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Ando há dias a pensar que isto do Gaspar se demitir depois de acusar a chuva pela falta de investimento em Portugal, vindo depois o calor desproporcionado festejar e prová-lo errado, há-de ter qualquer coisa a ver com as previsões imprevisíveis do ex-Ministro para as nossas finanças comuns e com os desacertos meteorológicos que se encarregaram de alvitrar um dos Verões mais frios da história.

Estava hoje todo abalançado a construir uma ficçãozinha sobre isto quando me lembrei de que ontem, às 20h30, o Cavaco falava ao país. Gritei um Parem as máquinas! sofrido, levantei as mãos do teclado, e fiquei na expectativa, depositando o olhar naquelas portas brancas e naquela sala de um mau-gosto desconfortável  que mora no Palácio de Belém.

Confesso até que, enquanto esperava, comecei mentalmente a alinhavar as traves-mestras do texto; do Presidente da República, manda o hábito não esperar surpresas. Cavaco, porém, surpreendeu. A questão parecia dividir-se entre a convocação de eleições antecipadas e a manutenção do governo de coligação PSD-CDS. Cavaco, num gesto de loucura, arranjou forma de não permitir nenhum, mas escolher ambas.

E se numa primeira parte do seu discurso, a mais longa, argumentou incessantemente, como esperado, contra a realização de eleições legislativas já em Setembro – assim ao jeito de quem sabe que esse é o caminho mais acertado e, portanto, aquele que mais se impõe contrapor −, a segunda parte surpreende pela aparente inocência política de Cavaco, por uma curta e ingénua visão de como as coisas se poderão passar.

As ideias de Cavaco assentam em três pontos:

(i) As eleições criam instabilidade política e angustiam os mercados – porque, felizmente, actualmente o clima governativa é de grande coesão e estabilidade e os mercados estão serenos −, e seria impensável ficarmos com um governo a prazo nos próximos 90 dias. Entende-se bem o âmbito da proposta de Cavaco: carimbar na tampa do Passos a validade de 300 dias e esperar que os mercados não reparem. Porque aí Cavaco incorre em novo erro, e com cinco minutos de declarações pode comprometer aquilo que se passará daqui a um ano, altura em que se promete a saída de Portugal do programa de ajustamento. Sei muito pouco dos mercados e das finanças, mas se eleições hoje, quando estamos amarrados a um programa internacional que condiciona as nossas políticas e, por isso, nos impede de tomar determinadas opções, geram instabilidade, o que pensarão disso os nossos credores e aqueles que poderão investir no país quando, assim que nos virmos livres das grilhetas e das algemas, convocarmos eleições antecipadas?

(ii) Fingindo-se preocupado com a “Salvação Nacional”, coisa na qual ele próprio nunca teve papel, Cavaco está, como é bom de ver, preocupado com a Salvação Partidária: chamar o PS ao governo para tentar salvar o PSD, para que o Passos possa dizer que sim, que foi além da troika, mas que o PS esteve consigo nessa decisão, e assim amainar o soco no bucho que a direita há-de levar na próxima série de eleições. O PS não pode aceitar este convite para o “entendimento”, facada brutiana mascarada, pois que ele não é mais do que um eufemismo para a compra de um assento no governo pelo singelo preço do abdicar das convicções.

(iii) Mas há ainda uma nuance discursiva que importa realçar e que marca indelevelmente o carácter de Cavaco. Depois de estender um braço ao governo, para que lá para os lados de São Caetano não o considerem traidor, Cavaco luta consigo mesmo, tentando com a outra mão empurrar o gangue do Passos. Porque Cavaco sempre foi assim. Para ele, onde se traça a linha é na sua Salvação Pessoal, no esforço por transmitir a imagem de que, no fim, nada disto foi culpa sua. Ele fez tudo bem. Sempre. Talvez tenha tido o azar de ser Primeiro-Ministro do país durante dez anos, Presidente da República por quase outros tantos, e Ministro das Finanças. Talvez tenha tido o azar de estar ligado ao Estado a que chegámos, como dizia o Salgueiro Maia, desde os anos 80, e de continuar ligado a ele. Mas Cavaco fez sempre tudo bem. Nunca se calou quando devia falar. Nunca falou quando devia estar calado. Cavaco não erra. Cavaco, se um dia a história for justa, fez pautar cada decisão sua pelos superiores interesses da nação.

São espantosas, as virtudes do Alzheimer.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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One thought on “Cada Cavacada, cada minhoca

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