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Fim-de-tarde, Chiado.

Esperava por amigos à esquina da Livraria Sá da Costa, cuja execução foi recentemente decretada, quando o tac tac mecânico, martelado de uma máquina-de-escrever saiu à rua através de uma das janelas que encimam a loja. Alheio ao quem e ao porquê que batia texto naquele modo anacrónico, não pude deixar de pensar como era aquele um tão oportuno requiem para a centenária Sá da Costa, tocado por algum esvoaçante ser etéreo no andar de cima, velando aquele corpo de alvenaria que, sintomaticamente, se preparam para enterrar, no piso térreo.

Nunca a Sá da Costa esteve tão nas bocas do mundo como por estes dias. Há, em nós, a atracção pelos seres extintos, ou pelo menos em extinção. Por natureza — e não por nacionalidade –, encontramos prazer em chegar atrasados às situações que urge resolver, ou salvar. A petição que tem circulado na internet é boa prova disso. Não me interpretem mal. A petição é legítima e prova da importância que alguns portugueses ainda atribuem à Cultura, e mal termine estas linhas também eu irei subscrevê-la — ainda que com medo, talvez, de que as minhas lágrimas, não muito diferentes das de crocodilo, possam acabar por desfazer a tinta fina e apagá-la, diluindo-a, nos filamentos do papel — mas, ao fazê-lo, não deixo de me sentir um desses famosos — e nem isso sou — que ocasionalmente se juntam para gravar uma musiqueta em favor dos pobrezinhos, dos sem-isto ou sem-aquilo, e que saem do estúdio satisfeitos, julgando o dever cumprido. É tal a natureza da estéril caridadezinha, ou da participação pública no sofá.

Mas eu também me declaro culpado. Eu, que a quem me perguntar só falarei bem da Sá da Costa, e que até já nela fui entrevistado por ocasião da publicação do meu primeiro livro, também sou culpado. Afinal, quantas vezes não a preteri em favor da Bertrand, uns passos mais abaixo, que insiste em açambarcar o título de pérola das livrarias mais antigas da capital, e que no seu ventre emadeirado ameaça subir ao Largo e tragar o Camões, nos corredores de nau abaulada que é, fugindo com o poeta para outras paragens e abandonando à sua sorte as livrarias que naufragam em seu redor? Ou quantas vezes não me deixei ficar pelo início da rua Garrett, atraído como um mosquito pelas luzes adocicadas da FNAC, pelo silêncio dos passos na alcatifa ou, simplesmente, por uma ilusória sensação de concretização contemporânea, quiçá com laivos de cosmopolitismo, que a armadilha capitalista encerra?

Se cada uma das pessoas que por estes dias se manifesta contra o encerramento da centenária livraria — eu incluído –, se cada uma das pessoas que subscrever a petição que a poderá salvar comprasse um livro na Sá da Costa por mês… Que diabo!, se nela comprassem um livro por trimestre, talvez a situação fosse, hoje, bem diferente. Novamente, chegámos ao cair do pano, e a ninguém perguntámos, sequer, como havia corrido a peça. Resta saber, claro, se a Arte e a Cultura se devem submeter à lógica comercial que vai impondo a sua lei a tudo o resto. Eu talvez desejasse que não, mas isso é matéria para outro artigo. Para muitos outros artigos.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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