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Costuma-se dizer que os ataques ganham jogos mas as defesas ganham campeonatos. Um chavão que, à luz dos números, ainda não está afixado na parede encarnada do gabinete de Luís Filipe Vieira. O presidente do Benfica está à frente do clube há quase dez anos (a década de presidência fica completa em novembro) mas, a bem da verdade, existem duas fases no que a investimento diz respeito: O antes e o pós 2008/09.

Luís Filipe Vieira é a cara desta linha de investimento

Este ano, confirmando-se a saída de Garay, o Benfica ficará com uma defesa na qual investiu pouco mais de 10 milhões de euros (já com Lisandro nas contas). Para dar o exemplo do adversário directo, o FC Porto pagou cerca de 26 milhões de euros pelos laterais Danilo e Alex Sandro, oito milhões por Otamendi, seis milhões e meio por Mangala e seis milhões por Reyes. No total, às ordens de Paulo Fonseca estão defesas que custaram aos cofres do Dragão para lá de 50 milhões de euros (juntando Rolando, Fucile ou Abdoulaye). Esclarecedor, certo?

Mas a tendência não é de hoje. A vaga de maiores investimentos da era Vieira dos últimos seis anos reservou vastas verbas para centro-campistas e ainda mais para avançados. Para defesas ficaram as sobras. Camacho, Trapattoni ou Fernando Santos encontraram um Benfica ferido no seu prestígio – inviabilizando o ataque a nomes sonantes do mercado. E, mais do que isso, encontraram um Benfica com recursos limitados. O mesmo não pode ser dito dos tempos de Quique Flores ou de Jorge Jesus. Em 2008/09, o técnico espanhol chegava à Luz como novo supra-sumo dos treinadores europeus, um homem conhecedor e estudioso do jogo. Vieira não foi de meias medidas e abriu os cordões à bolsa para satisfazer os pedidos do novo técnico mas também alguns fetiches pessoais e do próprio Rui Costa. À Luz, para o meio campo e ataque chegaram Pablo Aimar (7,5 milhões de euros), Javier Balboa (4 milhões), Reyes (empréstimo e aquisição de 25% do passe por 2,65 milhões), Carlos Martins (2,4 milhões) ou Rúben Amorim (1 milhão). Para a defesa só dois nomes, um com investimento avultado (Sidnei, 7 milhões), outro sem custos (Jorge Ribeiro). Curiosamente, vendeu-se pouco nesse ano, mas a quantia mais avultada que chegou aos cofres da Luz teve origem num defesa: Nélson, vendido por 6 milhões ao Bétis. A época terminou apenas com a conquista da Taça da Liga. Cerca de 25 milhões de euros investidos, apenas 7 na defesa.

Quique Flores recebeu muitas estrelas para o ataque

Quique Flores acabou saindo do Benfica pela porta pequena, a mesma pela qual entrou Jorge Jesus (JJ), técnico português experiente mas com um currículo modesto, que não convenceu a massa associativa num primeiro momento. O primeiro ano de JJ de águia ao peito seguiu a linha da época anterior: muitos e caros médios e avançados; poucos e baratos defesas. Ramires (7,5 milhões), Javi Garcia (7 milhões), Saviola (5 milhões), Alan Kardec (2,5 milhões), Éder Luís (2 milhões), Felipe Menezes (1,5 milhões), Airton (1 milhão) ou Weldon (250 mil) geraram uma despesa acumulada avultada para a linha intermédia e ataque encarnados. Para a defesa chegaram apenas Patric (2 milhões), Shaffer (1,9 milhões) e César Peixoto (400 mil). A época até foi proveitosa, com conquista de Campeonato e Taça da Liga, mas o desequilíbrio entre o investimento total e a aposta em defesas é elucidativo: Quase 32 milhões investidos, pouco mais de 4 em defesas.

A linha seguida daí para cá foi a mesma. Em 2010/11, o Benfica reservou uns tostões para trazer Lionel Carole (750 mil), Jardel (475 mil, sendo o substituto de David Luiz que trocara o Benfica pelo Chelsea a troco de 25 milhões de euros mais o passe de Matic, avaliado em 5 milhões) e Fábio Faria (2 milhões). Pouco mais de 3 milhões de euros investidos na defesa num ano em que o Benfica encaixou mais de 76 milhões com vendas. Para onde foi o dinheiro? Maioritariamente para a aquisição de atacantes. Nicolás Gaitán (8,4 milhões), Rodrigo (6 milhões), Franco Jara (5,5), Salvio (2 milhões pelo empréstimo e parte da percentagem do passe) e Fernandez (1,5) confirmaram a tendência dos investimentos em jogadores atacantes, numa lista onde surpreende a presença de um guarda-redes contratado a peso de ouro (Roberto, 8,5 milhões).

