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imagesO governo de Portugal e o Portugal em si governado, dariam um filme. Um de proporções dantescas, diálogos enviesados, cambalhotas nunca antes pronunciadas e montagens nunca antes tentadas na indústria dos efeitos especiais – a realização de Portugal seria um desafio épico ao género da «ficção científica». Já a narrativa do mesmo figuraria como uma das maiores contendas à exequibilidade de um guião coerente: Portugal é um filme que conta a história de um mau guião para um filme. Intrincado em demasia? Ora, Portugal é um filme que conta a história de uma história mal contada que, eventualmente, acabará por dar em filme. Ainda confuso? A mais não é obrigado porque menos não lho é permitido: Portugal é um filme sem realizador, escrito em cima do joelho por um grupo de intelectuais chumbados e interpretado por uma alcateia de suínos ladrões. Sim, uma alcateia de suínos – eu disse que a realização de Portugal seria um desafio épico ao género da «ficção científica».

A narrativa é a reprodução de um país nos ácidos, onde os diálogos institucionais se enrolam numa montanha-russa de novelos e nós cegos que atingem velocidades estonteantes. O surrealismo é tão denso que nem a objectividade do dicionário pode ser de grande ajuda: os significados não existem, foram esvaziados de conteúdo, e por conseguinte, as palavras de pouco servem, senão para de nada servirem – uma espécie de rococó metafórico-estrutural. Assim, todo o edifício narrativo é sustentado na espampanante arte de dizer tudo tão assertivamente sem nada querer dizer absolutamente: Portugal é um «Great Gatsby» da pompa e circunstância, da sumptuosidade governamental, da lírica retórica da trapacice, dos fundos sem fundos infundados, das luzes e da maquilhagem do teleponto, da cordialidade dissimilada dos bastidores, dos falsos afagos coligados e dos «agarrem-me que vou-me a eles» salamaleques. Paulo «submergível» Portas esperneou aquando da tomada de Albuquerque. Os banqueiros esperneiam pela podre estabilidade dos seus juros. Seguro esperneia a tempo inteiro (com calma…) e Passos esperneia cada vez que o défice embaraça a bíblica austeridade. Mas tudo permanece. Portugal engana tanto que já não engana ninguém.

Gaspar demitiu-se e armadilhou a carta de despedida. Um dia depois Portas saltou do barco, perspectivando a desmarcação política e ligando Passos ao ventilador. Passos sucumbiu mas puxou Portas para a desgraça, com o raspanete paternal do omisso Cavaco da República. A coligação manteve-se, os juros tocaram o sol e o país susteve-se numa apneia vigilante. Governo desgovernado ou a antecipação do Seguro desgoverno que se segue? Cavaco respondeu: nem sim nem sopas. Rejeitou a remendada remodelação e chamou o PS para um «compromisso de salvação nacional» com eleições antecipadas no horizonte de 2014. Portugal susteve a respiração até ficar roxo: Cavaco conseguira, no meio da insanidade indecifrável, dar um chuto na cabeça da moribunda racionalidade. Uma proeza portanto. Que queria o sujeito de Boliqueime afinal? Eleições antecipadas? Não. Ver a coligação cumprir o mandato até o fim? Não. O meio-termo, dir-se-ia, com o PS à mistura: uma espécie de «Expendables», onde a malta famosa se reúne para relembrar os velhos tempos, escavacar e rebentar com coisas e provar que ainda estão em forma. Seguro roeu a corda do acordo para segurar o partido – que não o seguraria a ele em caso de colaboração tripartidária – e o tal imperativo compromisso foi abaixo. A câmara apontou desde logo para Cavaco da República: que faria ele? Nada. Como bom mestre do rococó metafórico-estrutural, nada. No fim, tudo ficou como estava – Cavaco encenou um «agarrem-me senão vou-me a eles e meto-os na ordem» para depois viabilizar o que fora a remodelação proposta por Passos e pelo Portas capturado, que se escandalizou – e fugiu – com a nomeação de Albuquerque mas que agora até sorri para a mulher exótica em pleno parlamento.

Por entre todas as peripécias desgarradas, a treta estrutural continua de vento em popa. Todos falam sem articularem verbos, a todos cabe uma deixa sem ideia, um golpe de Estado sem Estado e um estado de sítio num sítio nunca antes realizado. Portugal é único: consegue ser um lugar-comum ainda por identificar; a treta é sempre a mesma e, no processo de nada acontecer, tudo gira e tudo acontece, e a monotonia nunca nos pára de surpreender. É estranho de meter medo. Portugal é um tudo-nada. Romance merdoso de meia-tigela, comédia hilariante, «thriller» previsivelmente aborrecedor com efeitos especiais de ponta. Pior: é uma tragédia de final aberto.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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