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Entre a minha mudança de sóis – escalando a rosa-dos-ventos – rumo a paragens mais empardecidas e amenas, li de tresleio um relance noticioso que me aconchegou o riso. Quem explode uma gargalhada, ou mesmo um esgar amarelo sorridente, não está a ser sincero para com a boa comédia: o melhor riso é aquele que, propalado pela melhor das piadas, apenas anui, em terna concordância intelectual. O melhor riso é aquele que, em cúmplice convivência telepática, apenas se manifesta pelo olhar, salvo de palmas para quem arrebatou a comédia no momento. Foi o que me sucedeu a caminho do caminho – «Isaltino candidato a partir da Carregueira». Sorri, embevecido, pelas cócegas da demência: depois de ter escrito, aqui, a saga da «Constituição da Demência», uma pessoa vai-se habituando a domesticar a loucura.

Como um grilo falante apologético da ignobilidade, pousado sobre o nosso ombro qual papagaio do pirata, a imbecilidade afeiçoa-se a nós e nós, na mesma dose ao inverso, habituamo-nos a tratá-la com uma certa dose de cordialidade própria de quem até poderá estar, digamos, receptivo, a ouvir as suas lamúrias desconchavadas, os seus aforismos néscios, as suas verborreias desconexas repletas de desculpas de mau, de desapensado, de atrasado pagador. A demência, como a água para com o corpo humano, é coisa para ser três quartos da totalidade da nossa inteligência. E tudo, digo eu, culpa do hábito. Como as drogas, perceba-se. Primeiro estranha-se, apesar de certa dose de repulsiva vontade, depois entranha-se, já em irrevocável desespero de causa. O que Pessoa se escusou a dizer é que entre um verbo e o outro vai um esticão de estupidez gigante – o tal do inadiável, inevitável, omnipresente. O hábito, que se ganha e entranha no durante.

Um pouco por todo o lado, escrita nas paredes das ruas, nas parangonas dos jornais e folhetins, cifrada nos discursos e nos trava-línguas – a loucura coliga-nos, conecta-nos, em sintonia. E nunca se desliga. Estimamos bem a loucura: raramente lhe falta alguma coisa. Por isso li – e sorri – num milésimo de tal cumplicidade, o enunciado do Isaltino. Faz sentido, vai bem com o traje, enquadra-se lindamente, não poderia ser mais pertinente: Isaltino presidiário, o fraudulento saído faz pouco do armário, para dentro – da Carregueira, perceba-se – vai candidatar-se às eleições autárquicas para o cargo de Presidente da Assembleia Municipal. Não só é de desmanchar o intelecto a rir – a rir para dentro, pois claro – como é, ao mesmo tempo, um murro bem plantado na própria comédia. Desta é que ela não se levanta mais. Eu, confesso, fiquei apoderado pela ternura que descrevi logo ao início, produto de uma convivência amigalhaça da parvoíce, afinal isto é Portugal. Por muito que nos estiquemos, por muito que nos espreguicemos dentro deste país derivante, a imbecilidade fraterna acompanha-nos.

Isaltino ex-autarca, Oeiras «Most Valuable Player», homem cheio de recursos – só no decorrer do seu processo na Justiça fez mais de uma centena deles – dedica-se hoje em dia à militância prisional e às actividades lúdicas mas não menos respeitáveis – e contemplativas – da privação da liberdade e do cárcere introspectivo. Isaltino ilícito (um excelente nome para um futuro filho meu…) além destas actividades de relevo no estabelecimento prisional da Carregueira, é também candidato a coisas. Mas não só a «coisas»: Isaltino da charutada vai a votos nas autárquicas – poder-se-á dizer que o bom filho, apesar de preso, a casa torna. O candidato timoneiro, líder da tal lista onde figura Isaltino, diz que se trata de uma «homenagem» ao presidiário: merece pois então, afinal isto é Portugal. Isaltino condenado, Isaltino da fraude e do branqueamento de sabe-se lá quais capitais – públicos? – merece isso e mais: quem sabe uma estátua numa praceta de Oeiras, um busto de bronze com uma epígrafe de eterno agradecimento, um hino que narre as suas façanhas corrupções e uma bandeira que imortalize aquele bigode de vetusta credibilidade e respeitabilidade, daquelas que se ganham a ser condenado a ir para a cadeia.

Só por este cheirinho a insanidade, Portugal já vale os impostos que pagamos. Eu até sugeria um novo, que incidisse exclusivamente na obtenção de receitas públicas viradas para a manutenção e tratamento da estupidez colectiva, que é, definitivamente, aquilo em que de facto somos bons. Toca a exportar este dom por todo o mundo: «Praise the Lord», o lorde Isaltino. Há que exaltar o Isaltino. Um Isaltino por autarquia não sabe o bem que lhe fazia.

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Bruno Cardoso desenho

Bruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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