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O dia 26 de Julho de 2013 ficará para sempre marcado na memória dos adeptos benfiquistas. Não pela escassa vitória frente ao modesto Levante, já que os resultados menos conseguidos pela equipa encarnada na presente pré-temporada se têm revelado constantes, mas sim pela inauguração do Museu Benfica Cosme Damião, um espaço repleto de boas recordações e grandes vitórias. Como não podia deixa de ser, coube a Luís Filipe Viera a árdua tarefa de proferir um discurso emocionado onde se destacaram as ideias de que o espaço museológico “é obra de todos” e que nele estão representadas todas as conquistas do “maior clube de Portugal”. Mas como no melhor pano cai a nódoa, o presidente do clube da Luz não resistiu em declarar a sua insatisfação pelo facto de Cavaco Silva e Passos Coelho não marcarem presença na cerimónia, logo numa altura em que o país atravessa um período de tão grande estabilidade política, económica e social. Que enorme injustiça.

Localizado junto ao Estádio da Luz, o museu exibe para quem passa por aquela zona uma imponência sublime e requintada. O interior é ainda desconhecido até mesmo para os benfiquistas, já que o espaço só é aberto ao público a partir da próxima segunda-feira, 29 de Julho, mas certamente terá muito para apreciar. Afinal, segundo as palavras de Luís Filipe Vieira, estão lá reunidas as centenas de troféus conquistados pelo emblema encarnado ao longo dos seus “108 anos de história”, um número grandioso que ganha especial relevância se tivermos em conta que a fundação oficial do Sport Lisboa e Benfica data do ano de 1904.

Mas ultrapassados os pormenores e eventuais erros matemáticos, podemos agora passar para o que aqui realmente interessa ter em consideração. A indignação do presidente do Benfica face à ausência do Presidente da República e do Primeiro-ministro justifica-se pelo facto de, na sua opinião, a história do Benfica se cruzar com a história de Lisboa e de Portugal, sendo a inauguração deste “equipamento cultural (e não desportivo)” merecedora da presença dos dois representantes do Estado português. O argumento apresentado foi fraco e, como tal, o comentário não ganhou grande destaque e vai rapidamente cair no esquecimento. Mas havia muito mais para dizer neste contexto.

Portugal é um estado laico, ou pelo menos deveria ser. Tal princípio está definido na Constituição da República Portuguesa, mas na prática acaba por não ser cumprido por aqueles que deveriam dar o exemplo: os governantes. Exemplo disso mesmo foi a recente cerimónia de “entronização” de D. Manuel Clemente como Cardeal-Patriarca de Lisboa em pleno Mosteiro dos Jerónimos, presenciada na primeira pessoa por todas as figuras máximas do Estado português. Se Cavaco Silva e Passos Coelho fazem questão de comparecer em eventos religiosos por que razão se recusam a ir à inauguração do museu de um dos grandes clubes desportivos nacionais? Se é verdade que não existe um clube “oficial” do Estado português, embora por vezes possa parece o contrário, a legislação impõe de igual forma o princípio do laicismo, embora a igreja católica continue a desfrutar de estreitos laços de conveniência mutua com o poder executivo. Era isto que Luís Flipe Vieira devia ter referido, com a ligeireza e a ironia que o assunto exige; e se o tivesse dito até eu, genuíno sportinguista, lhe dava razão.

 A verdade é que como povo de velhos e brandos costumes que somos há coisas que teimam em não mudar. Por esse motivo o presidente das águias deixou passar em branco uma excelente oportunidade para colocar os pontos nos “is” e dar umas valentes bicadas no monstro do poder político, de forma colocá-lo em sentido perante a Opinião Pública. Por falta de visão, pelo seu benfiquismo ou por medo do papão omnipotente que a todos persegue, Vieira não o fez, mas tal falta de atitude acabou por não ter importância em virtude da grandeza da instituição Benfica e do que esta representa para os seus sócios e simpatizantes. Os apaixonados pelo clube da Luz pouco se importam em saber se Passos Coelho e Cavaco Silva estão ou não presentes na inauguração do Museu Benfica Cosme Damião: querem apenas que o clube cresça e que conquiste vitórias. Posição semelhante deveria ter o povo português em relação aos políticos que o governa: pouco interessa onde vão ou o que dizem, o mais relevante são os resultados decorrentes da governação. E como o produto da actividade política se tem vindo a apresentar sempre prejudicial para a população, os portugueses, tal como a nação benfiquista, condenam de punhos cerrados todo e qualquer erro da classe que dirige os seus destinos; e não há museu nem história centenária que apague o sofrimento da precariedade, do desemprego ou da inevitável derrota ao cair do pano.

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Diogo Taborda desenhoDiogo Taborda

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One thought on “Museu de brandos costumes

  1. Pingback: Il museo delle vecchie abitudini | Sosteniamo Pereira

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