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É uma relação despida de pudores e preconceitos. Michael, de 15 anos, vive os seus primeiros momentos carnais, no apartamento simples e austero de Hanna, a mulher 21 anos mais velha que ele. Em troca das suas primeiras tardes de prazer, cede-lhe momentos de leitura, onde declama, com cuidado, passagens dos clássicos de Dickens, Goethe e Homero. Uma experiência consentida e assente na troca de prazer. Ele, porque o busca fisicamente. Ela, porque o consegue nas suas palavras. Num espaço estranho aos olhares mais puritanos.

Falo-vos do filme “O leitor”, protagonizado por Kate Winslet (para mim, um dos melhores talentos nascidos em Hollywood nas últimas décadas) e em que o seu desaparecimento na narrativa dá o fim abrupto a esta relação. Voltam-se a cruzar, sete anos mais tarde, os olhares dos dois protagonistas, num cenário mais austero que o antigo apartamento. Encontram-se num dos julgamentos das atrocidades nazis cometidas durante a 2ª Grande Guerra. E Hanna está sentada no banco dos réus por, enquanto colaboradora da SS, ser responsável pela morte de centenas de judeus, num “acidente”ocorrido numa igreja. Michael reconhece-a, investido na sua posição de estudante de direito, que ali se encontra a assistir ao julgamento.

E assim se vê confrontado com a obrigatoriedade de assistir à culpabilização daquela que já havia sido sua amante. Que agora despreza, pelos acontecimentos decorridos desde o seu último encontro. E que acaba por ser declarada culpada, pela assinatura de um relatório sobre a noite do crime. Apenas um pormenor encerra a força dramática desta cena: Hanna não sabe escrever, nem sequer assina o próprio nome. E, assim, se desconstrói o seu interesse sobre a leitura de Michael e se percebe que uma inocente é condenada, por não poder ter assinado o relatório que serve de prova ao crime. É o captar do conflito emocional da protagonista, que prefere a condenação, a admitir publicamente o seu analfabetismo. Que escolhe a vergonha de um crime de guerra, à vergonha de admitir publicamente a sua carência educacional.

Esta não pretende ser uma crítica cinéfila. A narrativa vale pela transmissão de valores que encerra. Porque não me parece possível, do prisma da realidade actual, que a vergonha do analfabetismo fosse capaz de deter tamanha força. E se é verdade que a percentagem de analfabetos é, felizmente, cada vez menor na realidade ocidental, também é verdade que assistimos, actualmente, a um novo paradigma. O de indivíduos que chamamos letrados, porque aprenderam o abecedário, mas que não sabem escrever. Mais preocupante, é a aparente falta de preocupação pelo exercício tão fundamental, que é o de escrever. Tão importante como contar, como falar, é importante que se escreva e que se queira escrever bem.

Contudo, o dever contraria a realidade. E deparamo-nos com o antagonismo de ter uma mão-de-obra cada vez mais qualificada, cada vez mais licenciados e, por outro lado, escrevermos cada vez pior. É um facto, escreve-se mal em Portugal. Com erros ortográficos, incoerências semânticas, palavras saídas do imaginário de quem escreve e a despreocupação complacente de que lê. Como se tivesse sido inserida uma nova realidade compreensiva do Português, em que cada um escreve e lê como quer. E assim nos vamos entendendo, nesta barafunda linguística, com esforços olímpicos de compreensão.

Resultado: Uma média histórica de 8,9 valores nos exames nacionais de Português realizados na 1ª fase. Não conheço a vossa posição, mas, quanto a mim, mais que vergonhoso, este é um resultado inadmissível. Como se nunca tivesse sido aplicada tão bem, a palavra inadmissível.

Depois, surgem rapidamente as desculpas. São os professores, é a matéria de grau elevado de dificuldade, o novo Acordo Ortográfico… Desculpas e meras desculpas. Porque o primeiro erro está em atribuir ao português a categoria de “competência”. O Português não é uma competência, como a Matemática ou a Química. O falar bem Português é, ou deveria ser, uma obrigação natural, enquanto seres que comunicam no espaço geográfico e linguístico da Língua Portuguesa.

Falta brio. Falta respeito. Falta a vergonha de Hanna em “O Leitor”.
E, por isso, vamos prosseguindo nós: Sem saber ler, nem escrever.

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Mara desenhoMara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste».

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