini-saia a dividir sílabas com as amigas do “Fama Show”… Não há massa cinzenta que aguente. De destacar os mergulhos dos irmãos Guedes (um brilhou na piscina e outro no colchão d’água da brasileira), as bóias do Cláudio Ramos, a procura incessante de um tacho leonino pelo Paim, o meu querido Toy vestido de super-homem (já há fatos de lycra para baleias) e a bombástica Sónia Brazão que aqueceu a água com os seus mergulhos explosivos.

Este inebriante espectáculo resume-se a mergulhos, quase todos mal feitos e de curta duração. Logo 90% do programa resume-se a encher chouriços e é aqui que entram os deprimentes vídeos de apoio protagonizados por familiares e amigos dos concorrentes.

Tivemos o belo semi-documentário da filha do matador Néné com os lances de glória do pai. Para quem não sabe esta menina é a heroína do meu avô. O Dom Sérgio sugere que todos os homossexuais, heterossexuais, bissexuais, lésbicas e nomes afins que lhe lembrem mariquices, sigam o exemplo desta lady: “Operem-se!”.

Um outro bonito momento familiar foi o vídeo protagonizado pelo actor Carlos Areias em homenagem à filha Cristina. A mãe foi ignorada na película, mas a filha não se esqueceu de a realçar após o vídeo. A progenitora chamada a intervir catalogou o ex-marido como um pai ausente que não queria saber da filha, tudo isto ao lado da actual mulher do sexagenário, uma senhora de 22 anos. Uma linda salganhada familiar à portuguesa.

970443_540667922648461_1979620827_nOs momentos de entretenimento puro estão a cargo de José Castelo Branco. Uma espécie de primeiro filho a quem os pais pedem constantemente para fazer as maiores estupidezes para mostrar aos amigos. Antes concorrente e agora bobo da corte do SPLASH”: seja a mergulhar de saltos e fato de banho sadomasoquista, a desfilar de noiva ou a acariciar a múmia que desposou.

Só não percebo a insistência em ser conde. Não sabia que ser filho de camionista dava direito a essa designação. Eu como neto, filho, sobrinho, irmão e primo de carroceiros devo ser uma espécie de Líder Supremo para a malta que concede tais títulos. Tenho de me informar rápido com o Zé, pode ser que entretanto ele não resista ao sofrimento e ao enorme sacrifico que é participar neste espectáculo em que se mergulha (ou deixa-se cair) para uma piscina com vários metros de profundidade e milhões de pessoas disponíveis para me salvar.  O risco é eminente e cresce a olhos vistos e só os heróis, os tipos de barba rija, conseguem superar este momento e desligar a TV.

“SPLASH” é tudo isto e absolutamente nada em simultâneo. Um esvaziado de ideias, argumentos e qualquer réstia de cultura. Um espaço oco, deserto e que será preenchido de novo por outra porcaria qualquer. Um programa vazio mas que merece o país e televisão nacional que tem: são ambos peritos em meter água.

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Bruno GomesSONY DSC

 

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One thought on “Um SPLASH no nada

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