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«Abram alas para Seguro»…mas com calma.

Seguro é um homem seguro – redundante portanto, em si mesmo circundante, homem de palavras pululantes, de significados esvoaçantes. Diz que diz e torna a dizer, mas o único efeito dos seus dizeres é que mais ficou por dizer. Quero dizer, no essencial, apenas se disse o colateral. Ora, no essencial faltou o essencial – Seguro é uma espiral. De aliterações, de assonâncias, de meias opiniões, de vacilantes discrepâncias: sim, porque jogar pelo seguro (ou jogar pelo Seguro) é ser ambíguo. Dá-se uma no cravo outra na ferradura. Reza-se por chuva na eira e ao mesmo tempo por sol no nabal – Seguro é um rodopio num sem-fim de uma espiral. Sem pontas soltas, sem letras rasuradas nem políticas desmesuradas. Seguro é pai do seu adjectivo. Corrijo-me: seguro é pai de Seguro, pois que Seguro é produto de seguro, que é como quem diz: o substantivo próprio de Seguro é tão próprio de si como o adjectivo que define, tanto o homem como a característica.

Como se Seguro tivesse sido idealizado e logo a seguir parido, pelo adjectivo. A questão é tão cosmogónica – atenção a esta dramatização universal – que um poderia interrogar sobre quem terá, afinal, surgido primeiro: seguro, o adjectivo, ou Seguro, o homem substantivo? Poderíamos até adensar-nos no pântano metafísico, centrando a questão num modo «shakespeariano»: ser seguro ou não ser Seguro? Eis a questão, a pertinente questão. Talvez no fim todos cheguemos à conclusão de que é impossível a Seguro ser algo que não é, num aí indubitável desfecho à moda do filósofo grego Parménides: o que não é não pode, nunca, vir a ser. E Seguro não pode nunca vir a ser um aventureiro arrojado. Não pode, simplesmente, ir contra o pré-determinismo que o seu próprio nome encerra. É por isso que, no seu âmago, Seguro é uma redundância: de nome e de estilo – Seguro é seguro. E esse é o grande problema.

Porque Portugal já viu do que Seguro é capaz. Portugal já lhe conhece os compassos, as esperas, as relutâncias e as banalidades. O país que se vê a braços com uma matilha de desgovernados, tem a maior desconfiança para com o líder do Partido Socialista neste período pós-socrático, em entretantos socráticos transmitidos no canal público. Pouca gente vê em Seguro alguém capaz de mudar o rumo da política portuguesa: Seguro é tão seguro que, na táctica amedrontada de velejar até ao poder, se torna previsível, trivial, dúbio e repetitivo. Pouco acrescenta, nada idealiza, sempre na expectativa do erro, que, diga-se em abono da verdade, trata de capitalizar muito pouco, ou não fosse este o Governo ideal para fazer oposição – é preciso é frontalidade e ruptura. Mas Seguro quer vencer pelo cansaço. Seguro quer «fazer política» pelo seguro, personificando a continuidade, estando longe de convencer o eleitorado. No fundo, Seguro quer ir lá pelo seguro.

Aprofundando-se – e afogando-se – numa política reactiva de sobras e ressaltos políticos, Seguro tem uma liderança periclitante num tempo onde a firmeza de ideias e a rectidão de uma força alternativa seriam o mote para, no mínimo, abalar o circunstancialismo que grassa pelo panorama político nacional. Mas não. Enredado num PS ambíguo que deu a mão à Tróica em 2011 e que se debate para fugir da colagem a esse memorando catastrófico, Seguro vota moções de censura ao Governo enquanto mandata os seus para negociar um «sabe-se lá bem o quê» com o resto do arco da desgraça governamental. Todos sabemos  que com Seguro podemos estar seguros que a austeridade mandatada pelas instituições internacionais irá continuar – ele assegurar-se-á disso, como bom executante da sua própria arte, a arte de segurar e assegurar o péssimo estado de coisas a que chegámos.

Para que nos apercebamos antes, e não nos embrenhemos credulamente em acusações ao pobre do Seguro: o homem não engana ninguém, está na cara que a sua dama é a mesma de Passos e companhia – a fidelidade fanática aos credores. O seu disfarce é fraco, mas a sua táctica é o truque mais poeirento dos livros: Seguro espera, como os abutres, pela morte de uma presa que nem sequer persegue. Ele tem tempo de sobra para chegar ao poder. Tem tempo, tem nome e tem adjectivo. Tudo a favor. Este Seguro morrerá – como o seguro – de velho.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

One thought on “A arte de ser Seguro

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