Home

Um rapaz chamado Diogo foi a uma entrevista de emprego. Na verdade, não era este o termo mais preciso: tratava-se de facto de uma entrevista, mas não para um emprego. A proposta falava de um “estágio” e, como bom português que é, Diogo sabia que no seu país um estágio não é um emprego. Ainda assim decidiu tentar a sua sorte e no decorrer da segunda conversa com a suposta entidade empregadora foi selecionado para a respectiva vaga. Uma aparente boa notícia, que dois minutos depois ganhou contornos de um espectáculo de stand-up comedy: o responsável pelo recrutamento falava de 150 Euros mensais por um full-time das 09h às 18h durante um período de 3 meses. Salário, subsídios, ajudas de custo. Muitos nomes se poderão atribuir a este valor, mas o Diogo chamou-lhe apenas de esmola. Recusou a oferta e foi-se embora.

A decisão do Diogo foi irrevogável, muito mais que a outra de Paulo Portas, mas não teve consequências práticas. Sentado no cómodo trono daqueles que são assalariados, o homem disse sem compaixão que inúmeros são os que se esfolam por um lugar semelhante àquele por ele sugerido, capazes de aceitar sem pestanejar aquelas condições ou até outras ainda menos dignas. A normalidade com que proferia tais palavras era aterradora e acentuava-se mais ainda com as referências aos outros “estagiários da empresa”, como estes se tratassem de ovelhas que obedecem às ordens do seu pastor sem contestar, e no fim ainda ficam sem a lã.

O Diogo saiu daquele sítio envolvido por um sentimento que misturava a revolta e a indignação. O que mais o revoltava não eram os humilhantes 150 Euros que lhe haviam sido propostos, mas sim o facto de saber que o homem tinha razão. Depois de se ter recusado a trabalhar naquelas condições, Diogo sabia que não seriam necessárias 24 horas para que aquele lugar fosse preenchido por um qualquer licenciado a salivar por um miserável estágio não remunerado, que entraria naquela empresa com a esperança de obter um contrato de trabalho e ao fim dos três meses seria posto na rua com duas palmadinhas nas costas para dar lugar a um outro com os mesmos propósitos e ambições utópicas. E desta forma, de trimestre em trimestre, aquela empresa vai regulando a sua actividade e acumulando riqueza com base na precariedade infligida a um cada vez mais amplo leque de estagiários desesperados, dando corpo a uma prática social desumana que se assemelha a uma outra há muito proibida por lei.

Mas Diogo não. Depois de já ter cumprido um estágio curricular de 4 meses sem que nada lhe tivesse sido pago, ele recusa-se em voltar a alimentar este sistema moderno de escravatura. Fá-lo por uma questão de princípio, por não querer contribuir para a fermentação de uma realidade precária produzida pelos recém-licenciados à procura de primeiro emprego que se volta contra eles próprios. Diogo sabe que são estes jovens os principais culpados desta situação, são eles que ao prestarem os seus serviços qualificados de forma totalmente gratuita estão a dar mais um empurrão a um camião que já circula em excesso de velocidade e sem travões. Se o continuarem a fazer, esse monstro vai acabar por atropela-los um a um fazendo-os saltar de estágio em estágio, sendo que tal realidade se irá transpor para todos aqueles que ainda ambicionam ter um curso superior. Se o dinheiro é a grande tentação do homem e a obtenção do lucro a maior máxima das sociedades contemporâneas, por que motivo haverá uma empresa de pagar um salário a um trabalhador contratado se existe a possibilidade de recrutar sucessivos estagiários com custos quase nulos?

A resposta é simples, e os empresários conhecem-na melhor que ninguém. A legislação é branda no que toca a estas questões e permite quase tudo, o que faz com que até empresas com receitas na ordem das centenas de milhares de euros ganhem o desplante de oferecer a “oportunidade” de trabalhar de graça a jovens que estudaram pelo seu futuro durante pelo menos 15 anos. Ao contrário do Diogo, estes novos talentos vão permanecer resignados à força da exploração, empenhados em colocar mais um prego num caixão que levará a médio prazo esta geração à miséria. Num país onde sobreviver já é um privilégio, o futuro será humilhante, pouco digno e muito aquém de todos os sonhos acarretados pelas suas gentes mais novas. Mas talvez o de Diogo venha a ser ainda pior.

GOSTOU DESTE ARTIGO? ENTÃO ENTRE
EM https://www.facebook.com/palavrasaoposte, CLIQUE ‘GOSTO’ E
ACOMPANHE OS ARTIGOS DIÁRIOS DO PALAVRAS AO POSTE! 

Diogo Taborda desenhoDiogo Taborda

Anúncios

3 thoughts on “Um licenciado, um estágio, uma esmola. Que futuro?

  1. há que reagir de outros modos: aceitar o emprego e aproveitar para, primeiro, inquirir as verdadeiras condições de trabalho dos seus colegas (fazer um autêntico relatório), depois sacar (se possível) informação relevante sobre a empresa (responsáveis, contratos, clientes, facturação, despesas, etc.), terceiro sair ao fim de 1 mês ou 2 e denunciar tudo. Só assim esses cabrões começarão a ter vergonha e medo! 😀

  2. Discordo Hugo. Temos é de reagir, através de manifestações e exigir ao governos, que seja imposto um qualquer tipo de lei, que obrigue as empresas a pagar pelo menos metade do salário mínimo.

  3. Diogo, junto-me a vós..eu e outros estagiários de mais de 30 anos (tenho 31) estamos na mesma situação, com a agravante de sermos mais velhos. É preciso acrescentar tambem esta questão. Incentivam os maiores de 30 a estudar no ensino superior, e… teremos carreira? Durante o curso fala-se de carreira, mas eu vi o pais a declinar no fosso cada vez mais. Apesar de tudo, trabalhei e estudei em simultâneo, foi dificil, mas continuei, com grande esforço. Tal como voces, queria aprender e melhorar o meu futuro. Tentei, mas Portugal está como está. Quer tirar do fosso o país com qualificados a trabalhar de graça, ou por uns tostões? Para além dos jovens sem futuro, a saltar de estágio em estágio, alimentando a grande máquina capitalista, junte-se lhe também os de 30, 40 e mais. Servimos para as estatisticas, para dizer que Portugal está a subir nas qualificações dos seus cidadãos. Bonita figura perante os outros países, os tais, os evoluídos… Alguns de nós, com mestrados e licenciaturas, ganham na melhor das hipoteses, e já com um curso superior, 500 ou 600. Ok, se fosse por um ano ou isso, um tipo até aguentava, porque depois as hipoteses melhoravam, apareciam concursos e tal.. (antigamente era assim…). Mas está tudo parado. E depois? E há trabalhos que até são bons para o curriculo, trabalhos onde se pratica…mas, e depois? Estágio atras de estágio, até quando? (já para não falar do duro desemprego…) Quando teremos uma vida, quando chega a nossa vez de ter uma carreira? Talvez nunca. E se eu, com despesas de casa para pagar, e um miudo para criar, já dou voltas e voltas, com 400 ou 500, imagino quem recebe 150 ou 200 ou mesmo nada! Era fundamental que pelo menos, e por respeito e dignidade, todos os estágios fossem pagos…em vez da máquina se aproveitar dos jovens e dos outros ainda algo jovens, desesperados para poder ter algo no curriculo que não seja “call center” ou “loja de pronto a vestir”…assim não dá Portugal, assim não dá…!!!!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s