Jorge Jesus não franziu o nariz à falta de investimento em defesas. Aliás, é o maior aliado de Vieira nesta questão: investir no ataque, adaptar para a defesa

Em 2011/12 o Benfica vendeu Fábio Coentrão ao Real Madrid por 30 milhões de euros. Encaixou ainda 8,6 milhões com a estranha venda de Roberto ao Saragoça. Foi tempo de pegar no dinheiro ganho com defesas para colmatar o buraco deixado com a saída do miúdo vila-condense? Nada disso. Para o lugar de Coentrão chegaram dois jogadores (Capdevilla e Emerson), investindo-se 2,5 milhões de euros. Ainda para a defesa chegou finalmente o verdadeiro substituto de David Luiz. Ezequiel Garay aterrava na Portela proveniente do Real Madrid, a troco de 5,5 milhões de euros. Mas desengane-se quem pense que foi ano de aposta maioritária na defesa. O médio Axel Witsel era comprado por 6,5 milhões, Enzo Pérez por 5,5 milhões e Bruno César por outro tanto. Nas últimas seis temporadas foi aquela em que se assistiu a um maior investimento em defesas (8 milhões de euros). Mas em qualquer desses seis anos, essa quantia foi ultrapassada (nalguns casos de forma escandalosa) pelo que se investiu somente em avançados. A época terminou com a conquista da Taça da Liga.

No ano passado, identificada que estava a debilidade da lateral esquerda encarnada, o Benfica reforçou-se apenas com um defesa: Luisinho, sem custos, vindo do Paços de Ferreira. Foi ele e sobretudo um avançado adaptado a lateral os que jogaram na lateral esquerda durante toda a temporada (excepto os últimos jogos onde apareceu o adaptado André Almeida, adquirido há uns tempos ao Belenenses para médio). Não havia dinheiro? Havia pois. Só em três jogadores de ataque, o Benfica investiu 25 milhões de euros (Salvio por 11, Ola John por 9 e Lima por 5). E tinha mesmo que haver, até porque foram vendidos Witsel (40 milhões), Javi Garcia (20), Bruno César (5,5 no mercado de inverno), Wass (2,5), Fellipe Bastos (1,5) ou Éder Luís (1,5). Gasto zero em defesas, muito investimento em avançados e época sem títulos.

Lisandro López custou 4 milhões, a terceira maior compra para o sector recuado em seis anos

Começada a preparação para nova temporada, não se auguram mudanças de atuação para os lados da Luz. O mercado está longe de fechar (aliás, abriu há bem poucos dias), mas o Benfica já investiu cerca de 22 milhões de euros. Em defesas, apenas 5 milhões: Lisandro López chega por 4 milhões para colmatar a mais que provável saída de Garay por uma volumosa quantia; Mitrovic por um milhão. Defesa esquerdo nem vê-lo (fala-se em Sílvio, sem custos, claro). Avançados e extremos a rodos. Títulos? Veremos, mas os exemplos não são famosos.

Ao todo, o Benfica investiu 27 milhões de euros em defesas nas últimas seis temporadas. Uma média de 4,5 milhões de euros por temporada, claramente inflacionada por três nomes: Sidnei, Garay e Lisandro López representaram um investimento conjunto de 16,5 milhões. E se as contas não me falham, o clube gastou 165 milhões de euros nesta meia dúzia de anos. O investimento em defesas representou apenas 10% do investimento total na equipa.

A justificação mais fácil que se tem encontrado para este investimento desenfreado em jogadores do meio campo e ataque centra-se no argumento falacioso de que só estes poderão dar retorno financeiro numa eventual venda futura. Também aqui, mais do que a minha opinião, são os números quem mais ordena. Nas seis temporadas em questão (as tais de maior investimento), algumas das maiores vendas registadas pelo Benfica foram mesmo de jogadores do setor recuado. Fábio Coentrão saiu por 30 milhões e David Luiz por 25 milhões (com Matic no negócio), naquelas que são duas das melhores vendas da história do clube. A estes juntam-se Nélson (6 milhões), Sepsi (2,5), Halliche (2,5) ou Daniel Wass (2,5). Foram quase 70 milhões encaixados com a venda destes jogadores. Vale a pena dizer para onde foi a fatia de leão?

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