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Dou por mim a pensar na História. Essa matéria feita de registos materiais e de senso inteligível. A História que aumenta a cada dia que passa. Que não importa o mesmo para todos, mas que existe de forma universal para quem a quer pensar. História que nos enaltece ou envergonha e que, pensava eu, é feita de material que não se apaga, que não se esbate ou desconstrói. Na minha forma de atribuir o valor de relíquia ao passado, deparo-mo diariamente com Estórias que fazem prosseguir o rumo, ou tentam apagar o caminho, da própria História. E é sobre isso que disserto hoje.

1. Nenhuma instituição sente tanto o peso da História como a Igreja Católica. Logo a seguir, seguem-lhe as Casas Reais. A monarquia não só se assenta nos passos da História, como é fielmente ditada pelos registos antepassados, com um respeito cego. E, por isso, cada acontecimento ligado a um país de monarquia vigente, é envolvido de um protocolo histórico, rodeado dos fantasmas dos antecessores. Fantasmas estes, que assistiram com especial entusiasmo ao nascimento do mais novo descendente da coroa britânica, George Alexander Louis. Mais um nascimento em berço de ouro, mas cujo desfecho poderia ter marcado um novo prisma na História do país. Tivesse a criança nascido com a virtude feminina e seria aplicada a nova Lei de Sucessão ao Trono, aprovada recentemente no Parlamento britânico. E o que traria consigo seria, não só a cara de mais uma Rainha, mas a igualdade de sexos na sucessão, pondo um ponto final na supremacia dos barões. Um sinal que a História tem o seu peso, mas é capaz de se adaptar a novas realidades. Alterar o curso das Instituições tradicionais não será desrespeita-las. Mas dar-lhes continuidade, sem as renegar.

2. O que é transmitido aos sucessores de cada geração, e que tem o carácter de permutar no tempo, são, inevitavelmente, os registos materiais da existência presente. Podem-se transmitir crenças ou ideias de forma verbal, mas estes acabarão com o seu destino cumprido, o de serem apagados na própria transmissão. Mais cedo ou mais tarde, a História conta-se, despropositada ou intencionalmente, de forma diferente. E muda. Contrariamente, o que não tem o carácter mutável, são os documentos, as obras ou os vestígios materiais do passado. A prova de que a História aconteceu e que nos permite crer na existência de anteriores realidades. E, talvez com essa percepção, tentaram os soldados alemães destruir os Campos de Concentração, quando as tropas aliadas socorreram a invadida Polónia. Como que a tentar apagar o extermínio, tentaram destruir-se as pedras. Foram-se milhões de vidas, mas ficaram os seus registos, como que num apelo a que o futuro não as esqueça. Outro exemplo do registo material do extermínio nazi, está na Lista de Schindler, celebrizada cinematograficamente, e que reúne os nomes dos mais de mil judeus salvos pelo empresário alemão Oskar Schindler. Uma lista que vale por todas as vidas nela inscritas e, obviamente, pelas que não se conseguiram salvar. Uma lista que vale como um episódio de esperança num momento negro da História. E que agora está à venda no e-bay por 2,3 milhões de Euros. É a comercialização da História, que me causa transtorno no momento de definição do seu valor. Como se avalia a História? Qual o preço dos registos antepassados?

3. O preço para apreciar os registos históricos é 17,5 Euros. Assim definiu o Sport Lisboa e Benfica, para que, o público em geral, possa cheirar de perto, o pó das taças e galhardetes conquistados pelo clube nos seus mais de cem anos de História. Muito me poderia debater sobre política encarnada na definição do valor das entradas, mas o recém inaugurado museu Cosme Damião é mais importante que isso. A par de todos os edifícios museológicos, este é o local onde a História mostra os seus registos aos interessados. Onde ela se reúne sobre a temática que encerra e enaltece as conquistas. É especialização do passado, que será absorvido por nichos e segmentos de interesse. E, assim, os adeptos do «Clube do Povo», podem rumar ao local sagrado, onde brilham os títulos conquistados outrora, para os seus. Porque um título de um clube nada vale sem o festejo de quem o celebra. E quem celebra o Benfica, ganha um novo espaço físico, que ajuda a tornar a sua crença em algo real e que permite que, materialmente, esta seja transmitida às próximas gerações.

4. O que corre o risco de não ser transmitido às próximas gerações é o  comércio histórico e local. As lojas cheias de charme, que não vendem apenas os seus produtos, mas que ajudam a contar a História. A História das famílias que as atravessaram, dos locais onde decidiram abrir portas, das alterações que o seu mercado sofreu ao longo dos anos. É uma perda sobre a qual dedico o meu Luto. Porque me entristece que a História também esteja submissa à Economia. Como a História contada pela Livraria Sá da Costa, condenada ao encerramento por lógicas de comércio que não a deixam mais respirar. Nascida em pleno Chiado, é também lá que se prepara o túmulo de mais um dos locais históricos de Lisboa, frequentados por personagens portuguesas que só conhecemos nos livros. Ao seu lado, sobrevivem prosperamente os gigantes comerciantes de Cultura, como a FNAC e a Bertrand, empresas responsáveis por sugar mais um dos locais da minha História.

Sou uma amante confessa do antigo. Do preto e branco e do clássico. Dos museus e das estátuas. Dos registos dos antepassados. Porque não seremos, certamente, seres colectivos equilibrados, se o passado não nos ajudar a definir o rumo. Se o peso da História não acusa na balança, então estaremos perante uma crise colectiva de identidade. E um futuro negro e oco se adivinha.

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Mara desenhoMara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste».

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