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Aquele era um mundo ao contrário. As pessoas andavam com a cabeça para baixo e as pernas para o ar, comiam quando não tinham fome e nada faziam quando o apetite aparecia, vestiam-se no verão e andavam com pouca roupa no inverno, nasciam velhas e morriam novas. Aquele era um mundo estranho, onde a normalidade residia em amar o amor e odiar o ódio, acarinhar o carinho e violentar a violência, conservar a amizade e evitar o cinismo, saber perdoar e pôr de lado a vingança, desprezar a ganância e promover a partilha, zelar pela paz e não praticar a guerra. Aquele era um mundo especial, restrito, impenetrável, e só existia naquele lugar.

Era uma realidade irreal que se propagava pelas mais variadas esferas da experiência humana. Na ciência os investigadores trabalhavam sempre para salvar mais uma vida, no desporto os atletas de alta competição actuavam por amor à camisola e à pátria que representavam, nas artes os artistas preocupavam-se em produzir cultura suscetível de ser apreciada pelo público, na imprensa os jornais retratavam a realidade, no trabalho os patrões repartiam a riqueza e promoviam o bem-estar dos seus colaboradores. Na política os políticos pautavam as suas acções a pensar nos cidadãos que governavam e na justiça os juízes prendiam os criminosos e libertavam os inocentes.

Naquele mundo, a utopia era alcançável e o impossível concretizava-se. Um sitio onde o sonho era físico, presenciado no aqui e no agora, e ninguém queria dele fugir. A felicidade pairava no rosto de cada ser, os problemas superavam-se com persistência e positivismo, a vida era levada sem agonia; vivia-se a vida com vontade de viver. A morte chegava com tranquilidade, com a consciência de se ter aproveitado a existência física da melhor forma, deixando um fruto simbólico no espirito daqueles que ficam e propagando o bem de geração em geração.

Aquele era um mundo ao contrário, o avesso da normalidade. Um mundo possível mas inexistente, sufocado pela repugnância de uma natureza humana dotada de um espirito maléfico que a conduz à sua auto-destruição. É por isso que olhamos à nossa volta e tudo nos parece errado, recriminamos os outros por actos que nós próprios praticamos ou praticaríamos, vivemos em permanente convívio com o medo a miséria que nos rodeia, e a única certeza que possuímos é a de que o futuro será tão incerto como a incerteza do presente que hoje presenciamos. Queremos fugir mas não sabemos para onde, culpabilizamos um sistema global de práticas e valores que é criado por nós próprios e dizemos, com a cobardia que nos caracteriza, que nada podemos fazer que não seja adaptarmo-nos a ele. Ao lermos este texto, não nos identificamos com tal caracterização da espécie humana, dizemos para nós próprios que somos boas pessoas, sentimo-nos revoltados com as palavras do autor e insultamo-lo por nos sentirmos insultados, mas sabemos que aquele mundo ao contrário, o tal que já só existe em sonhos quase extintos, é em tudo contrário àqueloutro real por nós produzido, e de repente ganhamos uma vontade enérgica de para lá viajar; mas não temos como ir, não temos como fugir. E por aqui ficamos, só mais um bocadinho, até a história acabar.

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Diogo Taborda desenhoDiogo Taborda

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