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Não sou um ocasionalista. Não acredito, por isso, que tudo esteja ligado a tudo, nem que o destino exista ou tenha uma veia especialmente talhada — caso em que o destino se esvairia em sangue, talvez sobre uma banheira branca e com um copo de vinho tinto ao lado — para a ironia. E se é certo que determinadas causas têm determinadas consequências, não me parece legítimo que nos abarbatemos de tudo quanto se passou antes para justificar o que agora surge. Dito isto, não me incomoda, por isso, ver como meras coincidências a simultaneidade do espaço-tempo que diferentes acontecimentos por vezes partilham quando escolhem acontecer, encontrando-se, ou a ironia de que muitas vezes acabam por se revestir, quando analisados em conjunto.

É claro que a estratégia inversa é menos penosa, e retira-nos, aos Homens, os constrangimentos que os seres capazes de auto-determinação por vezes experimentam, quando devem lidar com indecisões e decisões de amplos impactos. Está bom de ver, de resto, que seria bem mais fácil responsabilizar o aparecimento do universo e o meteorito que terá extinto os dinossauros pela crise económica que hoje vivemos, ou apontar o dedo às amoebas e às mitocôndrias, aos neandertais e aos cro-magnons, aos gregos e aos romanos, e a toda essa gentalha que se veio seguindo em fila, pois se por eles viemos dar àquilo que somos hoje, também há essa multidão dispersa de ter a sua dose de culpas na crise política que por estes dias vive o país.

É muito necessário atribuir o número certo ao cavalo certo, de forma esclarecida e consciente. Porque as coisas têm causas geralmente possíveis de destrinçar, e cada jogada, sobretudo nesse desporto radical que é hoje a política — por vezes fintando as capacidades do corpo e a lógica da mente, desafiando a gravidade, a sustentabilidade e, porque não, também a verdade –, devem ser analisadas fora do discurso e das interpretações dos políticos, que, para cúmulo, são hoje também os nossos politólogos. Que transparência esperar de um sistema tão ardilosamente arquitectado?

Cavaco, vogando na sua fragata em direcção às Selvagens, quiçá assobiando como um pequeno barqueiro do Volga cortando a bruma, novo-colono à descoberta do que já se conhece, vestido para a ocasião mais do que para a acção, confessou-se feliz e esperançado aos jornalistas, encontrando “sinais e mudanças muito positivos”, alguns de “significado histórico”, nas conversações trilaterais entre PSD, CDS e PS — nova troika? E a crer nas palavras de Marx, de que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa, depois da tragédia da austeridade que já sofremos, resta-nos agora esperar pela farsa. Poderemos até fingir surpresa, se tal nos agradar, mas tendo em conta os intervenientes, é ameaçadoramente estranho o acerto das palavras de Marx.

É aqui que importa responsabilizar os indivíduos, e é aí que se encontra a importância de, ali acima, termos ilibado o universo e os dinossauros. Porque a política, em Portugal, tem também os seus monstros pré-históricos, os seus meteoritos e detonadores, os seus crimes e as suas vinganças. Cavaco é, aí, peça fundamental, agente-duplo capaz de envergonhar a própria Mata-Hari. Um homem que desde o início da sua vida política foi contra o esquema governativo do Bloco Central, tendo o próprio sido fundamental na dissolução do mesmo em meados dos anos 80, é hoje o responsável pela tentativa da sua concretização, em versão revista e aumentada pela presença do CDS. No barco pirata, porém, o Presidente não é o único a usar gancho e perna-de-pau, e certamente não é o único a dar uma marradinha no leme, atirando com a embarcação para parte incerta, quando calha passar na ponte de comando. Faltando ainda saber no que resultarão as negociações trilaterais, é desde logo um rombo na esperança de que as palavras ainda tenham valor na boca de um político ver o PS aceitar sequer dialogar. Seguro, pouco seguro, de si e de tudo o resto, como ontem o Bruno Falcão Cardoso aqui escreveu, deixa o sonho de ser governo falar mais alto, toldando-lhe o espírito e fazendo-o cair na esparrela que Cavaco, com elasticidade surpreendente para a figura hirta que é, lhe estendeu. Mas isso não nos deve espantar. Como no programa Contrapoder outro dia se anunciava, Seguro pode apenas ser Sua Excelência, aquele choninhas da oposição. E como ao aluno querido da professora todos batem, Jerónimo de Sousa, naquela pele de marinheiro curtida pelo sal e pelas tempestades, puxou também da culatra atrás para lhe disparar um tabefe e roubar os óculos enquanto foge pelo recreio. Algum conselheiro mais experiente terá dito a Seguro que para remendar a borrada crítica de se sentar com PSD e CDS, a solução seria sentar-se com os parceiros da esquerda, numa de mostrar que dialoga com todos para conhecer as melhores opções do país, no melhor interesse dos portugueses. O palavreado poderá não ser bem este, mas será por aqui. O PCP, porém, fez-lhe o manguito que o povo já pedia, precisamente por não aceitar que Seguro vista uns véus e dance o ventre com todos os indivíduos que lhe aparecem pela frente. Em todo o caso, arrisca-se também o PCP a ficar mal na figura, e retirando-se desde logo do palco poderá vir a ser acusado de não ter tentado levar à cena a performance da esquerda.

Por tudo isto, parece-me ser o BE quem, por estes, dias, actua com mais clareza e consciência, mas no carrossel desregrado que a política em Portugal vai sendo, torna-se difícil fazer previsões, ou não perder o pé a cada nova vaga de acontecimentos.

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Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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